CRIME FERPEITO:


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Original: Crimen ferpecto
País: Espanha / Itália
Direção: Alex de la Iglésia
Elenco: Guillermo Toledo, Mónica Cervera, Luis Varela, Fernando Tejero, Kira Miró, Enrique Villén, Alicia Andújar, Eduardo Gómez, Javier Gutiérrez, Montse Mostaza, Gracia Olayo.
Duração: 105 min.
Estréia: 05/05/2006
Ano: 2005


Imperfeito e criminoso


Autor: Fernando Watanabe

O diretor Alex de la Iglesia vem sendo saudado por alguns como um “ influenciado por Almodóvar”, uma vez que teve seu primeiro filme, “Accion Mutante” (1993), produzido pelo grande cineasta espanhol. Tal dado é, acima de tudo, um argumento utilizado em favor da divulgação do filme em questão, dotando-o de uma credibilidade virtual. Mas é fato que, em “Crime Ferpeito” as cores berrantes e o tom de obscuro e sórdido muitas vezes presentes nos filmes de Almodóvar estão lá, mesmo que realizados com menos talento. Mas mais inquietante que isso é o segundo argumento utilizado em prol da comercialização do filme. É o elogio alardeador de um teor crítico que a obra supostamente teria acerca do consumismo proveniente do capitalismo da época atual.

E, à primeira vista, isso pode parecer verdade para os mais desatentos ou oportunistas. Vejamos. O protagonista, Rafael Gonzáles, é um vendedor tipicamente malandro, bom de lábia, sexualmente promíscuo e ambicioso ao extremo. Suas colegas de trabalho são ninfomaníacas fúteis. Os consumidores são mostrados como ingênuos que facilmente cedem frente à uma boa lábia e à sedução de um produto novo. O consumismo é doentio. Ou seja, os elementos para se construir a crítica ao capitalismo estão lá. Porém o que resulta é justamente o oposto, um caso bastante corriqueiro no qual a intenção passa longe do resultado concreto. Rafael tem ares de Don Juan, bem-sucedido profissionalmente, desejado pelas mulheres, elegante e refinado, quase um super-homem. Como nas fábulas dos grandes heróis, ele vai do topo ao fundo do poço e, devido ao mérito pessoal, irá superar os obstáculos e sair, meio que por caminhos tortuosos, vitorioso ao final, e não sem antes aprender uma grande lição que carrega a moral do filme. A própria abertura do filme já indica que sua história é tida como uma lenda na área de vendas, um modelo a ser seguido. O mecanismo de atração a que somos submetidos em relação a Rafael é um artifício clássico que impõe uma simpatia por parte de quem assiste ao filme. Somos convidados a simpatizar com, e torcer por esse homem calculista, capaz de matar um concorrente a um posto mais elevado da loja para conseguir o que quer ( a cena da morte, aliás, tem um ar de grotesco que remeteria à Almodóvar e ao cinema do extravagante de forma geral, mas no caso, não faz jus à tal tradição).

Somos também convidados a compartilhar da maneira como Alex de la Iglesia retrata as mulheres. Em contraste com as mulheres-objeto bonitas e ninfomaníacas, tem-se a solitária vendedora feia porém de boa alma ridicularizada pelo filme. Ela, apesar de suas boas intenções, é um problema do qual Rafael terá que se livrar. Ele irá usá-la para resolver seu problema, o assassinato, para depois sumariamente descartá-la. Apaixonada, ela nutre, por trás da má aparência, uma libido incontrolável, prestes a explodir que nada deve ao comportamento de suas colegas mais belas. E Rafael, de forma friamente oportunista, cede aos impulsos sexuais da moça com o único propósito de conseguir a ajuda dela no caso do crime. O sexo como moeda de troca. Renderia uma boa reflexão. Mas aqui não, pois a comédia vulgar anula qualquer possibilidade de crítica. A pobre moça é o patinho feio nas mãos do nosso heróico predador, apenas mais um obstáculo que nosso herói Rafael terá que enfrentar a fim de conseguir seu objetivo. No final, ela aparece como uma chique mulher bem sucedida, conseguiu status e ascendeu socialmente. Uma leitura na chave da suposta crítica daria a impressão de que, ironicamente, “todos se dão bem apesar de condutas imorais”. Mas, da forma como a personagem e a história foram construídas até então tem –se privilegiada uma outra forma de compreender este final: a vitória do patinho feio de quem rimos e sentimos pena, “a pobre moça venceu, a justiça prevaleceu”. Em resumo, o filme exalta justamente aquilo que pretendia criticar.

Mas, será que pretendia mesmo criticar? Ou isso é mais um argumento midiático criado por interessados em sua comercialização? Porque “Crime Ferpeito” não é nada mais que diversão e, infelizmente, também mal sucedido nesse quesito.
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