ESTRELA SOLITÁRIA:


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Original: Don´t Come Knocking
País: EUA/Alemanha
Direção: Wim Wenders
Elenco: Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie-Saint
Duração: 122 min.
Estréia: 21/04/2006
Ano: 2005


A busca de Wenders e de Howard


Autor: Cesar Zamberlan

Estréia essa semana o novo filme de Wim Wenders, “Estrela Solitária” e com ele, volta a questão que atormenta o cineasta, o seu cinema, a crítica e os amantes de cinema nos últimos 20 anos - ou melhor, 19, desde o lançamento de “Asas do Desejo” em 1987: esse Wenders é tão bom quanto seus filmes das décadas de 70 e 80?

Caindo nessa armadilha que a excelência do cinema de Wenders criou e que obscurece a própria leitura e interpretação de seus filmes da década de 90 em diante, por querê-los num padrão elevadíssimo, pode se dizer que há tempos ele não fazia um filme tão interessante e tão redondo. Nada comparável – a comparação é inevitável - às obras-primas: “Alice nas Cidades” (1973), “O Estado das Coisas” (1982), “Paris Texas” (1984) e “Asas do Desejo” (1987) ou mesmo a “O Medo do Goleiro Diante do Pênalti” (1971), “No Decorrer do Tempo” (1976), “Amigo Americano” (1977) e “O Filme de Nick” (1980), outros grandes filmes do diretor; mas distante também de filmes como “Terra da Fartura” (2004) e “O Fim da Violência” (1997), dois equívocos.

Wenders parece ter se livrado ou esquecido o estigma que carrega por ter sido apontado, sem nenhum exagero, como um dos maiores nomes do cinema mundial nas décadas de 70 e 80 e aquele que melhor retratou uma era de transição entre as revoluções políticas, sociais e comportamentais da década de 60 e 70 para os tempos atuais, nos quais a velocidade da informação, o consumo e a globalização ditam novos rumos ao homem e a sociedade. O cineasta alemão parece ter desistido de buscar uma imagem, uma história, uma explicação para essa nova era e reencontrou no parceiro Sam Shepard, o mesmo do roteiro de “Paris Texas”, um caminho em meio a esse deserto que se transformou a vida moderna e o seu cinema por querer sintetizá-la ou defini-la. Parece ter deixado de lado o artificialismo de outros filmes e voltou à paisagem árida de “Paris Texas” para reencontrar o seu cinema.

O trajeto do cineasta, nesse sentido, é o mesmo do personagem de “Estrela Solitária”, Howard Spence, o ator de western que abandona o set de filmagem e volta a sua terra natal, ao colo da mãe para se reencontrar com algo que nem ele sabe o que é. É a mesma busca por algo que ficou perdido há 20, 30 anos. No caso de Howard, ele fica sabendo que tem um filho, o procura e é desse encontro e reencontro com a vida que o filme se constitui. Na mesma linha que Jamursch em “Flores Partidas”, mas menos desencantado, Wenders e Howard olham para trás e tentam ver o que aconteceu , é o mesmo gesto; como se o tempo tivesse sido acelerado, criando uma lacuna, só agora descoberta, entre esses dois tempos.

Mais intimista e menos pretensioso, Wenders consegue criar bons personagens, caso do próprio Howard vivido por Shepard; do vivido por Jéssica Lange que faz uma das cenas mais fortes do filme quando vai da indiferença à paixão e no meio da fala consegue com uma naturalidade incrível brincar com o trocadilho entre Howard e Coward, covarde em inglês, magistral; e também o personagem da novata Sarah Polley, de “Vamos Nessa”, “Madrugada dos Mortos” que compõem uma personagem riquíssima na sua silenciosa composição.

A personagem e um despojamento na composição de algumas seqüências, recortadas, estilizadas, faz lembrar o início da carreira de Hal Hartley - outro cineasta que vive em briga com seu passado. Esse despojamento fica claro na belíssima seqüência do sofá no meio da rua, bela metáfora da busca do lar, e na forma como Wenders acompanha a menina que anda com as cinzas da mãe para baixo e para cima.

Um belo filme, com uma bela luz, uma bela música e belos momentos. Talvez, um outro Wim Wenders, senão genial; bem interessante.

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