O HOMEM URSO:


Fonte: [+] [-]
Original: Grizzly Man
País: EUA
Direção: Werner Herzog
Elenco: Documentário
Duração: 100 min.
Estréia: 02/06/06
Ano: 2005


Não alimente os animais.


Autor: Cid Nader

O estilo Herzog de fazer documentários tem assinatura facilmente identificável. Ele penetra e "discute" os assuntos, colocando suas impressões mais como um artista do que um documentarista com "sotaque" puramente jornalístico informativo. Essa tendência opinativa vem sendo acentuada com o passar dos anos e o amadurecimento - que nesse caso permite ao diretor alemão se antecipar às possíveis reações e interpretações do público.

Como diretor de ficção é um cineasta que se notabilizou por filmar - principalmente no início da carreira - feitos grandiosos de homens trágicos.Alguns caminhos se abrem para compreensões diversas deste novo documentário realizado por ele. Contando a história do pretenso ecologista e defensor dos ursos castanhos – ou pardos, ou marrons - do Alasca, Timothy Treadwell, que foi morto e devorado junto com a “suposta” namorada e camera-woman, Amie Huguenard, pelos animais a quem acompanhou por 13 verões seguidos, Herzog tenta estabelecer vários caminhos de análise sobre a sua trajetória, suas verdades e métodos de trabalho usados. Utilizando material gravado pelo ex-ator, ex-alcoólatra e pseudo-cientista – algo entre 60 e 70% do documentário - o diretor alemão procura desvendar o quanto de real, de ecologicamente correto e de necessário para o bem dos ursos havia de concreto na maneira de trabalho adotada por Treadwell; ele que havia alcançado um alto grau de notoriedade nos Estados Unidos, aparecendo seguidamente em talkies-shows, por conta de suas "pesquisas científicas". Havia virado uma espécie de herói nacional por seu afinco em defender esses grandes mamíferos e seu habitat; principalmente aos olhos das crianças, pois dirigia suas palavras – quando amáveis – e seus ensinamentos a elas. Por outro lado, vociferava ferozmente contra “atitudes”, ou falta de, quando imaginava que seus defendidos e protegidos corriam riscos, insultando - inclusive com palavrões e gestos obscenos – “a quem merecesse” e filmando tais atitudes.

Por alguns depoimentos, fica claro que era inútil e equivocada a sua luta em defesa desses grandes mamíferos. Alguns amigos e parentes o defendem, mas em depoimento de um nativo nota-se que a convivência com os ursos sempre foi de respeito e saudável distância por cerca de centenas de anos, e que Timothy subvertia esse processo natural de vizinhança, mais por exibicionismo do que real necessidade. Algumas das imagens gravadas e não utilizadas oficialmente nos documentários que eram exibidos nos canais de televisão revelam ostensivamente e sem meias-palavras um homem imaturo na sua relação com os animais. Invadia seu espaço tratando-os como bichinhos de estimação. Revelam mais: que a figura apresentada, via imagens, era na realidade a de um personagem ficcional, construído e criado através de muitos cortes e montagens, fato que ocultava narcisismo exacerbado e impostura. Editava-as para dar mais veracidade a seus programas, mas era nitidamente trabalho que visava acertas arestas que deveriam permanecer mais selvagens e desarrumadas naturalmente. Mesmo assim, muitas das imagens originais da vida selvagem cumpriam sua função anunciada, e algumas delas foram captadas com raro senso de oportunidade e óbvio trabalho de paciência – uma luta entre dois grandes ursos é filmada e apresentada sem cortes, representando um espetáculo pouco comum em sua grandiosidade, crueldade e força.

Herzog executou um belo e grande trabalho no qual tenta decifrar os momentos que antecederam a tragédia e, principalmente, quando almeja elucidar o verdadeiro perfil de alguém que poderia ser mais um de seus heróis trágicos. Só que a tal tendência opinativa que citei no início do texto toma rumo inesperado e enfraquece o trabalho, no momento em que decanta virtudes e procura explicações muito ao seu gosto para alguns dos óbvios desvarios do amiguinho dos ursos. O verdadeiro perfil se apresenta naturalmente, mas Herzog força um pouco querendo conduzir – por alguns momentos – a nossa opinião. E justamente por isso foi infeliz quando se referiu ao documentário "A Marcha dos Pingüins" como um produto "disneyficado" – sem tê-lo visto, simplesmente pelo fato de ter sido indicado ao Oscar de documentário-, sendo que nesse seu filme, o estilo de narração adotado e os momentos em que interfere diretamente - há a cena em que mostra para uma outra pessoa os últimos gritos gravados antes da morte do casal - não deveriam ser considerados como bom exemplo. Poderia comentar alguém: é um trabalho tremendamente "herzogificado".
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