TEMPO DE VALENTES:


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Original: Tiempo de Valientes
País: Argentina
Direção: Danian Szifron
Elenco: Luis Luque, Dulio Orso, Diego Peretti, Marcelo Sein, Ernesto Claudio, Óscar Ferreiro, Gabriela Iscovich, Tony Lestingi e Carlos Portaluppi.
Duração: 112 min
Estréia: 28/04/2006
Ano: 2005


Humor e corrupção policial


Autor: Cid Nader

Existe um caso sub-Woody Allen no país dos hermanitos: Diego Peretti. Esse ator, com uma cara deslavadamente de traços judaicos, reforça sua postura cênica com um calcar bastante reforçado na caracterização hebraica, remetendo-a, por tudo e por nada, ao grande artista nova-iorquino. Já desde filmes anteriores que por cá aportaram, fica muito óbvia a tentativa de aproximação ao, provavelmente, seu ídolo mor. Não que seja uma cópia física de Allen – é mais alto, tem cabelos mais fartos – mas procura acentuar a sua “feiúra”, a voz de tom um tanto desagradável e as gags físicas, para ficar mais ligado à imagem do outro.

Fui assistir, portanto, “Tempo de Valentes”, com bastante receio do que iria encontrar – além do medo das composições de Diego estava bastante ressabiado com a qualidade das últimas películas platinas a que tive a oportunidade de acompanhar. Mas, cinematografia que tem recebido elogios seqüenciados já por anos consecutivos, é de se esperar que a qualquer momento reaja e retome um rumo que vinha sendo traçado com qualidade e muitas certezas. E – contabilizando-se ao menos os filmes que têm estreado no Brasil – esse filme, dirigido pelo novato Damián Szifron, aparece como o responsável pelo aguardado momento da reação. O início, a bem da verdade, não é alentador: uma seqüência de violência total com assassinatos ao melhor/pior estilo americano e a frieza atípica do mandante que continua a sua refeição sobre o sangue que se espalha pela mesa – se bem que, no final da trama, essa insaciável vontade de comer será fator fundamental para o desencadear da trama. Outra coisa que indicava o caminho da saída do cinema – também no início – é a maneira como nos é apresentada a cidade de Buenos Aires, qual uma Nova Iorque, com tomadas embaladas ao som do mais puro jazz; por falar em Woody Allen.

Mas, o receio inicial começa a perder terreno nessa intrincada maneira que o nosso senso crítico busca para posicionar-se ante o “previsto” e é superado rapidamente pela “real” e recém-descoberta intenção do filme. O novato diretor concebeu – em parceria com roteirista e companhia bela – um trabalho de humor esperto e inteligente, contrapondo mundos, e seus habitantes, absolutamente distintos em tudo: o do comportamento machista e um tanto tapado da polícia ao do mundo culto, recheado de signos e mais afeito à igualdade entre os sexos representado aqui, no filme, por um psicólogo. O nosso Woody Allen portenho, Diego Peretti, representa na película o tal psicólogo (Mariano Silverstein) que é contratado para acompanhar, por um dia, um policial de aparência abrutalhada, Alfredo Diaz (interpretado por Luis Luque), que está em crise existencial após descobrir que vinha sendo “traído” pela mulher. O primeiro improvável contato entre os dois acaba por se estender da delegacia ao carro de polícia; e está formada a mais nova dupla da praça.

O humor empregado para dar credibilidade à formação e conseqüente continuidade do duo vai aparecendo de maneira inteligente, com grandes sacadas, boas piadas, interessante combinação entre os dois profissionais e grandes momentos. Vamos do pequeno e agradecido sorriso – piadas inteligentes têm tal capacidade – a instantes de genuína gargalhada. O momento em que Diaz, pela primeira vez na casa do psicólogo, arranca uma insuspeitada confissão da mulher deste, sinceramente, muito bom. Numa outra seqüência, em que a mesma mulher, juntamente com o marido psicólogo, “amarra” e domina sob a mira de um “nervoso” revolver um agente do serviço de inteligência da polícia argentina, também, gargalhar escancaradamente é a mínima reação esperada. O filme, na realidade, ganha muito mais qualidade ainda quando vão sendo desvendados os seus “ataques” ao mundo dos machos, como se tratasse do assunto num filme de faroeste - a música ao seu término, inclusive, faz a ligação definitiva da trama “psico-policialesca” ao tema enobrecido pelas mãos de John Ford e Sérgio Leonne. Mas é sério também na acusação à corrupção policial e na denúncia do uso do poder bruto que tem tal instituição – quando comparada a sua denúncia à feita no filme “16 Quadras”, por exemplo, constatamos que a película de Damián Szifron é muito mais adulta e conseqüente do que seus similares rocambolescos americanos. Uma boa, engraçada, atipicamente argentina e inteligente surpresa.

P. S.: preste bastante atenção à razão alegada por Alfredo Diaz, quando questionado pela mulher de Silverstein – no jantar da primeira noite da parceria – sobre o por quê da corrupção dentro da polícia. Resposta direta, contundente e, infelizmente, muito realista.
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