A LULA E A BALEIA:


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Original: The Squid And The Whale
País: EUA
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, Halley Feiffer, William Baldwin, Anna Paquin.
Duração: 80 min.
Estréia: 14/04/2006
Ano: 2005


O momento da formação


Autor: Cid Nader

O fato de alguém ser um altruísta, um abnegado, uma pessoa ligada às artes, não significa que, invariavelmente, essa pessoa esteja acima de quaisquer defeitos mundanos, sempre num patamar comportamental mais elevado. Filhos de pessoas “superiores” nem sempre formarão suas personalidades com o lado bom e aproveitável da carga genética e da convivência com os pais. O ser humano que não tiver lados “podres” escondidos no fundo da alma e que em nenhuma situação – nunca, jamais – exteriorizá-los, estará longe da capacidade de sangrar, por exemplo; será um santo.

O cinema costuma ser um grande aliado das entidades religiosas nessa coisa de santificação, quando a questão é colocar nas telas pessoas perfeitas e conformadas, que não excedam, não exteriorizem, não cuspam; somente aceitem. Essa – ou melhor, o contrário de tudo isso - é grande virtude de “A Lula e a Baleia”, filme dirigido e roteirizado por Noah Baumbach. Diz ele ser um filme criado com inspiração em dados autobiográficos; não duvido, mas parece mais um certo golpezinho de marketing – desnecessário, diga-se de passagem. Digo que não me parece tão real tal declaração por uma situação que ocorre durante a trama que envolve Pink Floyd, festival colegial, plágio e a figura que seria a do diretor em sua adolescência – se nesse caso específico Noah fez uso do recurso da liberdade poética para criar mais ênfase e dar mais poder à passagem, posso voltar a acreditar um pouco mais na historia da autobiografia, mas passo a colocar em dúvida a sensibilidade do diretor no momento em que avalia a capacidade intelectual de seu público alvo (música famosa, num momento em que o grupo já era bastante conhecido mundo afora? Forçou.).

Mas, esse um é apenas um porém, num filme construído com certezas e não negações de determinismos realistas no momento em que se “formata” a vida humana. Na história, o diretor Noah Baumbach se auto-retrata no adolescente Walt (Jesse Einsenberg), filho de um casal em processo de separação composto por: Bernard (Jeff Daniels) e Joan Berkman (Laura Linney) – isso, em meados dos anos 1980. Bernard é um professor e escritor que já obteve relativo sucesso na carreira literária e que passa pela famosa crise da falta de idéias, situação que acomete a quem vive da necessidade de produzir textos – por vezes. Já sem publicar um livro a um bom tempo, vê-se acuado pela iminente dissolução matrimonial, enveredando por um labiríntico processo mental, dentro do qual passa a se questionar sobre as razões da mulher sentir atração por outros homens – traindo-o inclusive -, inicia um processo de inveja pelo iminente sucesso dela, toma atitudes discrepantes ao ofício de professor, inventa mentiras e desfralda comportamentos violentos. Joan por sua parte, também exercita as várias facetas de uma personalidade, levando namorados para casa – dando com isso mais valor ao instinto que instiga o prazer do que o materno -, fazendo jogo duro ante as tentativas desesperadas do marido de reaproximação e despertando seu dom literário, antes sepulto pelas obvias prioridades que um casamento de desfecho tradicional impõe.

Os filhos são retratos dos pais, nas virtudes e problemas. O menor de aparência mais pacata, conformada e apaziguadora, acaba por reagir de maneira mais interiorizada e esdrúxula – inclusive fisiologicamente – ao caldeirão efervescente e nada obvio da mente de uma criança em formação; principalmente quando os atos de hostilidade entre os pais se tornam mais exteriores em tais processos. O mais velho, Walt, tenta se por ao lado do pai mas para isso – e é bastante natural que aconteça nessa fase da adolescência – captura, e executa, os comportamentos menos apreciáveis dele; comportamentos que estão mais aflorados justamente pelo momento atípico. Mente para se mostrar, investe em atitudes sexuais menos louváveis, apesar de ter uma índole interessantemente artística – no caso, em se falando em mundo de verdade, tornou-se cineasta, afinal de contas.

Revelar os lados “podres” da mente humana e o momento em que eles são transferidos para as cabeças adolescentes em formação, já é razão suficiente para chamar um pouco de nossa atenção.É filme com virtudes e alguns dos defeitos que caracterizam parte dessa produção americana, pretensamente independente. Mas, as virtudes são suficientemente interessantes e autênticas para conferir-lhe méritos não tão facilmente usuais.
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