TRISTÃO E ISOLDA:


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Original: Tristan and Isolde
País: EUA/Inglaterra/Alemanha
Direção: Kevin Reynolds
Elenco: James Franco, Sophia Myles, Rufus Sewell, David O'Hara, Mark Strong, Henry Cavill, Bronagh Gallagher, Ronan Vibert, Lucy Russell, JB Blanc.
Duração: 125 min.
Estréia: 23/06/06
Ano: 2003


Inglaterra X Irlanda sem tento algum


Autor: Érico Fuks

Os refrões densos e a métrica poética shakesperiana podem render um bom texto, o que não significa necessariamente um bom filme. “Tristão e Isolda”, inspirado no famoso clássico baseado em uma lenda celta da Idade Média que já rendeu chorosas óperas, segue esse exemplo. É a história do amor proibido que precede a lenda de Arthur e Guinevere em Camelot e a da cantilena em sacada da janela de Romeu e Julieta. Aqui no caso, ao invés de famílias inimigas, trata-se de nações que derramaram entre si muito sangue no decorrer da História antiga. De um lado estão os ingleses, que lutam pela união pacífica de todos os povos saxões do atual Reino Unido. Eles estão representados pela figura de Tristão (o insosso James Franco), um líder combatente que quando criança vê seus pais sendo sacrificados à sua frente e é então adotado pelo seu tio, Lorde Marke (Rufus Sewell), e daí vira seu maior guerreiro. Do outro lado estão os irlandeses, cruéis e implacáveis, que buscam conquistar sozinhos o poder de toda a região em conflito. Estes bárbaros impiedosos estão representados pela meiga Isolda (a promissora Sophia Myles), jurada de casamento com um brucutu que morre em combate. Durante essa sangrenta batalha, Tristão é dado como morto e recebe um funeral digno de rei: é colocado estendido em um barco, com velas ao redor do seu corpo. Seguindo sem rumo, este bote vai parar nas mãos de Isolda, que dá ao inimigo todos os cuidados necessários para sua recuperação. É durante essa troca de bandagens que surge o romance proibido de identidades não reveladas.

A mão dos irmãos Ridley e Tony Scott na produção executiva já indica o tom megalomaníaco do filme. O ritmo épico das batalhas regidas pelas lâminas afiadas das espadas, com um pano de fundo histórico, dá a “Tristão e Isolda” o mesmo tratamento de superprodução visto em “Gladiador” e “Cruzada”. Aqui a grandiosidade de uma populosa concentração bélica engloba um sentimento íntimo e particular. Existe um paralelo entre o sofrimento da dor física contabilizada em números e a não-diagnosticada dor da paixão, um sentimento mais personalizado e egocêntrico, centrada nos protagonistas. Ridley Scott admite se sentir atraído pela natureza trágica da história de amor que, segundo ele, é tão intensa que transcende qualquer cenário ou época. De fato, os elementos que constituem a tragédia clássica grega aparecem no filme. O amor é entendido como um símbolo humano e histórico relacionado às perdas e às derrotas. O amor leva à morte e ao sacrifício. Embora seja um conceito hoje um pouco desgastado, existe uma interpretação metafísica de que o amor seja maior do que a vida. Só o amor destrói.

Entretanto, todo esse embasamento artístico não é suficiente para fazer de “Tristão e Isolda” um grande filme. O diretor Kevin Reynolds está acostumado a esconder-se atrás de conceituados tratados literários para dar a estas obras-primas um resultado tímido e opaco. “Robin Hood” e “O Conde de Monte Cristo” ilustram este caminho em que o discurso fala mais alto do que as imagens. “Waterworld”, um dos maiores fracassos da história cinematográfica hollywoodiana, é a própria definição de ilha: muita água pra pouca terra. Em “Rapa Nui” existe uma tendência que aparece em certos momentos de “Tristão e Isolda”, que é um contato mais naturalista do homem com o ambiente selvagem e desconhecido que o cerca.

O maior mal de que “Tristão e Isolda” sofre não é a paixão por baixo dos panos. É a falta de dramaticidade que o texto exige. As lágrimas falsas não convencem. Há um rebuscamento datado na maioria das falas e um abrandamento cinematográfico nas cenas onde poderia haver maior vigor. Reynolds peca ao dividir a batalha bretã de modo maniqueísta. Os irlandeses são grotescamente retratados como seres malvados, inescrupulosos, sanguinolentos. Já os ingleses constituem a porção positiva da história. São bonzinhos, bem-humorados, solidários. Lorde Marke é um diplomata sensato, culto e ponderado que consulta democraticamente as bases antes de tomar uma decisão. Muito embora a obra seja baseada em uma lenda, a reconstituição histórica, como bem sabemos, está longe de apontar para esta direção.

Do ponto de vista estético, o filme corre um sério risco de cair no esquecimento. As cenas de batalha seguem uma cartilha convencional de ângulos e de cortes. Não há imagens a se reter na memória. Nos planos mais abertos, que sugerem uma subjetividade mais contemplativa, existe uma certa pressa. Eles são tesourados em prol de uma narrativa mais moderna e dinâmica, na tentativa de se valorizar o tempo ao invés do espaço, mas fracassa. Se Tristão e Isolda fossem de fato dois adversários lutando em campo neutro, o resultado dessa peleja seria um empate técnico, um morno zero a zero que não consegue extrair lances inesquecíveis.

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