AMOR EM CINCO TEMPOS:


Fonte: [+] [-]
Original: 5x2
País: França
Direção: François Ozon
Elenco: Valeria Bruni-Tedeschi, Géraldine Pailhas, Michael Lonsdale, Marc Ruchmann e Jean-Pol Brissart.
Duração: 90 min.
Estréia: 02/06/06
Ano: 2004


“O Amor em 5 Tempos” – o capito que ti amo?


Autor: Cid Nader

Eis que surge François Ozon novamente, com um cinema que extrapola o conformismo narrativo e meio que à parte do que se faz na França hoje em dia – não deixando de reconhecer que o país tem mantido um nível acima de média, principalmente se comparado ao amontoado de filmes prolixos e vazios que dominou a cena gaélica nos anos 1980 e parte dos 1990. O diretor desde o início suscitou opiniões controversas quando se debatia seus trabalhos e parece disposto a continuar acalorando as conversas à saída de seus filmes. De carreira irregular – justamente pela posição ofensivamente adotada no momento de evidenciar seu cinema – têm defensores e detratores em momentos alternados de sua filmografia. Particularmente, vejo sua performance num crescendo filme a filme, ano a ano. A irregularidade, para mim, era muito mais evidente no início, quando suas ousadias procuravam o espaço certo, o momento propício, mas acabavam utilizadas de maneira afoita; como se Ozon, "fervilhante" de idéias ainda procurasse a melhor maneira de externá-las.

Desse processo de crescimento e ajuste nasceu "O Amor em 5 Tempos". Aliás, curiosamente, o diretor utiliza, novamente, numerais em um título – anteriormente já havia realizado Oito Mulheres – e novamente, também, faz da música parceira importantíssima na construção e para o andamento da película. Nesse trabalho, nos conta em cinco partes os processos de conhecimento, casamento e separação, vividos pelo casal Marion (Valeria Bruni-Tedeschi) e Gilles (Stéphane Freiss), através de alguns anos de suas vidas. Nos apresenta ao par no momento de sua separação legal, frente a um juiz, quando ficamos sabendo da existência de um filho, e constrói mais quatro "filmetes" para explicar suas reais intenções ao imaginar o trabalho finalizado.

No início do filme, o estilo lembra, justamente, aqueles filmes bastante falados, quando o casal tenta por meio das palavras e questionamentos encontrar razões e por quês? Os franceses orgulham-se bastante de sua veia racionalista e fazem disso o esporte nacional. Falam, discutem, tentam entender, cutucam a lama interior, excedem até o ponto do insuportável. Usaram essa faceta de sua cultura de maneira enjoativa em um período de sua filmografia – e angariaram fãs apaixonados por aqui. Mas Ozon, quando usa esse mesmo artifício em 5x2 não o faz de maneira fútil e gratuita. Principalmente na "primeira parte" da história, demonstra a quem interesse que a discussão e o excessivo uso das palavras tem sua razão de ser quando bem utilizados, quando não gratuitos, quando não caricatura de uma civilização.

Nelson Rodrigues coloca o ser humano como algo muito mais complexo e movido por hormônios. A razão – que fica na tentativa das palavras – é subjugada pelo instinto. Há o sexo forçado – quase que estupro, se é que pode existir o quase estupro – que vai, como imagem, às raias da perturbação num momento. Em outro momento, num outro "episódio", acontece forçado e posteriormente consentido, como que provando que o discurso ou o amor, não se sustentam ao instinto ou ao apelo selvagem e interior do clamor sexual. No último episódio, o desejo aparece da maneira mais usual; aquela que forma novos casais e novos relacionamentos, sepultando esgotadas parcerias.

François Ozon não gosta de discutir temas banais. Aprofunda-se bastante neles, mesmo passando a impressão de superficialidade ou leveza para quem não queira comprar suas idéias. Fala também de momentos de insegurança – quando Gilles evita o hospital no momento do nascimento do filho -; fala de incertezas, de medos, mas não se esquece dos momentos felizes. A vida a dois não é tem banal.

A forma de seus filmes são retrato de sua ousadia. Esse é construído às avessas. Conta a sua história de trás para frente. Mas o faz de maneira linear, isso é, começa pelo fim, o meio é o meio mesmo, e no final revela o início da existência do casal. Quando percebemos essa estrutura durante o transcorrer da película, e quando – ao passarmos do quarto para o quinto segmento – notamos que será assim mesmo, provavelmente indagaremos interiormente e no escurinho da sala: por que Ozon não quebrou essa "antilinearidade", por que não botou o meio no fim e a segunda parte no início, por exemplo? Ficaria tão mais legal! Mas não. A mão invertida rigorosamente adotada se explicará. Notaremos, então, que se não fosse assim, a razão de ser das músicas italianas, que subdividem o filme, existirem ficaria sem explicação óbvia. E o final/começo explica de maneira muito sensata a opção pela trilha sonora. Essa última parte se fecha com uma das mais belas cenas, um dos mais belos ocasos, do cinema recente. Magnificamente filmada consegue remeter às reais motivações que fazem com que o amor desperte entre duas pessoas. Aliás, como emociona o desempenho de Valeria Bruni-Tedeschi com sua Marion, composta com olhares e trejeitos apropriadamente bem desenvolvidos para cada momento de sua vida; para cada momento de suas emoções ou inquietações – como a mãe solitária do recém-nascido, como essa garota em processo de paixão que fecha o filme ou como a mulher que entra no quarto com o ex-marido e se esconde timidamente atrás de uma toalha de banho. Aliás, como filma e trabalha bem com as mulheres François Ozon. É só pegar toda sua carreira pregressa – desde os filmes não tão bons até os grandes momentos de acerto – e ver como em toda ela suas atrizes se superam e criam personagens marcantes.

O "Amor em 5 Tempos" é filme coerente na sua maneira invertida de caminhar. O amor vive do presente e se alimenta do passado, das lembranças. Um eterno vai e vem.
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