O DIA QUE O BRASIL ESTEVE AQUI:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Caíto Ortiz e João Dornelas
Elenco: Documentário
Duração: 73 min.
Estréia: 05/05/2006
Ano: 2005


O dia em que o Brasil esteve aqui


Autor: Marcelo Hessel

Uma cena aparentemente banal diz muito da situação documentada em “O dia em que o Brasil Esteve Aqui”. No banco traseiro de um carro, o diretor de fotografia Cristiano Wiggers capta com a câmera digital a conversa dos dois haitianos que seguem na frente. Eles falam francês, idioma dos colonizadores. Algo assim: "Podemos dizer qualquer coisa que esses brasileiros não vão entender, chamar eles de filhos da p***, de imbecis, que eles só vão ficar sabendo depois". Pois é. Apesar das coincidências - o desgoverno, o calor latino, a paixão pelo futebol - existem mundos dividindo os dois países, a começar pela língua.

E numa missão diplomática, como a que levou a seleção brasileira para o Jogo da Paz contra o Haiti em 18 de agosto de 2004, comunicação é tudo.

Quando o escrete pentacampeão desceu na capital Porto Príncipe naquele dia, já fazia meio ano que o exército brasileiro tentava colocar ordem no país, após a queda de Jean-Bertrand Aristide, em fevereiro. À televisão, o Primeiro-Ministro do país mais pobre do continente, onde 70% dos 7,5 milhões de habitantes vivem na miséria, havia dito que só o futebol brasileiro seria capaz de levar a trégua à nação que, em duzentos anos de independência, passara por 33 golpes de Estado. O presidente Luis Inácio Lula da Silva gostou da idéia e lá foi com Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos carregar a pomba branca e a camisa canarinho.

Antes do dia 18, porém, o diretor Caíto Ortiz (vencedor do prêmio de Melhor Documentário da 27ª Mostra de Cinema de SP por “Motoboys - Vida Loca”) já estava em Porto Príncipe com o co-diretor João Dornelas. A idéia era captar os esforços do exército, "coadjuvantes" nos dias que antecediam o amistoso. E o que se vê na tela é espantoso: tropas distribuindo bandeiras, camisetas, cartões-postais da seleção. "Eles pedem mais por camiseta do que por comida", diz um cabo. A certa altura um destacamento visita uma creche para doar brindes, mas os brasileiros não entendem o francês das crianças. O assistencialismo é assim, uma via de mão única.

Um dos entrevistados de Ortiz fala neste mesmo tom. É como se o primo rico prestasse uma visita ao primo pobre. Não são poucos aqueles que vêem o amistoso como uma jogada política. O esclarecido Patrice Dumont, cronista esportivo, menciona a ambição do Brasil por um assento no Conselho de Segurança da ONU. E diz mais: "Existe o hard power e o soft power. O Brasil é a potência mais perigosa do mundo porque ela é capaz de aprisionar um país por meio do carisma do soft power".

E há quem se deslumbre, claro. O presidente da Federação de Futebol do Haiti, Jean Bart: "Precisamos ver o Brasil jogar, depois posso morrer". Ele parece ecoar uma voz das ruas. Por boa parte dos 72 minutos de documentário, o que a câmera de Wiggers faz é acompanhar a catarse da população. De cima do caminhão do exército, depois sobre o caminhão que passeia a seleção por uma das favelas de Porto Príncipe, assistimos à multidão correndo e gritando, como num transe de alegria e desespero.

Dá para constatar uma linha autoral nestes dois primeiros projetos de cinema do diretor de publicidade Caíto Ortiz. Essa linha é a iniciativa de registrar, na medida do possível, as imagens do lado de dentro, sempre em movimento, na perspectiva do objeto de análise. Em “Motoboys”, tínhamos a câmera na garupa e no guidão das motos. Aqui, as melhores tomadas são aquelas no meio do povão, na fila caótica da compra do ingresso ou no bar no momento da partida.

Ah, sim, a partida. 6 a 0, sem tento do Fenômeno, mas com um golaço de Gaúcho, como já se sabe. Registrar o amistoso é uma inescapável burocracia em “O dia...”, pois o que importa é captar o ânimo dos haitianos. Pode ser questão de acaso, mas os depoimentos coletados na rua se tornam mais críticos e menos pasmados após o jogo. Alguns dizem que o dia 18 marca o recomeço para o Haiti, um recomeço engajado que cabe somente a eles batalhar, sem ajuda humanitária. Zagallo diz que ali começa o hexacampeonato.

Não falam, como se vê, a mesma língua.

Marcelo Hessel é redator do site Omelete, www.omelete.com.br
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