O NOVO MUNDO:


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Original: The New World
País: EUA
Direção: Terrence Malick
Elenco: Colin Farrell, Q’Orianka Kilcher, Christian Bale, Greg Cooper, Jason Aaron Baca, John Ghaly, Michael Greyeyes, Jamie Harris, Christopher Plummer, Noah Taylor.
Duração: 145 min
Estréia: 14/04/2006
Ano: 2005


“O Novo Mundo” – um dos vários modos cinema


Autor: Cid Nader

Seria Terrence Malick um ET no mundo do cinema? No mínimo um estranho, haveremos de convir. Há julgar pela falta de pressa em concluir um novo filme: estranho. Há julgar pela maneira de intercalar diálogos com imagens: ET. Estranho ET esse Malick, que tem uma noção diferenciada de tempo em relação ao resto dos mortais. Como um senhor dos momentos, o tempo físico – segundos, horas, anos – para ele tem uma importância diferenciada, como se não acreditasse que viverá meros 80, 90 ou cem anos. A falta de pressa quando vai realizar um trabalho é espantosa. Ele não é alguém que imagine ser necessário um certo apuro para deixar registrada sua marca aqui no planeta Terra. Do seu primeiro longa metragem, “Terra de Ninguém” (1973), ao segundo, “Dias no Paraíso” (1978), um espaço de cinco anos já indicava que alguém, no mínimo, sem pressa se inscrevera entre os grandes do cinema. Vinte anos depois, 1998, já totalmente descrentes na sua volta ao mundo tela, cinéfilos, críticos e fãs de carteirinha ajoelharam-se incrédulos ante o libelo anti-bélico, “Além da Linha Vermelha”.

Tamanha falta de pressa, se não encarada por um modo “ufológico” de pensarmos em Malick, com certeza há de ser compreendida como tempo necessário que alguns grandes artistas precisam para confirmar estilo, para realizar obras que reflitam rigor na composição – o que não impede de imaginarmos o diretor como alguém que age de maneira estranha. Por alguns períodos, Terrence, recusou fotos suas divulgadas pela imprensa – talvez a sua verdadeira carapaça extra-terrestre, em alguns períodos, sobreponha-se à ilusória faceta humana ante a química usada para a revelação de uma foto. Brincadeiras à parte, o domínio que ele demonstra ter sobre reações fisiológicas do cérebro humano ao executar um movimento comum em sua obra – principalmente nestes dois últimos filmes – não são coisa de um ser qualquer. Tal “movimento” se dá no momento em que ele “estica” pensamentos, falas e diálogos para além da imagem captada inicialmente ou originalmente para tal, incluindo-os - sem qualquer tipo de aviso, corte ou truque estilístico-visual – na imagem seguinte, o que causa uma certa sensação de coisa estranha acontecendo. Explicando melhor: quando sua câmera flutuante se cansa de algum instante que vem se realizando com pés muito no chão, muito correto ou linear, ela decola para outras imagens mas a fala anterior prossegue ou pensamentos orados tomam conta do espaço áudio do novo momento visual.

Qual um conhecedor ou estudioso das complexidades de nosso cérebro – olha aí a faceta ET novamente – as reações que ele consegue do público são obtidas por um órgão que vem sendo moldado a milhares de anos para funcionar de uma certa maneira. O “intricado nervoso” que constitui o cérebro, reage de maneira já conhecida ante a visão de uma imagem associada à fala correspondente. Ao quebrar constantemente essa estrutura linear de funcionamento, durante o período da exibição da película, Malick consegue uma reação sem controle de nosso córtex que, qual à maneira do efeito causado quimicamente por uma droga alucinógena, desliga-nos do momento presente real jogando-nos a flutuar tal qual a sua câmera; quebrando o modo “usual” de compreensão a que estamos acostumados. E o pior é que isso é muito bom. E isso faz parte de um estilo próprio do diretor que ele manteve rigorosamente em “Além da Linha Vermelha” e nesse novo “O Novo Mundo”.

Em “O Novo Mundo”, Terrence Malick”, nos reconta a história tipicamente americana – como tal, tipicamente mundial – da índia Pocahontas. A índia (Q’Orianca Kilcher), também conhecida por Rebecca, filha de Powhattan (August Schellenberg), preferida da família de “nobres” de sua tribo se apaixona pelo insubordinado John Smith (Colin Farrell). No início do século XXII três pequenas naus chegam da Inglaterra, em nome da Companhia da Virgínia, na busca de novas fortunas e a implementação de uma nova estrutura religiosa aos organizadíssimos nativos de uma região ainda não invadida pelos brancos, intacta em sua beleza natural, encoberta por esplendorosas florestas nativas e de difícil compreensão e manipulação por parte do branco europeu. Por ser bastante popular – conhecidíssimo no reino por várias empreitadas anteriores ao redor do mundo – Smith escapa de ser enforcado por insubordinação. Numa terra de natureza bastante selvagem e difícil, homens de bom porte físico são necessários e, ante a dificuldade nessa nova relação brancos/natureza, John Smith arrisca-se interior adentro na busca de contato e auxílio com os índios da região. O encontro com Pocahontas, a maneira como se inicia o relacionamento entre os dois, seu desenvolvimento, conseqüências, fome, miséria, porvir, nova vida e novas terras, fazem parte do jogo pré-determinado por Terrence Malick.

Ele constrói um filme rasgadamente de amor, de imagens belas, momentos fortes no embate do homem branco com a natureza desconhecida, evidenciando, em contrapartida, a naturalidade com a qual a encaram os nativos. Por essa demonstração de amor aos preceitos de uma vida mais “natural”, digamos assim, alguns acabam por considerar o diretor uma espécie de remanescente do movimento “hippie”. Eu, modestamente, voltaria a classificá-lo como um estranho no ninho com certeza, mas de ambições que superam – incorporam-na sim, mas vão mais além – um simplista conceito de “paz e amor”. Como um ser acima das possibilidades mundanas ele envereda por preceitos bastante abrangentes. Fala do novo mundo como a antítese entre a destruição e o futuro; deixa evidente, em algumas cenas, que o porvir imaginado pelo europeu-cristão não coaduna com o futuro que já existe e é também o passado entre os nativos. Num momento exemplar, quando John Smith volta aos seus, após um período idílico entre os índios, o contraste das imagens é quase o suficiente para mostrar as diferenças entre as duas civilizações. Um acampamento recém-construído, onde os soldados vagueiam perdidamente, sem reações à altura ou determinação para continuar, água fétida sendo bebida, comida desperdiçada e plantações idem; num fortalecimento de tal clima opressivo, crianças – sabe-se lá de onde vieram, mas a intenção poética do diretor permite tal “truque” – andam em bandos, dentro seu próprio mundo, muito particular, qual os abandonados de hoje pelas grandes urbes de todo o mundo. E isso tudo após o período vivido por Smith em meio aos índios, onde o diretor havia nos “inundado” com suas imagens flutuantes da natureza em todo o seu esplendor e vigor, mas que não ficaram restritas ao purismo ideológico que delas emanavam. Mostrou também uma sociedade indígena extremamente bem definida e gerida com sabedoria; mostrou reuniões onde se discutiam assuntos que variavam entre a delicadeza do amor de Poncahontas e um futuro nebuloso, colocando em “pauta” se seria válido ajudar “aqueles seres que invadiram nossa terra e talvez tragam mais outros”.

“O Novo Mundo” é trabalho atípico dentro da cinematografia mundial. Atemporal, é feito para encher os olhos e arrancar lágrimas – coisa que consegue, principalmente com uma cena afinal de tirar o fôlego, tão bela é. Conta uma história antiga, de amor; despudoradamente de amor. Conta uma história de civilizações diferentes e não as julga de maneira ideologicamente juvenil – na realidade, uma das grandes virtudes do filme talvez seja essa; evidentemente mostra apreço e declina preferência pelo modo indígena de viver, mas não faz da civilização branca produto caricaturalmente do mal. Mostra, somente, duas opções diferentes de existir; forjadas pela – e através da – história.

A câmera de Terrence flutua há muitos anos no cinema. Seus filmes são recheados de boas intenções. Os efeitos que ele consegue, com seu conhecimento “biológico”, com sua capacidade atrás das câmeras, seu estilo indiscutível e próprio de montagem, sua opção pela música tocada e integrada de maneira pele e carne às imagens, são caso raro e sem par. Se ele é um ET ou somente um estranho no mundo do cinema é dúvida a persistir, mas que consegue fazer obras incomparáveis e inesquecíveis, ah isso consegue mesmo.

P. S.: a história de chamar Terrence Malick de ET surgiu num bate-papo com um amigo, Sérgio Alpendre, quando ele assim definiu o diretor. Adotei.

P. S.2: saber usar a música como um elemento de extrema importância, não como coadjuvante no esquema de montagem e sim desempenhando um dos papéis principais e preponderantes na “assinatura” do filme, é mais uma das características de Malick. Você ouve a música, fecha os olhos e sabe que está “escutando” um filme desse grande e diferenciado diretor, de algo que imaginamos ser cinema.
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