MENINAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sandra Werneck
Elenco: Documentário
Duração: 71 min.
Estréia: 05/05/2006
Ano: 2006


Proposta falha. Por contenção de recursos?


Autor: Cid Nader

A diretora Sandra Werneck tem seu trabalho extremamente ligado e associado à cultura carioca. Faz filmes que têm o cheiro e a cara do Rio de Janeiro. Quando podemos constatar que “Meninas” – esse seu documentário que estréia agora – se passa todo em torno de garotas que habitam as favelas de lá, algumas questões, invariavelmente, se fazem presentes, ansiando por respostas. Teria ela destinado o cerne da questão do documentário no rumo das favelas para associar a falta de programação, ou conhecimento, por parte dos protagonistas à pobreza e exclusão – sendo que isso poderia acarretar conclusões que colocariam a diretora num patamar de simplificação da discussão do tema e “alimentadora” dos estereótipos que vinculam ignorância ao povo mais simples, de parcos recursos e segregado da sociedade? Mostrar hospitais públicos – humildes, sim, em suas instalações – com atendimento sempre gentil e, aparentemente, eficiente, funcionários sorridentes e solícitos (reação ante as câmeras de cinema?), poucas filas e uma certa cara de primeiro mundo, não pareceria um comportamento meio “chapa-branca” por parte dos realizadores? Numa entrevista coletiva com a diretora, questionada sobre os locais de exibições gratuitas do trabalho – visto que teria, se bem realizado, papel importante junto aos adolescentes -, a única lembrança que lhe veio à mente foi a de uma exibição para os estudantes da Faap; perfeitamente compreensível, pois a faculdade também é reduto de adolescentes e pós-adolescentes, mas e o “submundo” retratado, na hora da festinha, com a diretora presente e tudo mais, não deveria estar presente nas lembranças mais urgentes de Sandra – afinal foi o cenário utilizado para a confecção do documentário?

Falando do que se trata: “Meninas” é um documentário que mostra a vida de algumas garotas que engravidaram muito cedo, acompanhando-as no período de um ano, desde a recém-descoberta da gravidez até um período razoável pós-parto. Temos Evelin (13 anos) grávida de um rapaz de 22 anos; Edilene (14) que espera um filho de Alex, que engravidou outra garota, também, (Jóice) e está inseguro sobre “qual seu verdadeiro amor entre as duas”; e Luana (15), que diz ter engravidado por opção própria, “planejadamente” , para ter um filho só para si. O documentário segue as meninas mas não dá impressão de continuidade, com montagem atabalhoada, que privilegia aspectos menos importantes – fofocas, briguinhas – e deixa uma sensação muito fragmentada na retina do espectador. Sandra acerta – não sei até que ponto propositalmente – quando mostra o verdadeiro calvário pelo qual passam e passarão as futuras avós nessa história; pessoas ainda razoavelmente jovens que batalham para sustentar as famílias e que terão pela frente ainda o novo e encargo, mas que passam a sensação de que continuarão batalhando – mesmo em meio a algumas discussões com as filhas prenhas-, mostrando-se totalmente desarmadas ante a visão dos recém-nascidos, no momento que o preponderante instinto materno sobrepõe-se a tudo.

A diretora tem carreira bastante calcada nos documentários e retoma esse caminho após muitos anos – desde 1993 com “Profissão Criança” – no mundo da ficção. Disse ter entrevistado mais de cem meninas em vários estados mas que optou pelas três cariocas por uma questão logística, digamos assim. Seria mais fácil acompanhar a trajetória das três garotas por estarem todas na mesma região. Compremos a fala de Sandra Werneck, ok: então por que não mostrar garotas de outros extratos sociais da própria cidade do Rio de Janeiro; é sabido e de conhecimento público que a falta de informação e noção sobre gravidez precoce atinge todas as camadas, indistintamente; seria bastante interessante passar o “suposto” recado para as garotas da zona sul, também – obviamente se identificariam melhor com “suas semelhantes”. Evitando, pensar pela diretora e imaginar que ela tenha realizado seu trabalho com pré-conceitos deturpados, resta então dizer que ela segregou demais a questão, reduziu demais os horizontes que poderiam comprar a idéia, não teve sensibilidade para conduzi-lo por outras paisagens, outros mundos, outros modos de pensar.

A impressão que fica é de que as favelas cariocas – isso não querendo acreditar, volto a repetir, que Sandra Werneck compactue com a algo semelhante à estética de “cosmetização” da miséria – e suas pobres meninas eclipsaram as outras possibilidades naturais para um desenvolvimento mais completo do trabalho, tapando as vistas da diretora como que por um encantamento, que se apodera dos nativos da cidade de São Sebastião e faz crer ser ali o centro do universo, único e suficiente como representante do resto do Brasil.
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