PELE DE ASNO:


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Original: Peau D'ane
País: França
Direção: Jacques Demy
Elenco: Catherine Deneuve, Jean Marais, Jacques Perrin, Micheline Presle, Delphine Seyrig.
Duração: 100 min.
Estréia: 14/04/2006
Ano: 1990 (Reestréia)


Odiosamente irresistível


Autor: Fernando Watanabe

Anos 60. França. A Nouvelle Vague explode e, aliada aos preceitos do neo-realismo italiano, consolida o que se costuma chamar de “cinema moderno”. Contra a corrente está um punhado de realizadores franceses alheios a isso. E o melhor de todos eles foi Jacques Demy. A cópia restaurada de “Pele de Asno” vem valorizar como este filme conserva até hoje um grande valor artístico: ela é a ambigüidade por excelência, e mais, estende essa tensão entre dois pólos ao espectador que, se ver o filme em várias perspectivas, se achará em conflito entre tais pólos:o talento encantador do cineasta e sua ideologia que serve a interesses dominantes. Entre esses dois aspectos, terá que ser feita a escolha: amar ou odiar um filme como “Pele de Asno”.

O filme se inicia com a imagem de um livro aberto numa página que ilustra a figura de um castelo. É uma fábula na qual o movimento de câmera em direção ao livro indica que iremos mergulhar. Um truque ótico sobrepõe a figura do castelo à imagem filmada deste, reconstituída de maneira idêntica. Tudo isso poderia levar a crer que se trata de uma adaptação literal de um livro, e que a estrutura do filme será romanesca. Porém, como nas melhores fábulas já feitas, o realizador prefere seguir outro tipo de lógica: a lógica livre da poesia.

Que não se confunda lógica poética com se fazer o que quer, erro comum de outros pretensos “cineastas poetas”. Como o próprio termo diz, há uma lógica, tão ou mais rigorosa do que o encadeamento de filmes convencionais de gênero, por exemplo. A consistência do filme de Demy está em criar um universo no qual tudo parece estar sendo regido por um certo tipo de magia. A cidade provinciana perdida no tempo, o estilo de vida luxuoso da corte e dos nobres, a vida miserável a que estão condenados os plebeus, tudo está articulado por esse encanto, por essa maneira lúdica de ver o cinema, o mundo e a vida. Se o cinema engajado e combativo do neo-realismo italiano e da Nouvelle Vague mostrava o cotidiano tentando apreender a verdade da vida que o cinema americano havia impossibilitado de revelar, Demy faz o oposto em “Pele de Asno”. Há, sim, cotidiano: os banquetes da corte, as perambulações a cavalo, o trabalho braçal dos pobres. Mas, esses pequenos gestos ordinários parecem ser praticados como se fossem o último da vida daqueles personagens, não com um desespero, mas com alegria. Imagine um homem que recebe a notícia de que vai morrer e tem mais um dia de vida. Nesse dia, as refeições, as perambulações, os encontros e outros fatos corriqueiros serão encarados de maneira especial, haverá uma valorização do que até então era ignorado ou vivido com desdém. É esse o convite que “Pele de Asno” nos faz: a mergulhar na fábula e aprender a encarar a vida com um olhar mais complacente.

E que prazer é ver Catherine Deneuve, jovem, bela. Mais do que sua beleza aparente, é seu corpo se movimentando com uma graça que nos encanta, que nos ilude. Assim como a fada, que apesar de caminhar sobre a terra, parece flutuar no ar, culminando em seu desaparecimento repentino da imagem (num truque ótico que lembra George Meliés). Igual prazer é ver o jovem príncipe, belo e impetuoso. Reflexivo ver os pobres sendo congelados pela imagem em seus trabalhos braçais. Pois, armado com sua câmera, Demy registra de forma bela esse movimentos, esses corpos. Comunicar através dos corpos, e não de diálogos inteligentes e rebuscados (o que seria perfeitamente normal para este tipo de filme), está aí outro talento do cineasta, em se falando de encenação. Em termos de estrutura dramatúrgica, de roteiro, o que move os acontecimento são esses movimentos de corpos movidos por feitiço, eles andam, correm, trabalham, e, finalmente, se encontram. E é em torno de encontros entre pai e filha, rei e servo, príncipe e princesa que o filme se estrutura. A cena clímax é a prova do anel, na qual o príncipe almeja encontrar sua amada predestinada.O encontro amoroso, aliás, é representado como a esperança das pessoas, a solução não apenas da história ficcional, mas do próprio mundo. Pois em Demy, apesar de seus personagens serem até certo ponto bem construídos, encontra-se no filme uma sensação de que ele está sempre discursando em termos generalizantes, e isso devido à fábula, que tende a universalizar os sentimentos e atravessa gerações conservando sua força dramática. Chega-se à conclusão de que, apesar de isolado da nouvelle vague, ele realizou plenamente o que Godard e companhia idealizaram e perseguiram com maior ou menor sucesso: fazer do cinema ao mesmo tempo uma visão do cinema e do mundo.

E, no caso, a visão é escapista. Tal qual a literatura burguesa e a arte esteticista sempre o foram. Muito se criticou o cinema de Demy por não se filiar a questões (políticas, sociais) em voga na época de seus filmes e por passar essa sensação de que o mundo é assim tão perfeito. Pegue uma cena filmada por Roselini na qual se vêem operários trabalhando. Pegue outra cena análoga filmada por Demy. Em ambas, encontra-se o amor pelo ser humano. Mas, o olhar do primeiro é mediado pelo sofrimento e opressão, denúncia, como um grito de revolta ante as injustiças humanas.Enquanto no autor de “Pele de Asno” há alegria com o mundo como é, e suas incessantes músicas não disfarçam o silêncio que se pretende manter sobre certas questões. Mesmo a estilização do cenário, da atuação e da música atenuam esse silêncio, uma vez que esse menor coeficiente de realismo tende a colocar em dúvida se o cineasta realmente acredita que o mundo seja assim ou se tudo é puro devaneio. Mais uma ambigüidade expressiva. O que não anula um certo conformismo presente no filme. Afinal, retrabalhar o gênero de comédia musical norte –americano numa chave de magia não é senão a pura expressão elitista de conservadorismo. Aceitar com alegria que os pobres o serão eternamente, enquanto os ricos preocupam-se em com dilemas amorosos é de uma alienação terrível. Levar com bom humor até as maiores tragédias (a esposa do Rei morta) é cruel. Acreditar que todas as pessoas do mundo podem ter o olhar resignado do cineasta e viverem bem apesar de tudo é odioso. Mas, “Pele de Asno” é odiosamente irresistível.
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“Pele de Asno” - visual rebuscado