AMIGO É PRA ESSAS COISAS:


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Original: Zim and Co.
País: França
Direção: Pierre Jolivet
Elenco: Adrien Jolivet, Mhamed Arezki, Yannick Nasso, Naidra Ayadi, Nathalie Richard, Nicolas Marié, Maka Kotto, Abbes Zahmani, Jean-Philippe Vidal.
Duração: 88 min.
Estréia: 19/06/06
Ano: 2005


Cinema é pra ser questionado, sempre?


Autor: Cid Nader

“Se pudéssemos escolher não teríamos parentes, somente amigos”. Muita verdade embutida nessa frase de aspecto simples, mas que, na realidade, se faz presente nos maiores e mais determinantes momentos da humanidade – bem como nos mais íntimos; nos menores e mais particulares, dentro desse enorme macrocosmo que a história humana montou; também nos menos importantes e mais necessários para alguns. O cinema, como tudo na vida – artes, religiões, ideologias políticas, esportes ... – sempre apostou forte na força e importância do companheirismo, sabedor das infinitas ampliações nas possibilidades da angariação das mentes e corações de diversidades aparentes de públicos. Diria que, quase que a totalidade da história da sétima arte foi construída encima dos laços fraternais, das mazelas advindas do rompimento desses laços ou da grandiosidade gerada pela batalha em busca de sua manutenção. Logicamente, isso não implica em resultados sempre favoráveis – se bem que, quando o assunto foi explorado sem medo de pieguices ou com os olhos fechados para as cores berrantes emanadas dos momentos de juras de fidelidade, entregas e sacrifícios inacreditáveis, um público específico sempre se fez presente e se emocionou.

O diretor francês, Pierre Jolivet, utilizando-se do momento atual vivido pelas sociedades ex-colonizadoras européias, que “tiveram” de adotar os “afilhados” pobres e empobrecidos pelas mesmas, e apoiando-se na força inata do assunto “amizade”, fez o filme “Amigo é Para Essas Coisas”, um tanto sem ousadia, outro tanto sem riqueza narrativa ou ousadia estética. Mas acreditou que a fusão dos assuntos, por si só, seria suficiente para agradar, no mínimo, aquela fatia de público sempre disposta a ser seduzida e pouco incomodada com a simplicidade franciscana e acomodada que nos foi oferecida por ele com seu trabalho terminado. Ao contar a tentativa desesperada e um tanto honesta além da conta de Zim, (Adrien Jolivet, filho do diretor), que tenta na ânsia de prestar contas à justiça francesa, por conta de um pequeno acidente com sua moto, e ao contar a história de seus companheiros fiéis e inseparáveis , Cheb (Mhamed Arezki), Arthur (Yannick Nasso) e Safia (Nadria Ayadi), que se aliam a ele nessa empreitada, Jolivet ( o pai) conta-nos a mesma velha e boa história que o cinema se encarregou de tornar sua desde o início dos tempos.

Não que tenha resultado daí uma obra acima de qualquer suspeita. O filme coloca em suas fileiras personagens que carregam em si o estereotipo do marginalizado francês. Zim é filho de imigrantes – mais antigos, portanto um pouco mais bem estabelecido, mas filho de mãe que luta sozinha pela manutenção do lar. Cheb e Safia, já pelos nomes e aparências, dispensam qualquer tipo de comentários quanto às dificuldades naturais pelas quais passam num mundo eternamente desconfiado de sua origem. Arthur, pior ainda, além da ascendência africana carrega um dos piores monstros a serem carregados nos dias de hoje: o fato de ser gordo, pelo que é questionado e cobrado inclusive pelo próprio pai – um “entregue”, que age como europeu, imaginando que daí advirão “perdões”, “aceitações” e “embranquecimento”junto à sociedade. Portanto, Jolivet arriscou-se no campo do excesso. Ao colocar todos, sem exceção, do mesmo lado do campo em que jogam os oprimidos e menos bem quistos, e ao fazê-los amigos exemplares sem nenhum tipo de senão no relacionamento, imaginou facilitar sua vida nos terrenos galgados por um certo tipo de cinema.

E o filme caminha bastante marcado por esse excesso de bondade, por esse excesso de pureza, durante toda a sua trajetória. Mas, se começamos a abordar o assunto amizade no início do texto e se imaginarmos ser ele um bom motivador para se contar boas histórias, olhando a obra de Jolivet por esse viés e penetrando fraternalmente na proposta que nos é feita, veremos que o resultado final conclui um trabalho que tem lá seus méritos. Se imaginarmos que o diretor não é desses aproveitadores baratos – e não deve ser, pois o filme tem estrutura rudimentar, caseira, honesta, em sua confecção, longe daqueles trabalhos “pensados” por grandes estúdios e gananciosos produtores – e se comprarmos a sua intenção, “Amigo é Para Essas Coisas” chega a obter, em momentos, um grande resultado. Mas resta uma grande questão: optar por aceitar um filme, imaginando as intenções de seu criador, imaginando que ele agiu por boa fé e movido por bons motivos, não seria ato de concessão de nossa parte? Esticando um pouco mais e colocando uma outra questão: e se for; haveria algum problema nisso?
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