TAPETE VERMELHO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Luiz Alberto Pereira
Elenco: Matheus Nachtergaele, Vinícius Miranda, Gorete Milagres, Rosi Campos, Aílton Graça, Jackson Antunes, Paulo Betti, Débora Duboc, Paulo Goulart, Cássia Kiss, Cacá Rosset.
Duração: 100 min.
Estréia: 14/04/2006
Ano: 2006


Tapete Persa


Autor: Érico Fuks

O cinema iraniano está sendo feito aqui no Brasil. Pelo menos parte dele, aquela que foi estigmatizada como uma criancinha percorrendo campos terrosos e minados em busca de algum objeto singelo que se contrapõe à aridez miserável da região médio-oriental e aos conflitos bélicos entre extremistas. “Tapete Vermelho”, dirigido por Luiz Alberto Pereira (“Hans Staden”, “Jânio a 24 Quadros”), tem esse objeto metonímico de adoração até no nome. É a versão brasileira de “Gabbeh”, guardadas as devidas proporções: um road-movie caipira em busca de um ideal utópico representado pela simbologia mítica do utensílio. Uma família que sai das vidas secas rumo a alguma cidade, qualquer que seja, um pouco maiorzinha, que esteja exibindo algum filme do Mazzaropi. É o núcleo social dos capinzais em busca de suas origens através da imagem e da fama que hoje não existe mais. Não se trata de um encontro genealógico às raízes propriamente ditas. Nem um ato de louvor à metalinguagem da homenagem. É a busca constante pelo devir, pelas surpresas do percurso em tom pessimista de se chegar ao sonho cinematográfico.

O filme segue duas vertentes, quase que antagônicas. Uma delas disserta sobre a permanência. O minimalismo dos colóquios traduz um certo primitivismo arraigado. Os traços estilísticos brejeiros, o sotaque carregado, o jeito matuto de andar, toda essa composição cênica segue um movimento teimoso de resistência à modernidade. Essas características populares, por sinal muito bem representadas graças à descontração artística do elenco principal, são ligeiramente estereotipadas para gerar algum tipo de afinidade ou identificação, mas por outro lado têm uma força intrínseca de retratar um Brasil mais verdadeiro. Até mesmo pela sua ingenuidade.

Já o outro aspecto discorre sobre a fuga. É essa mesma família de Jecas Tatus que procura algo fora de seus parâmetros. Chega a ser quase paradoxal: o sertanejo em busca da imagem de outro sertanejo nas metrópoles. Os retirantes das terras do café não sonham em melhorar de vida, nem ganhar mil reais por mês (como foi colocado no filme “O Caminho das Nuvens”). Eles querem apenas alguns segundos de um contentamento que o dinheiro não compra. Eles querem, na sua peregrinação, reter em suas memórias a fixação saudosista e amargurada da imagem de um caipira que já morreu. É o único tipo de herança possível nesse contexto social.

Ainda que capenga em alguns momentos, “Tapete Vermelho” não decepciona. Existem uns escorregões na hora de acertar o prumo do quadro. Há uns cortes estranhos e uma noção muito vaga do que o plano e contraplano possam trazer de artístico. A incursão da família num motim dos sem-terra, talvez a pior passagem do filme, é melhor em suas intenções do que em sua realização. No papel, tal trecho poderia passar a idéia de que os movimentos ideológicos surgidos em suas bases recrutam sua militância pela ingenuidade e pelo deslocamento espacial puro e simples. Lembra até, na proposta, O “Pagador de Promessas”, obra-prima de cunho contestatório que versa sobre a politização decorrente de um estado inocente de necessidade. “Tapete Vermelho”, entretanto, não ambiciona tais reflexões. Quando procura conotações mais sociológicas, acaba se perdendo um pouco. Mas a somatória de elementos sinceros supera as lacunas cinematográficas. E esse modo pouco rebuscado de dirigir não chega a ser conflitante com a proposição de retratar os traços morfológicos rudimentares do indivíduo enclausurado na sua ignorância erudita e na sua esperteza rupestre.

Ambas as diretrizes não entram em choque no decorrer da história, mas funcionam mais como um mecanismo complementar e propulsor. Escapar da condição do que ali se encontra trajando essa própria condição é o que dá ritmo ao filme. “Tapete Vermelho” esbanja graça, ainda que meio desengonçada, com um cuidado de não fazer com que esse humor leve recaia sobre seus personagens. Com tanta falta de inspiração no cinema brasileiro atual, só o fato de se encontrar a espontaneidade nouvelle vague jacu é um trunfo por si só.

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