EM FUGA - TRILOGIA BELVAUX:


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Original: Cavale
País: França /Bélgica
Direção: Lucas Belvaux
Elenco: Lucas Belvaux, Catherine Frot, Dominique Blanc, Ornella Muti, Gilbert Melki, Patrick Descamps, Olivier Darimont
Duração: 117 min.
Estréia: 14/04/2006
Ano: 2002


Um thriller


Autor: Cid Nader

Vou tentar passar adiante, antes de qualquer coisa, a idéia do diretor belga, Lucas Belvaux, a respeito desse seu trabalho, “Trilogia”, classificado por alguns como extremamente inédito e inovador – um exagero, nem tanto – e premiado, na França, com o “Cesar” de edição; afora as indicações para Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Por suas próprias palavras: “vamos imaginar as nossas vidas em filme. Cada um de nós é o personagem principal, rodeado por pessoas mais ou menos próximas, que por sua vez são os personagens principais das suas vidas, nas quais nós desempenhamos um papel secundário. Se nós somos o ponto de partida, o centro do mundo ou, neste caso do filme e através de círculos concêntricos, aqueles que amamos - a família, os melhores amigos, os amigos, os conhecidos etc -, chegamos ao grupo de pessoas que só encontraremos uma vez na vida, das quais nada sabemos e, obviamente, nada sabem de nós, porque nas suas vidas somos apenas extras”.

Belvaux realizou um filme três em um. Mas não de maneira facilmente compreensível, numa primeira tentativa de entendê-lo. Filmou-os simultaneamente, usando equipes de filmagens diferentes para colher as cenas através de vários ângulos, que foram usadas, cada uma a seu tempo, em momentos específicos de cada um dos três filmes. Os protagonistas principais de um filme, portanto, passaram a ser meros coadjuvantes nos outros; o que, ao contrário de diminuir sua importância, acabou por nos demonstrar a importância de cada pequeno detalhe ou respiro, ou suspiro, no conjunto geral das coisas. Algo como: “se uma borboleta bater as asas na floresta amazônica, isso acarretará algum tipo de reação física nos fiordes da Noruega”, por exemplo. Para complicar um pouco mais a coisa, na realidade para tentar passar mais credibilidade e impor peso e importância dramática ao seu projeto, usou gêneros diferentes em cada um dos três: drama um, thriller o segundo e melodrama o outro.

Mais uma peculiaridade dotou o projeto: não há posicionamento – ordem , fila - a ser seguido para se assistir a cada um dos três filmes. Apesar de terem vida em comum, como se fizessem parte da mesma família, eles também sobrevivem bem, independentes, como se fossem irmãos com o mesmo sangue e algumas características físicas comuns entre si, mas que a um certo momento da vida necessitem sair a mostrar que têm suas peculiaridades, suas particularidades, seus caminhos próprios a serem seguidos. Ele demorou cerca de dez anos para concluir seu projeto, desde escrevê-lo, captar recursos, arranjar produtores, filmá-lo, filmá-lo, filmá-lo, editá-lo e colocá-lo nas telas grandes. Apesar de belga, filmou na região de Grenoble, França, e coloca em seus créditos serem os filmes produção: França e Bélgica. Cometeu uma sandice ao falar da Bélgica como um país pequeno e quase sem importância na história do cinema, mas que, mesmo assim, conseguiu destaque e reconhecimento mundial graças aos trabalhos dele e dos irmãos Dardenne – ousado,maluco ou irresponsável ao equipara-se com os geniais irmãos cineastas?

Repetiu os mesmos atores para formarem os três casais que protagonizam os três filmes: Ornella Muti (o mulher bonita, parece que não muda) e François Morel, Catherine Frot e ele próprio, Dominique Blanc e Gilbert Melki. Mas, um trabalho tão pretensioso e ambicioso, correria, pelo encargo a si arrogado, o risco de não conseguir cumprir as metas ambicionadas. Logicamente que um trabalho de tamanha complexidade logística não pode simplesmente ser escorraçado, sem dó nem piedade. Usar três equipes de filmagens simultaneamente, cada uma querendo fazer seu próprio filme – sendo que de gêneros diversos – e depois costurar tais situações, cada uma com sua finalidade e devidamente “presas” a cada filme, é trabalho a ser respeitado. Mas que o resultado final, de alguma maneira deixou a desejar, ah isso é lá verdade; com todo o respeito ao empenho e imaginação do diretor.

“Em Fuga” – uma pequena análise Vou discorrer de maneira econômica, por enquanto, sobre esse primeiro filme da trilogia que entra em cartaz agora. Não me estenderei muito em análises pois, apesar de independentes, formam um painel, a partir do momento em que se integram por várias vias e imagino ser mais pertinente expandir minhas observações sobre cada um, individualmente, quando todos já tiverem sido lançados, evitando assim que os espectadores tenham de praticar o extenuante exercício da adivinhação e da suposição.

Em ”A Fuga” – espécie de thriller da turma -, Bruno Le Roux (o próprio diretor), um antigo preso político, ativista de extrema-esquerda, foge da prisão e resolve retomar a luta que o levou a ser preso por quinze anos e “libertar seus antigos companheiros de luta”. Para isso apavora a cidade, deixa um rastro de sangue, interfere nas falcatruas de uma polícia corrupta e também no mundo das drogas – tudo isso em em Grenoble. Procura a ex-companheira e ex-militante interpretada por Catherine Frot, que tenta levar uma vida, pacata, casada, com filho e como professora. Personagens das histórias começam a se cruzar, engenhosamente – mas o público só poderá constatar isso a partir de uma segunda estréia -, num filme de bastante ação, com grandes seqüências de carros em alta velocidade, muitos assassinatos e bastante pancadaria. Visto por esse lado é um “episódio” bem “ok”. Mas um amontoado de incongruências se avoluma e começa a indicar que o caminho do bom senso na construção de histórias razoavelmente aceitáveis talvez tenha passado bem distante da cabeça de Lucas Belvaux.

Aceitar que a França tenha prisioneiros políticos, ex-revolucionários no ano de 2002, não me parece razoável. Tal figura escapar da prisão e imaginar retomar a luta armada numa Europa Unificada, parece coisa de louco. Falar das relações entre os personagens: por enquanto ainda não é a hora. Algumas superinterpretações incomodam e colocam em dúvida a qualidade dos atores – quase todos desconhecidos. Apesar de como thriller – sem que seja necessário usar a cabeça para aceitá-lo – funcionar bem, traz à tona a velha questão do ódio dos franceses aos americanos; é um filme de ação construído bem ao estilo espalhafatoso e barulhento dos sobrinhos do Tio Sam.

Tecnicamente perfeito, tem como ponto mais alto a seqüência da perseguição inicial, que termina com um uso de luzes bastante interessante, demonstrando que, se quisesse, Belvaux poderia, ao menos nos quesitos suspense e ação, ter usado mais a inteligência do que a força. Pena que ao final da perseguição, no dia seguinte, sem que nenhum policial tenha ido ao local do desfecho dela, Le Roux saia andando livre e solto, em mais uma demonstração de que a cabeça do diretor não é tão boa na hora de criar soluções e passar credibilidade.

Aguardem os próximos filmes para nos entendermos melhor.
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