TRILOGIA BELVAUX - UM CASAL ADMIRÁVEL:


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Original: Un couple épatant
País: Bélgica - França
Direção: Lucas Belvaux
Elenco: Ornella Muti, François Morel, Valérie Mairesse, Bernard Mazzinghi, Dominique Blanc, Gilbert Melki, Catherine Frot, Lucas Belvaux.
Duração: 97 min.
Estréia: 21/04/2006
Ano: 2002


A comédia da trilogia


Autor: Cid Nader

Vou tentar passar adiante, antes de qualquer coisa, a idéia do diretor belga, Lucas Belvaux, a respeito desse seu trabalho, “Trilogia”, classificado por alguns como extremamente inédito e inovador – um exagero, nem tanto – e premiado, na França, com o “Cesar” de edição; afora as indicações para Melhor Diretor Melhor Roteiro. Por suas próprias palavras: “vamos imaginar as nossas vidas em filme. Cada um de nós é o personagem principal, rodeado por pessoas mais ou menos próximas, que por sua vez são os personagens principais das suas vidas, nas quais nós desempenhamos um papel secundário. Se nós somos o ponto de partida, o centro do mundo ou, neste caso do filme e através de círculos concêntricos, aqueles que amamos - a família, os melhores amigos, os amigos, os conhecidos etc -, chegamos ao grupo de pessoas que só encontraremos uma vez na vida, das quais nada sabemos e, obviamente, nada sabem de nós, porque nas suas vidas somos apenas extras”.

Belvaux realizou um filme três em um. Mas não de maneira facilmente compreensível, numa primeira tentativa de entendê-lo. Filmou-os simultaneamente, usando equipes de filmagens diferentes para colher as cenas através de vários ângulos, que foram usadas, cada uma em seu tempo, em momentos específicos de cada um dos três filmes. Os protagonistas principais de um filme, portanto, passaram a ser meros coadjuvantes nos outros; o que, ao contrário de diminuir sua importância, acabou por nos demonstrar a importância de cada pequeno detalhe ou respiro, ou suspiro, no conjunto geral das coisas. Algo como: “se uma borboleta bater as asas na floresta amazônica, isso acarretará algum tipo de reação física nos fiordes da Noruega”, por exemplo. Para complicar um pouco mais a coisa, na realidade para tentar passar mais credibilidade e impor peso e importância dramática ao seu projeto, usou gêneros diferentes em cada um dos três: drama um, thriller o segundo e melodrama o outro.

Mais uma peculiaridade dotou o projeto: não há posicionamento – ordem , fila - a ser seguido para se assistir a cada um dos três filmes. Apesar de terem vida em comum, como se fizessem parte da mesma família, eles também sobrevivem bem, independentes, como se fossem irmãos com o mesmo sangue e algumas características físicas comuns entre si, mas que a um certo momento da vida necessitem sair a mostrar que têm suas peculiaridades, suas particularidades, seus caminhos próprios a serem seguidos. Ele demorou cerca de dez anos para concluir seu projeto, desde escrevê-lo, captar recursos, arranjar produtores, filmá-lo, filmá-lo, filmá-lo, editá-lo e colocá-lo nas telas grandes. Apesar de belga, filmou na região de Grenoble, França, e coloca em seus créditos serem os filmes produção: França e Bélgica. Cometeu uma sandice ao falar da Bélgica como um país pequeno e quase sem importância na história do cinema, mas que, mesmo assim, conseguiu destaque e reconhecimento mundial graças aos trabalhos dele e dos irmãos Dardenne – ousado,maluco ou irresponsável ao equipara-se com os geniais irmãos cineastas?

Repetiu os mesmos atores para formarem os três casais que protagonizam os três filmes: Ornella Muti (o mulher bonita, parece que não muda) e François Morel, Catherine Frot e ele próprio, Dominique Blanc e Gilbert Melki. Mas, um trabalho tão pretensioso e ambicioso, correria, pelo encargo a si arrogado, o risco de não conseguir cumprir as metas ambicionadas. Logicamente que um trabalho de tamanha complexidade logística não pode simplesmente ser escorraçado, sem dó nem piedade. Usar três equipes de filmagens simultaneamente, cada uma querendo fazer seu próprio filme – sendo que de gêneros diversos – e depois costurar tais situações, cada uma com sua finalidade e devidamente “presas” a cada filme, é trabalho a ser respeitado. Mas que o resultado final, de alguma maneira deixou a desejar, ah isso é lá verdade; com todo o respeito ao empenho e imaginação do diretor.

“Um Casal Admirável” - uma pequena análise

Nesse episódio que assume o formato da comédia da trilogia fatos bastante interessantes acontecem. Vale lembrar, novamente, que a mistura com os outros dois segmentos se faz de maneira bastante engenhosa. Utilizar três equipes distintas para filmar cenas que viriam a ser utilizadas em comum parece ter sido o que de melhor Belvaux colheu nesse seu projeto. Além do encantamento que nos causa percebermos momentos de algum dos filmes anteriores repetidos, quando menos esperamos, repentinamente num outro episódio, criando novas possibilidades de interpretação ou finalmente compreendermos “tal cena meio sem nexo daquele outro dia”, a aparente liberdade concedida pelo diretor a cada uma das equipes na maneira de captar as imagens – hora com tomadas fixas, outra hora com a câmera girando, mais outra com a câmera na mão – permitiu que cada um dos dois episódios já vistos fosse montado de maneira própria e peculiar.

Por conta de uma montagem muito mais fragmentada, “Um Casal Admirável” chega a assumir, em boa parte de seu percurso, o ritmo de comédia leve e ligeira. As falas e as atuações também reforçam essa característica – Ornella Muti (Cécile), linda e sensual como sempre se sai muito bem, já François Morel (Alain) fica um pouco abaixo. Ri-se bastante no início do filme, por ser bem construído e bastante fluido. Porém, quando começa a perder a força e espontaneidade, começamos a matutar e desejar que tivesse somente uns 58 minutos para poder ser definido como o média-metragem da turma. É fato interessante, também, notar que tal fragmentação pode em alguns momentos passar a sensação de que este filme, especificamente, foi construído como uma colcha de retalhos, como se tivesse sido montado com trechos curtos e abandonados de cenas, que por instantes se avolumam em instantes de não mais de dez ou vinte segundos, freando a boa e saudável vontade de gargalhar.

Chega-se a acreditar que toda a trilogia poderia ser uma grande comédia, tamanha qualidade e “jeito para a coisa” que “Um Casal Admirável” nos impõe nesses inexatos – 58, 60, 65 minutos? - momentos iniciais. As tramas mais sufocadas e pesadas dos outros episódios parecem um grande equívoco de Belvaux, um exercício que não precisaria ser realizado. Mas ele acaba por se equivocar – causando um grande e irreparável estrago, inclusive - nesse momento, também. E a idéia da trilogia vai, de mais nítida, contornando seus limites, evidenciando de que lado e em que quantidades estão os acertos e, dum outro modo, os erros.

Aguardem o último “capítulo” para uma conclusão um pouco mais complexa e completa.
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