TRILOGIA BELVAUX - ACORDO QUEBRADO:


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Original: Apré la Vie
País: Bélgica - França
Direção: Lucas Belvaux
Elenco: Dominique Blanc, Gilbert Melki, Lucas Belvaux, Ornella Muti
Duração: 124 min
Estréia: 28/04/2006
Ano: 2002


“Acordo Quebrado” – Trilogia Lucas Belvaux


Autor: Cid Nader

Vou tentar passar adiante, antes de qualquer coisa, a idéia do diretor belga, Lucas Belvaux, a respeito desse seu trabalho, “Trilogia”, classificado por alguns como extremamente inédito e inovador – um exagero, nem tanto – e premiado, na França, com o “Cesar” de edição; afora as indicações para Melhor Diretor Melhor Roteiro. Por suas próprias palavras: “vamos imaginar as nossas vidas em filme. Cada um de nós é o personagem principal, rodeado por pessoas mais ou menos próximas, que por sua vez são os personagens principais das suas vidas, nas quais nós desempenhamos um papel secundário. Se nós somos o ponto de partida, o centro do mundo ou, neste caso do filme e através de círculos concêntricos, aqueles que amamos - a família, os melhores amigos, os amigos, os conhecidos etc -, chegamos ao grupo de pessoas que só encontraremos uma vez na vida, das quais nada sabemos e, obviamente, nada sabem de nós, porque nas suas vidas somos apenas extras”.

Belvaux realizou um filme três em um. Mas não de maneira facilmente compreensível, numa primeira tentativa de entendê-lo. Filmou-os simultaneamente, usando equipes de filmagens diferentes para colher as cenas através de vários ângulos, que foram usadas, cada uma a seu tempo, em momentos específicos de cada um dos três filmes. Os protagonistas principais de um filme, portanto, passaram a ser meros coadjuvantes nos outros; o que, ao contrário de diminuir sua importância, acabou por nos demonstrar a importância de cada pequeno detalhe ou respiro, ou suspiro, no conjunto geral das coisas. Algo como: “se uma borboleta bater as asas na floresta amazônica, isso acarretará algum tipo de reação física nos fiordes da Noruega”, por exemplo. Para complicar um pouco mais a coisa, na realidade para tentar passar mais credibilidade e impor peso e importância dramática ao seu projeto, usou gêneros diferentes em cada um dos três: drama um, thriller o segundo e melodrama o outro.

Mais uma peculiaridade dotou o projeto: não há posicionamento – ordem , fila - a ser seguido para se assistir a cada um dos três filmes. Apesar de terem vida em comum, como se fizessem parte da mesma família, eles também sobrevivem bem, independentes, como se fossem irmãos com o mesmo sangue e algumas características físicas comuns entre si, mas que a um certo momento da vida necessitem sair a mostrar que têm suas peculiaridades, suas particularidades, seus caminhos próprios a serem seguidos. Ele demorou cerca de dez anos para concluir seu projeto, desde escrevê-lo, captar recursos, arranjar produtores, filmá-lo, filmá-lo, filmá-lo, editá-lo e colocá-lo nas telas grandes. Apesar de belga, filmou na região de Grenoble, França, e coloca em seus créditos serem os filmes produção: França e Bélgica. Cometeu uma sandice ao falar da Bélgica como um país pequeno e quase sem importância na história do cinema, mas que, mesmo assim, conseguiu destaque e reconhecimento mundial graças aos trabalhos dele e dos irmãos Dardenne – ousado,maluco ou irresponsável ao equipara-se com os geniais irmãos cineastas?

Repetiu os mesmos atores para formarem os três casais que protagonizam os três filmes: Ornella Muti (o mulher bonita, parece que não muda) e François Morel, Catherine Frot e ele próprio, Dominique Blanc e Gilbert Melki. Mas, um trabalho tão pretensioso e ambicioso, correria, pelo encargo a si arrogado, o risco de não conseguir cumprir as metas ambicionadas. Logicamente que um trabalho de tamanha complexidade logística não pode simplesmente ser escorraçado, sem dó nem piedade. Usar três equipes de filmagens simultaneamente, cada uma querendo fazer seu próprio filme – sendo que de gêneros diversos – e depois costurar tais situações, cada uma com sua finalidade e devidamente “presas” a cada filme, é trabalho a ser respeitado. Mas que o resultado final, de alguma maneira deixou a desejar, ah isso é lá verdade; com todo o respeito ao empenho e imaginação do diretor.

“Acordo Quebrado” – uma pequena análise

E eis que chegamos ao drama da trilogia. Drama adotado como um dos três estilos para conduzir ao final essa “saga” imaginada por Belvaux. Como já tivemos a oportunidade de perceber nos dois filmes anteriores Gilbert Melki representa o policial Pascal Manise, que além de ter que dividir o seu tempo entre procurar o fugitivo ex-guerrilheiro e saber se o marido de Ornella Mutti a está traindo, sofre com a dependência por drogas da esposa, Agnès (Dominique Blanc). O episódio embrenha-se aos outros novamente de maneira peculiar, mas é o mais fraco como obra isolada. Violento e mostrando um sub-mundo recheado de policiais corruptos e traficantes e droga, tenta passar aquela velha impressão de que a França é um país perdido e sem volta.

As situações mais pertinentes ao episódio se atropelam de maneira esquemática, querendo nos fazer crer que tudo que é dito e mostrado vem pleno de boa carga dramática. E nada. Justamente no “drama” o quesito interpretação fica mais em dívida com o espectador. Os atores parecem ser os mais fracos da trupe escolhida para encenar toda a “saga” ou, algo provável de ter ocorrido, são mal dirigidos por Lucas, que estaria, enfim, demonstrando não ter capacidade de tirar de seus atores o algo a mais que drama tensos e chorosos exigem. Os espasmos por abstinência de Agnes e os seus reclamos pouco convincentes pela falta da droga, aliados à cara de olhar sempre pasmado – olhos arregalados como quem não sabe direito o que está acontecendo – do policial/traficante Pascal são, por momentos, constrangedores.

A trilogia se fecha – e aqui por caso, somente pela escolha dos programadores na ordem de disposição dos filmes ao público – mal. O trabalho que carrega por seu projeto original um monte de dúvidas quanto à sua validade ou novidade, quanto ao por quê de ter sido realizado – se não como exercício de estilos, somente – poderia sair de campo passando uma impressão melhor à torcida caso a ordem de apresentação fosse diferente. Se tivesse optado por um tom de comédia mais ampliado a toda a trilogia, Belvaux talvez tivesse obtido um melhor resultado. De qualquer maneira, como curiosidade, o trabalho está aí e até deve ser conferido. Nem que seja para sair falando mal; mas com propriedade e conhecimento de causa.
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