ÁRIDO MOVIE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lírio Ferreira
Elenco: Giulia Gam, Guilherme Weber, José Dumont, Selton Melo, Gustavo Falcão, Aramis Trindade, Matheus Nachtergaele, Paulo Cesar Pereio.
Duração: 118 min.
Estréia: 14/04/2006
Ano: 2005


“Árido Movie” – efervescência cultural


Autor: Cid Nader

Maluca e “in” essa Recife, com sua efervescência cultural, suas revelações de bom nível, sua contundência e mira certa quando o assunto é qualidade. Seja no cinema, seja na música, a capital pernambucana vem se diferenciando nos últimos anos do que ocorre no cenário artístico nacional. O Brasil cultural chora as pitangas, tenta lembrar-se do passado mais criativo e vivo, reclama do abandono por parte do governo e quando consegue dinheiro para concretizar projetos via iniciativa privada, nega fogo, embolsa parte da grana, apresenta produto requentado, quando não estragado. Já lá em cima, sob sol eterno, causticante no vizinho e fisicamente próximo sertão – como pude notar no filme – e abençoado quando observado das belas praias, os espertos e perspicazes recifenses dão show de bola. E repare que para isso não necessitam de fortunas não. Perdoem-me se generalizo ao chamar todos os integrantes desse agitado movimento cultural de recifenses. Com certeza alguns não o são, mas logisticamente e ideologicamente o movimento emana de lá e, portanto, para lá deve ser dirigida a nossa atenção.

Lívio Ferreira talvez tenha sido um dos primeiros a ser notado aqui no “sul nada maravilha” há dez anos, quando lançou “Baile Perfumado” – em parceria com Paulo Caldas. Filmado de maneira agressivamente rompedora dos padrões estéticos da época, talvez tenha contado para aumentar a sensação de obra diferenciada com o inovador e brasileiríssimo-mundial som de Chico Science e sua Nação Zumbi. Agora é a vez de “Árido Movie”, seu mais novo trabalho. Chico Science morreu prematuramente mas a música no filme continua sendo o principal elemento.

A história do filme se inicia no Recife. Na realidade há uma fusão nas imagens iniciais que, aparentemente, misturam São Paulo com a capital de Pernambuco, com uma – várias e ajuntadas – grande tomada de helicóptero. Levado da capital paulista ao nordeste para o enterro do pai a quem não vê há muito tempo, Jonas (Guilherme Webber), o “homem do tempo” de um noticiário televisivo, percebe-se fora de seu mundo. Mundo adotado, não o natal. A sua viagem a esse “lugar estrangeiro” ganha mais poder de estranhamento e deslocamento, quando ele toma o rumo da pequena cidade paterna, no início do sertão, não muito longe da cidade urbana, mas bastante distante de seu poder de compreendê-la – com todas as suas peculiaridades e diferenças - mas também por remetê-lo a uma interiorização que incomoda, que não é bem vinda, ainda mais por estar sendo feita tendo a morte como motivadora. Um grupo de amigos – tipicamente “jovens bem situados sem problemas financeiros” – insiste em acompanhá-lo na curta jornada. Sentem-se com uma certa obrigação, que têm de superar todas as adversidades – outra realidade, outras pessoas -, mas o farão por dever de amizade. Oferta recusada. Amigos que partem atrás, por conta própria, talvez em busca, também, de aventuras outras.

Aliás, minto quanto ao início do filme, que na realidade acontece na pequena cidade para a qual Jonas se dirige. As primeiras situações envolvem o grande Paulo Cesar Peréio (Lázaro) e um pedaço de mau-caminho, Wedja (interpretada por Suyane Moreira). Aliás, minto novamente, quando credito o percurso de retorno de Jonas como o mote principal da trama - condutor talvez, mas principal, não. Lírio Ferreira construiu seu trabalho, apostando muito forte nas interpretações individuais de alguns atores. Uns se deram bem, outros nem tanto. Giulia Gam, como Soledad, dá bem conta do recado; seu personagem que carrega em si uma carga de certezas e firmezas tem seu espaço bem definido np início, ganhando força extra e caminhando até o último momento do filme. Selton Mello (Bob), um dos amigos cuca-fresca de Jonas inicia, como sempre, mandando muito bem, criando um personagem maconheiro bastante engraçado e tarado, mas também, como sempre, ultrapassa um pouco a barreira do bom senso interpretativo. Sobre José Dumont (Zé Elétrico) é até covardia comentar algo; qualquer diretor um pouco mais esperto, hoje em dia, se quiser ter sucesso facilitado convoca o moço para atuar em seu filme, larga mão e diz: “toca o barco, faça o que quiser”.

Falar somente de mais um: José Celso Martinez Corrêa. Ao chamar um dos grandes ícones do teatro brasileiro, da “porraloquice”, do “não conformado”, para trabalhar em seu filme, Lírio com certeza pensou na marca da qualidade que o ator carrega para qualquer lugar que vá, mas contribuiu bastante para manter o nível da tal marca. No primeiro momento em que “O Velho” aparece, rapidamente, quando Soledad procura e pergunta por ele com o propósito de filmá-lo para uma futura exposição sua, a cena criada pelo diretor é de rara beleza e calmo impacto visual. Com o uso de uma simples iluminação esbranquiçada, que refletiu os cabelos brancos do ator de maneira tênue e muito próxima do olho da câmera, e um leve ruído de fundo o diretor se superou e criou um dos mais belos “takes” do cinema nacional, nos últimos tempos.

O quesito fotografia do filme tem sido bastante discutido, principalmente porque foi feita por Murilo Salles, diretor de cinema já há muito tempo, portanto longe desse ofício também já há algum tempo. Ele ousa demais nas cenas iniciais do filme, quando filma figuras fora de foco, aparentemente sem uma razão mais concreta para tal; talvez por maneirismo. Por outro lado mostra um sertão mais “desglamurizado”, com cores mais sujas, o que pode ser tomado como ponto a favor – afinal de contas, vivemos tempos em que se filma o sertão sob aquele sol abrasador, sempre por um viés muito poético visualmente; não que isso seja de todo ruim, temos tido resultados bastante bons, também. Um belo resultado obtido – além daquele que já citei acima com “O Velho” – é na filmagem da passagem da paisagem urbana de Recife para a mais poderosa e crua do sertão, onde, pela primeira vez, pude constatar aqui do sul, que as distâncias não são tão longas quanto sempre me pareceram.

Os últimos vinte minutos do filme deixam uma sensação estranha à apreciação, filme que transcorre em ritmo acelerado e engraçadinho por quase todo o tempo, sofre uma freada brusca e repentina, quase estagnando, levando-nos a um mundo alucinógeno e ilusório, como que conduzidos por um “Don Juan” saído diretamente dos desertos mexicanos de Carlos Castañeda. As pedras do “cachorro” e do “elefante semi-afundado” são realmente espantosas, uma viagem. Fica parecendo filme de maconheiro – brincadeirinha.

Esse fenômeno pernambucano das artes se fecha nessa obra – e talvez seja o que de melhor ela tem – com o trabalho musical feito para a sua construção. Músicas possantes de artistas atuais, mescladas à de ídolos dos anos 1960, “Renato e Seus Blue Caps” e interpretações de Otto em cima de sucessos antigos. A mistura deu samba.
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