A CRIANÇA:


Fonte: [+] [-]
Original: L´enfant
País: Bélgica/França
Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Elenco: Jérémie Renier, Olivier Gourmet, Débora François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione.
Duração: 95 min.
Estréia: 25/05/06
Ano: 2005


"A Criança" – os simples, os desvalidos, os oprimidos ...


Autor: Cid Nader

Um conselho de amigo: deixe o resto do dia – quem sabe, dois ou três - para não desperdiçar as emoções e sensações que "A Criança", dos Dardenne, despertarão em você: cinéfilo de verdade, ser humano comum, turista de passagem, ou qualquer um que tenha tido a bem-aventurança de passar por uma sala de cinema que esteja exibindo mais essa obra de arte engendrada por esses irmãos papa-prêmios dos grandes festivais, mundo afora. É espetáculo para quem aprecia o bom cinema e, acima de tudo, obras que discutem as relações humanas, sobretudo as que envolvem os seres marginalizados pela degradação causada por um mundo extremamente competitivo – no pior sentido que o termo possa carregar.

Os irmãos belgas, com um cinema que tem assinatura - facilmente identificável -, conseguem nos jogar no mundo dos questionamentos, da inquietude quanto ao nosso destino como seres humanos, usando uma repetição de estilo e até de temática. Quem teve a sorte de ver “O Filho” ou “Rosetta” – esse segundo mais raro aqui no Brasil – notará que desde o início de suas carreiras eles têm cutucado o mesmo vespeiro e, para isso, usado o mesmo material, as mesmas técnicas. E justamente pelo fato e coragem de, aparentemente, se repetirem, exercendo um estilo muito próprio e muito pouco usual, provam a cada “petardo humanístico”, que lançam de vez em quando, estarem alguns degraus acima da média no cinema atual; com alguns poucos cineastas dividindo tais patamares.

Na história, Sonia (Débora François), 18 anos, acaba de ter um filho. Seu namorado, Bruno (Jérémie Renier), 20 anos, é mais um produto típico dessa sociedade desigual denunciada sistematicamente pelos irmãos diretores: desempregado, sem perspectivas e que a caba se sustentando por pequenos trambiques, furtos e golpes aplicados. Sem condições razoáveis de se sustentar a si mesmo, Bruno percebe que para continuar desfrutando do amor e da companhia de Sonia, terá que adotar a postura de pai, fato que implicaria, entre coisas, a necessidade urgente e constante de grana no bolso para poder dar sustento ao novo rebento. Eles são imaturos – repare nas idades -, Bruno se interessa – a princípio – muito mais por Sonia do que pelo filho e toma atitudes aparentemente anormais no decorrer da história.

O filme, como todos os anteriores, se desenvolve no meio da pobreza do Primeiro Mundo - Bélgica - e isso acaba por causar um impacto muito maior pela disparidade chocante do contraste social, que num mundo rico toma ares de maior perversidade. Estamos muito mais acostumados a ver os terceiro-mundistas como os miseráveis. Inconscientemente aceitamos isso de modo mais natural. Ver um ser humano branco, em seu próprio mundo, agindo como nós – pobres extremados e afastados das riquezas – agimos, incomoda bastante. Pode parecer estranho mas é verdade. Esses dois geniais diretores da branca e rica Bélgica têm consciência disso e fazem com que isso se reflita em seu trabalho.

O estilo de filmagem e montagem dos irmãos - que usados por outros cineastas passa a impressão de modismo - mostra razão funcional em seu trabalho. A câmera respira, transpira, passa as emoções urgentes dos personagens, sempre muito próxima e utilizada com destreza e perícia - sim pode se filmar bem com câmera "nervosa" na mão. Eles chacoalham com suas câmeras mas não incomodam, pois usam-na com razão de ser – aliás, nesse filme, até que estão comportados; afastaram-se um pouco mais, fisicamente, de seus personagens. Mas, são exímios construtores técnicos de seqüências, também: existe uma cena, por exemplo, na qual Bruno e um moleque – mais uma das crianças do filme - montados numa moto e prestes a cometer um pequeno roubo, são acompanhados e filmados com tal rigor e precisão, mostrados de tal maneira, com uma câmera tão atenta e generosa nos respiros e reações dos dois , que é possível se sentir toda a tensão e atenção pelas quais ambos passam durante a ação. Perto do final, o foco - o eixo - se transfere, de maneira surpreendente, e ratifica o filme como mais uma de obra de arte, fazendo com que ele crie um vínculo, uma cumplicidade emotiva com "O Buraco", de Tsai Min Liang – é um momento que “fala” de arrependimento, mas acena com a possibilidade de um novo porvir. Genial, emotivo, imperdível.

P. S.: Os Dardenne decifram para nós os signos que ajudam a conduzir o ser imaturo – criança – para a graduação adulta. Eles não definem gratuitamente quem é a criança do título, pois seu trabalho consiste em mostrar o processo de transformação, de modificação, de conscientização. Não nos impõe isso como algo necessariamente obrigatório, não tecem juízo ou avaliações morais, mas demonstram que tal processo pode ser finalizado e concretizado por imposição bruta das circunstâncias. O mundo não é fácil sob a ótica dos diretores belgas, e mostrar isso na tela talvez tenha sido uma missão que se impuseram. Na realidade dá
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