BRASÍLIA 18%:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Nélson Pereira dos Santos
Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Malu Mader, Othon Bastos, Carlos Vereza, Nildo Parente, Otávio Augusto, Bete Mendes, Karine Carvalho, Mônica Keiko, Michel Melamed, Herbert Bijnr, Laura Lustosa, Bruna Lombardi, Déo Garcez, Ney Sant'anna e Tonico Pereira.
Duração: 102 min
Estréia: 21/04/2006
Ano: 2006


Brasília Zero Grau


Autor: Érico Fuks

Comprovado: a experiência de congelamento genético existe na prática e funciona. “Brasília 18%” é o mais recente exemplo de laboratório que justifica a teoria biológica de que, à la Mel Gibson, é perfeitamente possível entrar num frigorífico e acordar duas décadas depois mantendo-se a idiossincrasia do período jurássico original.

Pois bem. Nelson Pereira dos Santos, que já nos brindou com obras importantes e contemporâneas como “Rio 40 Graus”, “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”, resolveu desaquecer seu termômetro carioca causticante e nordestino árido pra trazer às telas um compêndio ficcional frívolo sobre a corrupta capital brasileira.

O ponto de partida são os bastidores dos escândalos e das histórias mal contadas que aparecem diariamente na mídia. Traz vagamente à tona algo parecido com os contornos que o escândalo político da morte de PC Farias causaram ao país. O renomado médico legista Olavo Bilac (Carlos Alberto Riccelli) funciona como uma espécie de Badan Palhares nesse paralelo. Trabalha em Los Angeles e é convidado pelo IML de Brasília para fazer um laudo sobre a controvertida perícia da identificação de uma ossada, supostamente pertencente à jovem economista desaparecida Eugênia Câmara (Karine Carvalho). Se a perícia confirmar a identidade de Eugênia, ficará provado que ela foi assassinada pelo namorado Augusto dos Anjos (o versátil ator teatral Michel Melamed que, aqui, está literalmente preso e contido), cineasta e última pessoa a vê-la antes do desaparecimento. Os políticos acusados querem que o cineasta permaneça na cadeia, e por isso pressionam o legista para identificar o corpo de Eugênia. Aí entra em jogo a questão ética, misturada a um amontoado de motivações pessoais que entrarão em choque no derradeiro parecer sobre a causa mortis da novilha defunta.

A fininha veia cômica embutida nesse freezer cinematográfico até que promete. Dar aos personagens nomes de protagonistas da literatura é um chiste bem-vindo do diretor. Talvez se trate de uma ironia em relação ao tratamento dado à qualidade do texto do filme. Enquanto que os escritores e poetas buscam a posteridade artística e a perpetuação de suas obras, o recorte folhetinesco típico de notícia sensacionalista de jornal estampa seu cheiro perecível e seu frescor efêmero. Ou então, essa licença poética de se apoderar de identidades literárias conhecidas serve para reforçar a idéia de que o filme, mesmo e apesar de suas nuances baseadas em fatos, nada mais é do que uma obra de ficção, resultado de um processo criativo livre e esquizofrênico do autor.

A porcentagem indicativa do título, de acordo com informações extra-oficiais de releases (ou talvez eu tenha dormido em algum momento explicativo crucial da exibição da película), refere-se tanto à baixa taxa de umidade da cidade quanto ao número de filmes de ficção realizados pelo diretor. Trata-se também de uma anedota subliminar contada por Nelson para ele mesmo. Até aí tudo bem. Nada impede que o autor se utilize à exaustão de elementos cognitivos herméticos como forma de brincar com seu público. O problema é que, nas informações não fornecidas pela assessoria de imprensa da distribuidora do filme, tudo leva a crer que o número 18 do filme diz respeito ao termostato que mede a frigidez cênica predominante. O Aritana Riccelli leva demais a sério a morbidez estática de seu papel. Confunde o dilema pessoal com a falta de expressividade de seu semblante. Exagera em seu olhar que contempla o nada, em busca do desnecessário. Mais uma vez, o cinema brasileiro teima em manter os vícios interpretativos que trocam diálogos por declamações. Tudo é muito falso, sem vida, sem naturalidade.

“Brasília 18%” é uma estalactite dentro do panorama nacional cinematográfico contemporâneo. Tudo parou nos tiques nervosos dos anos 80. Os planos são pesados, a estética cheira a mofo, a busca pela verossimilhança causa gripe. Só dá mesmo pra espirrar diante de tanta naftalina. Resta saber se os outros 82% do cinema nacional estão sendo preenchidos por autores que não se petrificaram no tempo e no espaço.
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