A CONCEPÇÃO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: José Eduardo Belmonte
Elenco: Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz, Rosanne Holland, Juliano Cazarré, Murilo Grossi, Gabrielle Lopez.
Duração: 96 min.
Estréia: 12/05/06
Ano: 2006


“A Concepção” – o não sentido e a impossibilidade de se conceber como individuo


Autor: Cesar Zamberlan

As primeiras imagens de “A Concepção”, com a narração em off do personagem Lino, falando sobre como é viver em Brasília, lembram de imediato outro filme que falava sobre a vida na capital do país: “O Sonho Acabou”, primeiro e talvez melhor trabalho de Sérgio Resende. Mas, os tempos são outros e o cinema também. Em “O sonho acabou”, havia, pelo menos, a possibilidade de sonho. Em “Concepção”, não.

Filmado pelo brasiliense José Eduardo Belmonte, “Concepção” é um filme desagradável, sujo, com muito sexo e drogas, que numa primeira e apressada leitura pode nos levar a “Idiotas” de Lars Von Trier e até mesmo “Trainspotting” de Danny Boyle, mais devido ao choque que causa do que ao que quer dizer de fato.

Belmonte fala sobre jovens sem sonho, sem identidade numa cidade opressora, reclusos num apartamento e entregues ao consumo excessivo de drogas, sejam elas quais forem. Derrotados sem a pretensão da vitória, que precisam se reinventar a cada dia para poder curtir um breve amanhã que quase sempre é uma outra longa jornada de orgias e drogas. Essa idéia da reinvenção a cada momento é que gera o “concepcionismo”, um ismo qualquer, vazio, inerte diante do sentimento de tragédia anunciada pela overdose de drogas, sexo e falta de identidade dos personagens.

“Concepção” fala paradoxalmente sobre a impossibilidade de conceber algo ou de se conceber como alguém num mundo esvaziado de sentido, num mundo que esmaga como um rolo compressor qualquer idéia, sonho ou saída diferente da prevista, que esmaga quem busque uma identidade diferente da pré-estabelecida pela sociedade. Nada mais sintomático, nesse sentido, que um personagem se chamar “X” e não revelar a ninguém sua identidade e toda a questão da falsificação de identidade, de cheques que permeia o filme.

O trágico rege “A Concepção”, o vazio rege os personagens e o filme. Esse vazio, como em “os Idiotas”, tem um sentido que é o não sentido, o anestesiar-se: a impossibilidade de se conceber com indivíduo é o sentido do filme. E por isso que o filme é desagradável e tal sensação pode invalidar a leitura do filme, afastando muitos dessa questão importante que retrata uma geração posterior à geração de Rezende e o seu “O sonho acabou”.

A gravidez, a concepção única e real do filme, que poderia ter sido abortada e não foi é o fruto dessa geração sem identidade, sem sonho. A cena final grita isso e deixa em aberto algo muito complicado: que geração é essa que virá?

Para levar as telas essa discussão, Belmonte faz um filme também híbrido em seu formato, com imagens captadas em película e super 8 e também em digital. Conseguirá devido à linguagem e ao tema, certamente, dialogar com mais facilidade com o público mais jovem e deverá ser execrado por aqueles, não necessariamente mais velhos, que verão no filme apenas o intuito de chocar. “Concepção” é mais do que isso. Choca sim, mas pra discutir algo muito importante: como ter uma identidade num mundo que execra a individualidade e que muda a cada segundo, num mundo sem sonhos, a não ser os de consumo.

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