ARAGUAYA - CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Ronaldo Duque
Elenco: Norton Nascimento, Francoise Forton, Danton melo, Narcisa Leão, Rosanne Holand.
Duração: 105 min.
Estréia: 25/05/06
Ano: 2004


Tainá no Araguaya


Autor: Cid Nader

Um dos mais belos e, ao mesmo tempo, trágico momentos da história nacional recente se passou no meio da floresta amazônica, durante o período de exceção vivido no auge da ditadura militar, que se empossou – e apossou do país, também – após o golpe de 1964. Intelectuais, professores e estudantes, resolveram botar abaixo a adjetivação de “povo gentil” e partiram rumo ao norte do país, dispostos a enfrentar com armas e sangue os algozes que dominavam o cenário de nossa política com mão-de-ferro e poucas atitudes realmente sociais. A região escolhida, não por acaso uma das mais excluídas e pobres do país, era alvo de pura propaganda política junto aos financiadores internacionais do regime vigente, tendo como peça publicitária o início da construção da rodovia Transamazônica – um fato que nos dias atuais revela, pelo seu fracasso, ter-se tratado simplesmente de idéia demente e casuística; uma muleta para um governo ilegítimo e manco.

A Igreja Católica desceu de seu santo pedestal e resolveu colocar em prática os verdadeiros ensinamentos de seu guru, Jesus, passando a lutar pelo bem estar do homem aqui na Terra mesmo. Através da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – , vários bispos espalhados pelo país liderados pelo bispo da Arquidiocese da cidade de São Paulo à época, Dom Paulo Evaristo Arns, partiu ostensivamente em defesa de seu povo, posicionando-se contra o governo militar. Com o auxílio dos sacerdotes progressistas de todo o mundo, adotou a “Teologia da Libertação”, colocou os pés no chão, arregaçou as mangas e colocando-se claramente ao lado dos desvalidos, ao mesmo tempo cerrando fileiras com os movimentos políticos de extrema-esquerda.

Enquanto isso, pela primeira vez, jovens estudantes, professores, intelectuais e políticos armaram-se estrategicamente na tentativa de derrubar, ou desestabilizar o governo vigente. Partiram rumo à Amazônia com claros e bem delineados projetos para concluir tais intuitos. Levaram medicamentos, imbuíram-se com espírito de ensinamento, aproximaram-se do povo pobre e excluído da região. Paralelamente, embrenharam-se na mata para exercitar habilidades bélicas de guerrilha, já que haviam decidido ser esse o melhor de combate e enfrentamento possível frente aos que governavam pelas e para as minorias. Essa verdadeira guerra de guerrilha talvez tenha sido o primeiro – um dos mais contundentes com certeza – movimento do gênero criado e executado pela classe intelectual do país. Pensar em Canudos ou Palmares nos leva a atitudes e movimentos, principalmente, gerados por fanatismo e ideais sem qualquer tipo de concatenação ou ordem – válidos em seus anseios, sim, mas movido pelo povo que não temia a perda de regalias do bom viver; que não via muita diferença entre a morte e um porvir tranqüilo. No caso do Araguaya, setores que perfaziam o imaginário do povo gentil, boêmio, pacato, se uniram e colocaram a cara pra bater; em defesa de toda uma nação, não de segmentos.

Midiaticamente esse processo foi pela primeira vez disposto ao grande público através de uma série de reportagens publicadas pelos jornais “O Estado de São Paulo” e “Jornal da Tarde”, nos anos 1970. Intitulava o episódio como “guerra de guerrilha” e trouxe ao grande público algo que vinha sendo escondido a sete chaves. Em escala bem menor de alcance o assunto foi tratado em diversas publicações acadêmicas que, logicamente, não tiveram o poder de alcançar as pessoas que habitam o lado de cá dos muros universitários; até porque, internamente, era tratado como a tentativa de reação movida e idealizada pelo mundo acadêmico.

Se pensarmos no cinema como um dos maiores, mais acessíveis e simpáticos veículos de mídia; se pensarmos que o episódio da guerrilha do Araguaya já não era muito conhecido pelos que já viviam à época e imaginarmos, então, a sua existência na memória e conhecimento do público mais jovem; se pensarmos que o diretor estreante Ronaldo Duque filmou “Araguaya – Conspiração do Silêncio” de modo ficcional – um método mais acessível e prático na hora de passar recados -, incluindo momentos documentais com depoimentos de alguns que participaram do evento, José Genoíno entre eles; se pensarmos que no mesmo filme a Igreja Católica Progressita está representada pelo francês Padre Chico (Stephane Brodt) e, se pensarmos que vários outros elementos necessários estão dentro dessa obra cinematográfica, concluiremos, então, que o cinema cumpriu sua função e o diretor acertou com um belo e importante trabalho. Certo? Errado!

Duque, aparentemente não confiou na capacidade de seu público captar a essência do deveria ser contado e apostou num filme construído de maneira bobamente artificial, com sua música melosa e incursões mundo amazônico adentro com ritmo de passeio turístico. Tratou seu possível espectador como aqueles que vão ao cinema atrás de efeitos especiais ridículos – as cenas de tortura, nas quais a tela é entrecortada por “rajadas” de luz estourada pontudas por estrondos sem razão de ser, por exemplo. Os momentos de combate, de medo, os didáticos, quase todos num tom errado. Quase tudo como se estivéssemos assistindo às aventuras de “Tainá na Amazônia” – que aliás são bons – em ritmo que turista aprecia; quando o filme deveria, prioritariamente, alcançar o público nacional. Um dos grandes momentos de nossa história, narrado no tom errado.
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