O CÓDIGO DA VINCI:


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Original: The Da Vinci Code
País: EUA
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Alfred Molina, Jürgen Prochnow, Paul Bettany, Jean Reno, Etienne Chicot, Jean-Pierre Marielle, Clive Carter, Seth Gabel e Marie-Françoise Audollent.
Duração: 101 min.
Estréia: 19/05/2006
Ano: 2006


“O Código Da Vinci” – fraco, mas não horripilante.


Autor: Cid Nader

Se há uma coisa que poderia indicar o verdadeiro caminho das pedras e da sabedoria para nós que ousamos criticar e dar palpites em obras alheias é o número espetacular de espectadores ou leitores que acorreram e aplaudiram tais obras. Ousando falar mal – e muito da mal – do livro “O Código Da Vinci” (escrito por Dan Brown) fui retrucado por um fã da obra literária que não concordava com a “elitização” opinativa de vários críticos. No mesmo momento veio-me à cabeça o número de quase 50 milhões de livros vendidos e percebi, então, o quão arrogantes podemos ser nós quando nos propomos a desqualificar um trabalho que teve o mérito de cair no gosto de um bocado de milhões de seres humanos mundo afora. Lembrei-me imediatamente, também, da enxurrada de críticas negativas que inundaram nossos computadores após a primeira exibição do filme no festival de Cannes. É lógico que não passarei a pautar meus palpites encima de números ou me furtarei de emitir minha s opiniões, tentarei colocar minhas razões de forma mais clara, terei mais cuidado e, principalmente, mais respeito por qualquer autor que tenha a capacidade e o dom de cativar tantos simpatizantes a ponto de enriquecer financeiramente com seu trabalho.

Não deixarei de imaginar o livro, um trabalho reduzido e simplificado quando comparado – coisa da qual inevitavelmente não escapa - ao esplêndido “O Pêndulo de Foucault”, do grande Umberto Eco, e aí sim me dirigirei aos leitores aficionados de Dan Brown sugerindo uma passadinha pela obra do intelectual italiano. E aí sim poderei me explicar melhor, sem parecer arrogante ou excludente, imaginando que, com esses novos dados na cabeça, na comparação inevitável dos dois trabalhos, uma certa compreensão dos reais motivos das críticas negativas possa se estabelecer junto aos defensores e admiradores de “O Código Da Vinci”. Mas, para deixar as coisas mais leves e indo direto ao que interessa: até que o filme não é tão ruim quanto estão dizendo meus companheiros de palpites.

O diretor Ron Howard criou um “filme clichê”, sim. Talvez tenha sido escolhido por ser um “diretor meio clichê”, também. A tentativa, afinal de contas, era a de transformar em película um livro que tem aparência de ousado, toca em questões pungentes, usa uma mirabolante e pseudo-ousada teia de fatos e dados apócrifos, mas que, na realidade, também é construído e sustentado por uma enormidade de clichês – devidamente camuflados em sua esperta construção narrativa. Ron usou uns truques que remetem automaticamente ao seu mais recente sucesso: “Uma Mente Brilhante”. Os flash-blacks com cor e luz “granulado/estouradas” estavam lá e estão aqui em incômoda e exagerada quantidade – incomoda e contribui para a depreciação a maneira como são resgatados os momentos de infância ou histórico-religiosos, com exceção de uma em que se fundem imagens recentes com um momento específico em que está envolvida a figura de Isaac Newton; nesse caso, ponto a favor. Outro momento que remete ao filme anterior é uma repetição quase fidedigna de uma cena em que John Nash (Russel Crowe) encontra a solução para uma grande equação, que no caso recente se dá quando Robert Langdon (Tom Hanks) soluciona o enigma do “críptex”.

O filme é todo pontuado por uma trilha sonora “grandiosa” que mais atrapalha do que contribui a favor – composta por Hans Zimmer. Esse incômodo fica mais evidente quando sabemos que o convidado inicial para musicar o filme foi James Horner que recusou a oferta para musicar o esplêndido – e esplendidamente musicado – “O Novo Mundo”, de Terrence Malick. A música é ostensiva e evidencia a falta de densidade dramática em inúmeras seqüências.

Aliás, outro fator que enfraquece a credibilidade narrativa é o fraco desempenho de parte importante do elenco. Audrey Tautou, que interpreta Sophie Neveu, nega fogo e em alguns momentos desempenha de maneira muito ruim mesmo; aparece constantemente apática e com olhar perdido, em nada lembrando o seu melhor desempenho no cinema, Amélie Poulain. Jean Reno (Bezu Fache) repete-se com seu ar “blazé” e o importante Sillas (interpretado por Paul Bettany) parece mais um egresso/zumbi de “A Última Esperança da Terra” do que um penitente/culpado usado pela cúpula da “Opus Dei”. Tom Hanks está ok; dá conta do recado. Mas – novamente contribuindo para que não se possa classificar o filme como muito ruim -, felizmente, temos a genial e carismática presença de Ian McKellen (Sir Leigh Teabing): empresta ao filme o humor – sarcástico e maldoso, sim, por vezes -inevitavelmente necessário a esse tipo de trabalho, fazendo com o filme flua nos momentos em que está em cena.

Disseram alguns que riram muito durante o filme, perante situações esdrúxulas. A cena em que Sophie dirige hábil e velozmente de ré em uma Paris congestionada é digna de algumas boas gargalhadas. O momento em que ela “espanca” o contundente e, até então, letal Sillas pode contribuir com uma inesperada cãibra no maxilar dos menos receptivos. O “replay” da fuga do avião, para o carro, no momento em que pousa em Londres, sinceramente, hein: só faltou a câmera invertida, já que o slow-motion estava lá. Mas o filme, que tem quase cento e cinqüenta minutos de duração, passa fácil, sem cansar e isso eu vejo como mérito. É fraco mas não necessariamente ruim ou horripilante. O problema maior talvez esteja na história em si, que apesar do sucesso e auê causado, com defensores entusiasmados e setores da igreja católica se manifestando ostensivamente contra, não merece tanto estardalhaço. As conclusões e invenções, o seu final pra lá de novelesco, tudo realizado dentro de um único dia – 24 horas – não deveriam ter alcançado tamanho sucesso. Com todo o respeito aos milhões de admiradores – de verdade.
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Na tela O Código Da Vinci funciona mal.