TERAPIA DO AMOR:


Fonte: [+] [-]
Original: Prime
País: EUA
Direção: Ben Younger
Elenco: Uma Thurman, Meryl Streep, Bryan Greenberg, Jon Abrahams, Zak Orth, Annie Parisse, Aubrey Dollar, Jerry Adler, Doris Belack e Ato Essandoh.
Duração: 105 min
Estréia: 28/4/2006
Ano: 2005


Me enganando em Manhattan


Autor: Cid Nader

“Me engana que eu gosto”. Sob o pretexto de estar apresentando uma comédia modernamente engajada, Ben Younger surge dirigindo “Terapia do Amor”. A história, os personagens e as situações tocam assuntos “tabus”, com ar de ousadia e proposta do tipo: “vamos lá, rindo mostraremos que vivemos num mundo que não aceita preconceitos ou coisas do gênero”. Afinal, o filme fala de amor entre mulher muito mais velha e jovem quase imberbe, de psicóloga que passa por cima dos códigos rígidos de conduta da profissão ao enganar o paciente, da questão/obrigações preceitos religiosos dentro de família judaica ...

O filme, realmente, consegue atingir o seu intuito de enganar ao espectador por boa arte de sua trajetória. Como comédia romântica que é, arranca risos e suspiros de maneira engenhosa, com diálogos e situações bem esquematizados, ritmo adequado e boas atuações da dupla feminina, Uma Thurman (Rafi Gardet) e Meryl Streep (Lisa Metzger) – o ator, Bryan Greenberg (David Bloomberg), não consegue cumprir sua função de nos enganar já desde o início, por falta de capacidade interpretativa. Mas a carapuça começa a cair quando o momento da auto-afirmação – ou confirmação da “radicalidade” - inevitavelmente aparece e as pretensas denúncias vão voltando ao seu lugar de origem – de onde só saíram para um tour por Manhattan.

Rafi Gardet (37), recém divorciada, se apaixona por um garoto meio ingênuo mas cheio de saúde, David Blooberg (23), filho de sua psicanalista (Lisa Metzger). Isso se dá, no início sem que nenhuma das partes tenha conhecimento da ligação dos entre si. Para complicar um pouco mais, a família do rapaz é de origem judaica e bastante religiosa, carregando, ainda, um certo preconceito quanto a namoros ou casamentos com pessoas “out” da comunidade. Para complicar um pouco mais ainda, a psicanalista descobre, a um dado momento da trama, que a namorada não judia do filho é sua paciente, a quem incentivava levar à frente o novo relacionamento relatado, entre dúvidas e senões, nas sessões. E por aí vai, como uma comédia de enganos a serem descobertos no seu transcorrer e como filme de amor impossível, a arrancar suspiros da platéia.

O diretor inventa algumas possibilidades de quebra de signos sociais. A terapeuta, ao descobrir o namorado da paciente é seu filho, deveria abandonar imediatamente o caso, mas não o faz, passando a tirar “uma certa vantagem” da situação – descobre coisas a respeito do filho que não imaginara até hoje, em interpretações de Merryl e Uma que arrancam boas gargalhadas. A terapeuta, que deveria ser pessoa liberal e sem preconceitos religiosos, revela-se uma mãe judia ao melhor estilo, cobrando do filho fidelidade à raça e comportamentos mais apropriados ao histórico da colônia. O filho – quase que recém saído da adolescência – mostra resquícios de comportamentos infantis ao não abandonar algumas práticas e a companhia de um amigo que tem por divertimento maior jogar tortas na cara de ex-namoradas. Rafi freqüenta um círculo de amizades de comportamento mais refinado e intelectualizado, bastante apropriado ao seu padrão social, que incentiva o namoro com ressalvas; mais pelas possibilidades da satisfação física que um rapaz deveria proporcionar a uma quase quarentona. Existe a avó, mostrada em flash-back, que bate com uma panela na cabeça a cada “novidade” do neto garanhão; um porteiro de prédio negro, com pose e comportamento desconfiado de desenho animado do início do século passado. Por aí vai

Mas nada é concretizado a contento. A estereotipada família judia conserva seus ranços ao final da história. O destino do namoro é o ditado em todas as cartilhas do gênero das prateleiras. O fato de existir do recepcionista negro – algo que pareceria bobamente jogado na história – revela-se simplesmente, por pequenas sutilezas, parte da estratégia do diretor. O novo destino artístico do rapaz, a neve à porta de um bar, pequena e fugaz traição, sei lá, não convencem. Se o filme se assumisse como uma história de amor de verão, emoldurada pelo cenário sempre a ser descoberto de Nova Iorque, seria mais honesto e talvez se sustentasse até o final com dignidade. Tem seu público certo se observado por esse viés. Só que o diretor almejou alcançar públicos mais amplos e variados, atingir outros extratos sociais, usando para isso uma parafernália de truques. Não é coisa que se faça. Acaba deixando no ar uma certa sensação de preconceito, de coisa tão arraigada, tão íntima, que não consegue ser extirpada; mesmo quando realizada com atitudes pensadas e premeditadas.
Leia também: