KUNG-FUSÃO:


Fonte: [+] [-]
Original: Gong Fu
País: China/Hong Kong
Direção: Stephen Chow
Elenco: Stephen Chow, Wah Yuen e Qiu Yuen
Duração: 95 min
Estréia: 15 de julho
Ano: 2004


Western marcial reloaded


Autor: Érico Fuks

Nem Matrix, nem Bruce Lee. Esse sucesso de bilheteria na China que desbancou o lirismo cromático de Herói e os psicologismos estéticos de Clã das Adagas Voadoras se aproveita do vácuo deixado por essas correntes cinematográficas pra fazer sua arte. Embora beba da fonte dessas matrizes, o que não é novidade nenhuma na atual conjuntura espaço-temporal dominada por filhotes tarantinescos (além do próprio e seus volumes), Kung-Fusão sai pela tangente se reinventando o tempo todo. Há comédia, sim, das mais diversas. Desde o humor ácido oriundo das desigualdades sociais e da vontade de e fazer justiça, até os escrachos chanchadescos que nos remetem aos pastelões da era da moviola. Há até, exageros à parte, um pouco de Tsui-Hark na rapidez dos cortes e dos movimentos de câmera. Isso sem falar na esquisitice dos enquadramentos inusitados, desobedecendo de leve à perfeição plástica da gravura renascentista emoldurada.

Kung-Fusão mescla elementos de diversas épocas e autores das artes marciais e soma a esse caldo um pouco do ocidentalismo cibernético. Mas essa compilação não chega nem aos pés de ser uma homenagem. Tampouco uma ruptura. São apenas referências paradigmáticas que ajudam a compor um conjunto cênico que faz questão de se manter caótico. Nessa ambigüidade positiva do caos, não dá pra encaixar esse enigmático trabalho na vala dos upgraded remakes, nem generalizá-lo com o atributo de “mais” um filme de ação. Suas peculiaridades, embebidas nos clássicos mas sem o tom déjà vu, deixam a coisa mais forte. O semblante quase sépia, a comicidade facial dos protagonistas e o ambiente rústico carregado de violência irônica e sarcástica fazem com que o filme, numa análise temerosa e arriscada, seja um dos precursores do gênero yakissoba western.

Essa vacuidade de estilo próprio se reflete até geograficamente. O cortiço onde se passa a história tem as laterais habitadas, mas seu centro, o pátio da miséria, é um vão arquitetônico literal. Lembra, sim, os vilarejos áridos de estúdio dos faroestes norte-americanos. Se olhado sob o viés da pobreza dos inquilinos, dos varais estendidos e da superpopulação enlatada neste microcosmo, há um certo paralelismo com o neo-realismo italiano. Se visto sob a ótica do enclausuramento do universo reprimido e marginalizado inserido num quadrilátero oco com leis próprias, quem sabe até não se faça uma associação com o babenquiano Carandiru e sua terra de ninguém. Não é à toa que esse furúnculo de Xangai se chama Chiqueiro.

Esse confinamento, entretanto, se retém apenas ao ambiente. Esteticamente, o filme é bem solto e abandona as purezas. Que se constrói uma trama baseada na desordem social e no desajuste psicológico dos personagens, não há dúvidas. E, pictoricamente, a fidelidade a esta ideologia se dá através da deformidade corpórea de mocinhos e bandidos. Há um resgate em tom de deboche aos cartoons do Pernalonga, vide a cena dos lábios inflados após uma picada de cobra. Fantoches malemolentes que preenchem a tela em efeitos estica-e-puxa regem este sinológico teatro do absurdo. Vozes maciças e ululantes desafiam a precisão da Física. A noção de que o antropomorfismo reto não é capaz de mudar o mundo é levado às últimas conseqüências através do exagero e da exaustão. Sutilezas não têm vez neste cubículo. Kung-Fusão serve quase de antítese à leveza onipotente das manjadas cenas de lutadores voando e se degladiando no ar. Aqui há o peso gravitacional, há moléculas em ebulição, há a consistência da matéria progenitora desse realismo fantástico e tragicômico.

Leia também: