IRMA VAP - O RETORNO:


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"Irma Vap" - talvez a peça, quem sabe ...


Autor: Cid Nader

Seria no mínimo indelicado sair vociferando em altos brados contra um filme realizado por Carla Camurati, pela sua importância num momento em que o cinema brasileiro não existia - não metaforicamente, no duro mesmo - e no qual, contra todas as dificuldades e moinhos de vento, ela surgiu jovial e cheia da garra típica da juventude com "Carlota Joaquina - Rainha do Brasil". Mais que um marco essa incursão ressuscitou um cinema que jazia morto, enterrado, sem ter demonstrado vontade suficiente de sobreviver ao cancro estimulado por um governo da pior espécie e qualidade. Carla ganhou respeito, gostou da idéia, filmou uma opereta, "La Serva Padrona", de modo ágil e inteligente e firmou-se definitivamente na história do cinema nacional.

Outro que merece todo o respeito - principalmente da tribo apreciadora do teatro que nem sempre é a mesma que acompanha o cinema - é o espetáculo teatral "O Mistério de Irma Vap". Qual a diretora do filme, a peça também tem lugar definido e demarcado na história das artes no Brasil. Por razão diversa, inclusive de certa maneira antagônica, a peça mereceu o reconhecimento por ter sido a que por mais tempo permaneceu em cartaz no Brasil - dizem que com o mesmo elenco é a mais longeva da história dos palcos mundiais, se bem que o "cast" era constituído por apenas dois atores, Ney Latorraca e Marco Nanini, os mesmos que protagonizam o filme. Quando disse um pouco acima "de maneira antagônica", refiro-me a um período - entre os onze anos totais de duração do espetáculo - em que o teatro, justamente, ganhou relevância e importância por ser o único modo de arte/representação que se manteve ativo suprindo por momentos as necessidades do público carente das obras cinematográficas nacionais.

No momento de amalgamar, no momento da junção desses dois "ícones" das artes do Brasil, no entanto, o molho desandou, ou azedou. Não sei se por querer manter fidelidade um tanto respeitosa a mais do que o necessário pelo modo teatro, Carla não conseguiu obter um resultado apreciável no quesito filme. Acontece, porém, que a obra não conseguiu também reverenciar o teatro, por um tom errado adotado e executado pelos atores; não sei se culpa da diretora ou falta de qualidade dos coadjuvantes. Sim, nota-se uma maior precariedade interpretativa no segundo escalão do time. Sim, Ney e Nanini também erram o tom em muitos momentos, de maneira surpreendente - principalmente pelos desempenhos anteriores de Marco Nanini no formato telona -, mas não em todos como o resto do elenco. Carla não foi feliz na escolha do cenário - uma velha e conhecida casa na avenida Paulista - pois a artificialidade e excesso e respeito em seu manuseio ficam patentes; como se o fato de usá-la - a casa - implicasse em ter de torná-la um personagem a mais e de grande importância para a trama.

Não é o caso de se elencar a enormidade de equívocos que resultaram ao final do trabalho; mas o mais triste e surpreendente é que não consigo - e olhe que estou tentando ser respeitoso e procurando compreender as razões - encontrar uma coisa só positiva que tenha resistido e sobrevivido à jornada. Certo que no início o filme somente derrapa - chegando até a criar expectativas - mas quando assume definitivamente a peça teatral, a derrapagem é mais violenta e ele acaba capotando. Talvez a motorista estivesse num mau dia e não devesse ter saído de casa.

P.S.: e a música do filme? O que é aquilo. Qual o motivo de uma música daquele naipe, daquele timbre, com aquele andamento? Guta Graça Melo já fez coisas melhores. A desse filme foi encomendada daquele jeito mesmo? Como em “Gatão de Meia Idade”, chama a atenção a realização de trilhas que poderiam fazer mais sucesso se usadas em elevador ou sala-de-espera. Coisa higienizada, “sem gosto”, “sem cor”, sem razão de ser.
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