MEU AMOR DE VERÃO:


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Original: My Summer of Love
País: Inglaterra
Direção: Pawel Pawlikowski
Elenco: Nathalie Press, Emily Blunt, Paddy Considine, Dean Andrews, Michelle Byrne, Paul Antony-Barber, Lynette Edwards.
Duração: 86 min.
Estréia: 12/05/06
Ano: 2004


Uma segunda e positiva leitura de “Meu amor de verão”


Autor: Cesar Zamberlan

Vi “Meu amor de Verão” duas vezes. A primeira na mostra, numa sessão lotada no Reserva Cultural, ao lado de duas amigas que vibraram com o filme e se identificaram muitíssimo com as personagens e uma segunda vez numa cabine para a imprensa na semana que antecedeu a estréia do filme.

Vi dois filmes totalmente diferentes. Estava, é óbvio, muito influenciado pelas circunstâncias: maratona de filmes na mostra, reação da platéia, outros filmes que tinha visto nos dias anteriores etc. Escrevi na época da mostra o seguinte comentário:

“Você certamente já viu um filme parecido com esse: menina entediada que mora numa pequena cidade e tem um caso com um cara casado que só quer transar com ela, descobre o grande amor da sua vida, mas tudo dura apenas um verão – não estou contando o filme, está no título. Pois é, parece simplório, mas é isso, só que o amor é uma outra menina, bela, rica e intrigante”.

“Algumas amigas que estavam na sessão gostaram do filme, falaram em perda da ilusão e pareceram tocadas com o desfecho da trama. Lógico que a minha insensibilidade masculina não alcançou isso. Outra coisa: irritante o movimento de câmera em planos mais fechados. A câmera não pára e parece não querer aderir ao personagem, criando um distanciamento do filme e do espectador em relação à história. Se a câmera de Lucrecia Martel - que comparação injusta - é epidérmica, aqui ela, câmera, parece ter alergia à pele das personagens. Para não falar de todo mal do filme, há algumas cenas interessantes, satirizando filmes de suspense e uma sub-história que poderia ser mais aproveitada: a relação da menina pobre com o irmão que foi presidiário e agora virou fanático religioso. Outro atrativo é a beleza das meninas. Os mais tarados, e são muitos, vibraram com a beleza de Emily Blunt. No mais, dispensável, até porque deve estrear logo”.

Hoje, muito temo depois, tendo visto o filme numa cabine para a imprensa: descansado às 10h30 da manhã, cinema vazio e sem ter visto outros 30 filmes na semana, devo confessar que meu primeiro comentário foi bastante injusto com o filme. Primeiro, porque ele não é dispensável, muito pelo contrário, merece e deve ser visto; segundo porque tanto na sua temática como na direção, existem coisas bem interessantes a serem vistas e discutidas.

Não vou desconstruir o meu primeiro comentário, algo que seria bem interessante, pois em muitos aspectos isso seria possível, mas acrescentar a ele uma nova visão do filme, uma nova e diferente leitura. Revendo hoje “Meu amor de verão”, lembrei de “Eu sou o senhor do Castelo”. O filme de Pawel Pawlikowski parece atualizar e situar na adolescência o filme de Regis Wargnier. Em ambos, existe um personagem que de forma cruel e em seu território, manipula o outro, pobre e intruso, colocando o muro do castelo como limite para dois mundos bem diversos.

Manipulação e crueldade são palavras chave no filme de Pawel, cineasta polonês radicado na Inglaterra. No momento que entra no “castelo” de Tamsin, a belíssima Emily Blunt, Mona, brilhantemente interpretado pela atriz Natalie Press, penetra num novo espaço, aparentemente menos opressor e até idílico, tem a promessa do amor romântico, mas será apenas uma peça de um jogo ainda mais cruel e sobretudo, perverso.

Não à toa, Tamsin cita Nieztche, Freud e a história dos casamentos de Edith Piaf, que aliás cai muito bem na trilha do filme. Para ela, a menina rica e letrada que toca violoncelo, toda trajetória está fadada ao trágico, mas essa concepção - o trocadilho com o filme brasileiro que também estréia hoje não é mero acaso – longe de parecer uma atitude madura e resignada conota, sim, um grito de desespero diante do vazio e a esperança de ocupá-lo com algum tipo de blefe – uso aqui a terminologia do grande filósofo Louis Kodo. Por isso, a necessidade de Tamsin de desmascarar o irmão de Mona, seduzindo-o e mostrando o quanto a sua conversão, de ex-presidiário a religioso, era falseada e movediça. Também é frágil, mas oportuna, a trágica história que ela inventa em relação a sua irmã Sadie.

Mona, por sua vez, encarna não o sentimento do trágico, mas a própria tragédia em si. Sem família, sem o irmão que a trocou por um Deus e que quer convertê-la, ela diante da promessa do paraíso, Tamsin e seu castelo, atravessa uma via crucis rumo ao seu verdadeiro batismo.

O filme trabalha com várias metáforas, uma que bem ilustra essa relação entre as duas personagens é a da mobilete que Mona usa e que até a chegada de Tamsin não tinha motor, signo da imobilidade da personagem. Quando Tamsin resolve comprar um motor para a mobilete de Nora, ela coloca Mona em movimento, ela será o motor de Nora e, assim, a enganara, seduzira e a manipulara. Mona, só consegue se livrar dessa falsa promessa do paraíso e emergir deste cruel e perverso rito de passagem quando a promessa de Tamsin é desmascarada.

Um plano, aparentemente banal contrapõe bem essa relação entre o paraíso prometido e a vida terrena: vemos no morro a cruz recém erguida e no vale, sai a fumaça preta da chaminé. Outra metáfora é a do cisne, nome do pub que deixa de existir, da música de Saint Sanz interpretada por Tansim e sua ligação com a morte e o (re)nascimento de Mona.

Outra relação interessante, que une as personagens, mas como agem por motores diferentes, é a cumplicidade estabelecida no plano da vingança e nos instrumentos usados para essa vingança. Quando Mona quer vingar o pai adúltero de Tamsin, ela joga um anão de jardim sobre o vidro do carro. Revolta-se, destruindo o carro, símbolo de poder, em oposição a sua situação social. Já Tamsin, quando quer vingar Mona que foi usada pelo amante, inventa para a mulher deste que Mona acabara de fazer um aborto do marido dela. No canto do quadro, aparece o filho do casal e nem assim, Tamsin ameniza sua história. Com a mesma perversidade, ela destrói a frágil fé do irmão de Mona.

Mas, não é apenas no plano temático que “Meu amor de verão” melhorou, no plano formal também. Ainda me incomoda, mas não com a mesma intensidade, o movimento de câmera quando o diretor aproxima a câmera dos personagens. O vai e vem da câmera mais afasta o espectador do personagem que aproxima e não cria nenhuma outra sensação como aumentar a tensão dramática, dar mais peso a cena, nada disso, não traduz nada para o filme em termos de significado.

Bem, mais interessante é a maneira seca como os planos do filme são decupados, como Pawel transpõe a ação de um espaço a outro, como usa o som, seja a música, seja o ruído da cruz no chão, seja o som de pássaros para “quebrar” as seqüências. Outro ponto a favor do filme é a sua fotografia e a forma como o diretor de fotografia, o também polonês, Ryszard Lenczewski, ilumina o rosto das atrizes. Natalie Press, tipicamente inglesa, branca, sardenta, magra, lembrando, às vezes, com seus traços juvenis Uma Thurmam. Já Emily Blunt, um dos mais belos rostos que apareceu no cinema esse ano. Não tão expressiva como Natalie, mas belíssima.

Nada como rever um filme numa outra condição. Ah! Deliciosa a citação de “Exorcista” e a presença na trilha sonora de Caetano e Gil cantando “Três Caravelas”.

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