DIA DE FESTA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Toni Venturi e Pablo Georgieff
Elenco: Documentário
Duração: 77 min.
Estréia: 28/04/2006
Ano: 2005


“Dia de Festa”: um equilibrado e importante retrato do movimento sem teto


Autor: Cesar Zamberlan

Os movimentos organizados que lutam por inclusão, pedindo terra ou teto, são extremamente mal vistos pela sociedade, fruto de uma era que não sabe pensar no coletivo, valoriza o individualismo e dá as costas para a gritante desigualdade social em que vivemos. A mídia de forma orquestrada, principalmente a Globo e a Veja, não cansa de colar a esses movimentos uma imagem associada à baderna e violência, colocando sem terra e sem teto como os piores marginais: os nossos terroristas.

Nesse sentido, é importantíssima a estréia, mesmo que num único cinema em São Paulo, de um filme como “Dia de Festa” de Toni Venturi e do franco-argentino Pablo Georgieff. “Dia de Festa”, assim como “À Margem do Concreto” de Evaldo Mocarzel, outro filme que retrata a questão, não conseguirá mudar esse quadro, não tem essa pretensão, e não reverterá a imagem negativa que a sociedade faz desses homens e mulheres que lutam para mudar uma situação que o Brasil faz de conta que não existe, mas o filme faz um contraponto e faz justiça a uma causa honestíssima.

Sob este aspecto, “Dia de Festa” que estréia agora tem uma importância vital. Importância por retratar um momento da nossa história em que alguém ousou se organizar, criar um movimento organizado e reclamar por moradia, gritar contra a desigualdade social. Importante também por estender a mão a estas pessoas que excluídas e ignoradas podem agora mostrar porque lutam, o que querem e que não são os demônios que a mídia pinta, muito pelo contrário, são brasileiros como nós, com menos sorte, mas não menos sangue e inteligência.

Vi “Dia de Festa” duas vezes no Cinesesc e em ocasiões muito distintas. Uma no Festival de Documentário “É Tudo Verdade” e outra numa sessão especial para os membros do Movimento dos Sem Teto do Centro, os retratados no filme – muitos estavam num cinema pela primeira vez. Mas, antes de falar do filme, queria falar da reação das pessoas ao filme, sobretudo na sessão do “É Tudo Verdade”.

No Festival, o documentário foi aplaudido veementemente, o que causou até um certo incômodo porque parecia que aquela realidade não dizia respeito àquelas pessoas, como se as ações do movimento, as ocupações, os chamados dias de festa, fossem ações que eles aprovassem. Como se tudo não passasse de um espetáculo, triste mas distante.

Logo lembrei do episódio que ocorreu no site da Revista Cult que na mesma época do festival colocou uma matéria e entrevista com os diretores do filme e fez uma enquête com os internautas sobre a questão. As respostas foram assustadoras em se tratando do perfil de público que lê, ou que imaginávamos que compusesse o perfil de leitores de uma revista como a Cult. Ressalva seja feita: quem respondia muito provavelmente não tinha visto o filme que só estréia agora, o que não quer dizer que vendo o filme mudaria de opinião.

Digo isso porque “Dia de Festa” é um filme triste que retrata um país miserável, fato que deveria causar indignação e não aplausos acalorados como se a imagem projetada na tela fosse uma ficção, estivesse descolada da realidade, fosse um mero e encenado espetáculo. Mas, falemos do filme.

O filme escapa a essa possível espetacularização das ocupações, os dias de festa, coisa que o trailer do filme erroneamente valoriza, e prende-se à trajetória de quatro líderes do movimento. Elas: Neti, Silmara, Janaína e Ednalva falam sobre sua infância, onde moraram, como viam e como chegaram ao movimento. Os depoimentos são intercalados ao dia-a-dia delas como coordenadoras dos Sem Teto do Centro, a preparação para as ocupações, a organização dos sem teto pós-ocupação e a perspectiva de confronto, despejo ou sucesso com a desapropriação do imóvel.

Tudo registrado com muito rigor pelos dois diretores que, por mais ligados que sejam à causa, em nenhum momento vilanizam quem quer que seja ou santificam as coordenadoras. Os policiais que comandam a desocupação dos prédios, por exemplo, são retratados com isenção e com uma simpatia que os aproxima, apesar da situação, aos sem teto. Como afirmou Toni Venturi, (leia a entrevista concedida ao cinequanon), a única diferença é que ele tem um teto e ganha um pouco melhor, ou seja, tem uma vida melhor, mas não muito melhor que as coordenadoras e os demais sem teto.

Esse equilíbrio ético e formal só melhora “Dia de Festa”. O filme evita o sensacionalismo, imagens chocantes, o melodrama fácil e quando coloca depoimentos mais emocionados e emocionantes o faz na justa medida. Caso do depoimento da mãe de uma das coordenadoras do MSTC que com fome raspou o fundo de uma panela com leite e fubá e se arrependeu depois, pois o filho acordou e pediu comida, sendo aquela rapa, a única coisa que havia para comer na casa. A câmera nesse momento num movimento muito sutil mostra a filha chorando o que acentua a força do depoimento e retrata uma condição, ou sub-condição, de vida terrível, mas não super valoriza o depoimento, ele está bem inserido ao contexto.

Da mesma forma, o filme sabe se utilizar os letterings informativos que dão ao espectador dados relativos à ocupação urbana de São Paulo, mostrando qual desigual é a ocupação dos imóveis em São Paulo e como muitos desses imóveis, abandonados, poderiam servir a esse contingente enorme de pessoas que não tem um lar e em decorrência disso não tem emprego, acesso à saúde, educação, saneamento básico etc

Importante e equilibrado, “Dia de Festa” merece muitos aplausos, mas aplausos indignados e não uma ovação calculada e hipócrita. Que esse documentário seja visto, debatido e que novas pessoas se organizem em torno de movimentos que longe de fazer baderna, procuram, sim, transformar essa baderna que os políticos e a sociedade tanto prezam, em uma sociedade mais justa e onde todos tenham, pelo menos, um teto, um pedaço de chão.
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