16 QUADRAS:


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Original: 16 blocks
País: EUA
Direção: Richard Donner
Elenco: Bruce Willis, Mos Def, David Morse, Alfre Woodard, Nick Alachiotis, Brian Andersson, Robert Bizik e Shon Blotzer.
Duração: 105 min.
Estréia: 21/04/2006
Ano: 2006


“16 Quadras" - ou "16 quarteirões, blocos ..."


Autor: Cid Nader

Bruce Willis, o ator, tem uma característica peculiar que e o diferencia de outros galãs do cinema de ação norte-americano - aliás, se contarmos o fato de ser meio calvo, são duas características. Já na sua estréia junto ao grande público, na premiada série de TV, "A Gata e o Rato" (década de 1980), fazia o papel de um detetive meio atrapalhado, folgado e cínico, David Addison Jr, que tinha grandes problemas no relacionamento com a parceira de dupla Maddie Hayes (Cybill Shepherd). Apanhava dos bandidos, vez por outra, metia-se em encrencas e desviava-se de uma possível aproximação amorosa com sócia na agência de detetives. Já no cinema ficou conhecido, principalmente, como o detetive John McClane, principal protagonista da trilogia "Duro de Matar". Obviamente, como figura/galã do cinema norte-americano, novamente travestia-se com um papel notoriamente associado a sujeitos durões, dispostos a usar os atributos físicos para impor-se sobre coadjuvantes bandidos e mal-feitores, consolidando uma imagem arquetípica daquelas produções. E - sabe-se lá cargas d'água por quê -, novamente ressuscitando sua faceta de "peculiaridade", não chegava ao final de cada um desses filmes com as calças lisas e as camisas imaculadamente brancas. Pelo contrário: apanhava pra valer, tomava vários capotes, passava por otário e algo mais. Certo, também, que chegou vivo e vencedor ao final de todos eles. Mas que marcou com um estilo meio anti-herói, ah isto marcou.

Ricahrd Donner , o diretor, tem uma característica peculiar que o aproxima do ideal imaginado por produtores e grandes estúdios do cinema norte-americano – aliás, ao contrário de seu ator em “16 Quadras”, sem tendência à calvície. O seu faro – ou habilidade – para concretizar “blockbusters” é impressionante e deve agradar em cheio aos manipuladores do setor grana da grande indústria. Já nos distantes anos 1960 emplacou diversos sucessos inquestionáveis na televisão: as séries “Além da Imaginação”, “O Fugitivo”, “O Agente da UNCLE” e, um pouco mais tarde, “Kojack”. Partindo para o cinema, anos mais tarde, viu confirmada sua vocação pelo sucesso ao realizar filmes que ganharam notoriedade, desde os cinéfilos mais “näifs” aos mais bem resolvidos e “avançados” culturalmente: “Superman – O Filme”, “Ladyhawke – O Feitiço de Áquila”, “Os Goonies”, “Os Fantasmas Contra-Atacam”, “Free Willy”, sem falar na coleção de”Máquinas Mortíferas”. Com certeza, um diretor com grande senso para direcionar seu trabalho na busca do grande público, mas seria tapar os olhos e acreditá-lo somente como um realizador de sucessos fáceis, se não quisermos enxergar qualidades especiais em “Os Goonies” e um ou dois dos “Máquinas Mortíferas”. Voltando aos tempos da televisão, então, poderíamos inclusive considerá-lo um quase gênio, porque quem dirigiu o revolucionário “Além da Imaginação” e o adrenado thriller “O Fugitivo” merece respeito.

Juntemos então, Bruce Willis e Richard Donner: resultado, “16 Quadras”. Nesse filme em que Willis protagoniza novamente um herói atípico, como o policial Jack Mosley, a intenção do diretor é a de construir um thriller que se sustente - além do inevitável ritmo frenético e recheado de situações violentas ou prestes a explodir em violência – pela “denúncia” de uma polícia corrupta e violenta, que age da maneira que mais lhe aprouver para não ser pega de calças curtas. Donner aposta forte, também, nas interpretações de Bruce Willis, como um detetive com problemas emocionais e meio alcoólatra, e de Mos Def (Eddie Bunker), como um prisioneiro que tem que testemunhar perante um juiz sobre má conduta de policiais. As interpretações, como trunfo do diretor, acabam muito carregadas na tinta da composição, principalmente na ênfase estereotipada no modo de falar emprestado por Mos Def ao seu personagem.

A outra aposta do diretor para criar sustentação ao seu trabalho é no tempo usado para contar a história. Ele meio que inventa um filme em tempo real – à moda dos seriado televisivo “24 horas” – mas acaba passando a impressão de que o tamanho da garrafa era insuficiente para tanto líquido. As estripulias de ação são em número exagerado; os minutos gastos para o transporte entre um e outro local passam a impressão de que de um filme em “tempo irreal”, na realidade. A tarefa de Jack Mosley, numa modorrenta manhã pouco antes de retornar do trabalho para casa, é a de conduzir o criminoso Eddie Bunker, em segurança, para testemunhar em um tribunal. Aceitando agir como delator o moleque conduzido pelo policial imagina o momento em que se verá livre da prisão, podendo voltar ao interior e trabalhar na sua verdadeira profissão de padeiro. O filme consegue imprimir um certo glamour sentimental ao explorar essa verdadeira obsessão de Eddie Bunker e o lento, porém progressivo, reconhecimento, por parte de Mosley, de que ali, em seu banco traseiro, existe antes de tudo um ser humano, maltratado pela sorte e faltas de oportunidade da vida.

O que não funciona bem mesmo, são os exageros – como já disse – interpretativos de Mos Def, principalmente, e o excesso de informações, violência, reviravoltas, descobertas, lembranças, arrependimentos, contatos telefônicos, ambulâncias que vão, carros de polícia que vem, compactados no tempo “real” de 118 minutos; ou de 16 quadras a serem percorridas até o objetivo final. Parece-me ser um filme que angariará simpatia e o afluxo de uma platéia ansiosa por ação e mortes e tiros. Mas ganhará espaço, também, no coração de alguns mais entusiasmados, que brigam pelos direitos e oportunidades iguais a todos, ou os que enxergarão no filme um grande exercício de composição cinematográfica; com certeza uns exagerados.
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