O CORTE:


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Original: Le Couperet
País: Bélgica/França/Espanha
Direção: Costa-Gavras
Elenco: José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils, Christa Theret, Ulrich Tukur, Olivier Gourmet, Yvon Back, Thierry Hancisse, Olga Grumberg, Yolande Moreau
Duração: 122 min
Estréia: 28/04/2006
Ano: 2005


Em “O Corte”, os fins não justificam os meios


Autor: Leonardo Mecchi



Em um determinado momento de “O Corte”, a família do protagonista Bruno Davert entra, de maneira exageradamente explícita e didática, na clássica discussão sobre os fins justificarem os meios. Tal questão é primordial no cinema de Costa-Gavras, que de “Amém” a “Z” nos expõe as reações de seus personagens diante das imposições do meio em que vivem. Mas ela serve também para questionarmos a própria estrutura deste mais recente filme do diretor: o fato de se tratar de um filme “engajado”, com temática social e de denúncia contra os excessos e mazelas de um capitalismo selvagem, justifica sua forma tão desleixada e desinteressante?

Mal resolvido entre o thriller social e a comédia de absurdo, “O Corte” acompanha Bruno Davert, alto executivo da indústria de papéis que, após ser demitido em função de reestruturações de sua empresa, resolve eliminar (literalmente) seus possíveis concorrentes na busca por um novo emprego. A partir desse momento, a câmera cola no protagonista e o acompanha ao longo do filme na busca por seus rivais onde, entre uma situação inusitada e outra, os personagens expõem ininterruptamente uma série de lugares comuns sobre o desemprego e suas conseqüências.

A opção por retratar o protagonista próximo ao patético não permite que o espectador se identifique com ele, perdendo com isso grande parte do impacto da exposição. Não estamos diante de “alguém como nós”, vivendo uma situação pela qual poderíamos passar e tomando decisões que poderiam ser as nossas. Temos ao invés disso um personagem excêntrico e atrapalhado, ao qual acompanhamos, na melhor das hipóteses, com alguma curiosidade.

O que salva o filme são as interpretações de José Garcia, como um Bruno Davert ambíguo e cínico, e de Karin Viard, como a esposa que, mesmo sem compreender exatamente o que está ocorrendo, tenta manter o casamento e ajudar seu marido. Apesar disso, a insistência no discurso panfletário e a pouca atenção dada à encenação fazem de “O Corte” um filme do qual pouco se retêm após a saída do cinema.
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