O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO:


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Original: Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto?
País: Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Carmen Maura, Luis Hostalot e Verónica Forqué
Duração: 97 min.
Estréia: Reestréia
Ano: 1984


Almodóvar


Autor: Cid Nader

1984. Pedro Almodóvar pronto para escandalizar. Já reconhecido pelos mais atentos de plantão o diretor espanhol estampa nas telas seu “O Que Eu Fiz Para Merecer Isso” com a nítida intenção de se afirmar como o mais espanhol dos espanhóis. Sim, porque a Espanha sempre foi muito controversa com suas atitudes externadas ao mundo. Para os mais desavisados, um país de comportamento moralista, extremamente católico radical – afinal foi um dos expoentes da Inquisição -, muito família, de comportamento retrógrado e nada complacente com as diferenças. Para os mais astutos, um país que, na tentativa da negação constante e sistemática ao “estabelecido”, exportou e exporta artistas com conceitos pra lá de avançados, pra lá de liberais, pra lá de criativos - se pensarmos somente no cinema, somente em um artista e lembrarmos de Luís Bunuel, estaria bom como exemplo?

Pedro Almodóvar sempre preparado para o escândalo, além de contestador religioso, contestador político, contestador da estética vigente no cinema mas, acima de tudo, um defensor da causa homossexual, ele, um dos primeiros raros exemplos a assumir abertamente sua condição e a filmar seu mundo. Mais importante ainda se fazia sua tomada de posição por não celebrizar, não emparedar, não divinizar o mundo gay que estava começando a mostrar abertamente ao mundo. A sua opção de divulgação estava calcada na jocosidade, no escandaloso, num comportamento doentio explicitado nas telas, na aberração. Melhor ainda – e isso é bastante nítido nesta película – que mesclou ao mundo homossexual comportamentos alterados de filhos de 14 anos que enriquecem já trabalhando no mundo das drogas e uma mãe viciada e infeliz pronta a pequenas escapadelas amorosas. Para engrossar o caldo do filme, Almodóvar acrescentou um pai taxista, machista, meio nazista, falsificador de letra sempre à espera de um antigo caso na Alemanha.

Antes de continuar falando das figuras pouco comuns que habitam essa fita é importante dizer que revê-la hoje em dia, vinte e seis anos após sua execução, passa, com certeza, uma sensação de trabalho datado. Mas não interfere em sua alta qualidade estética no visual e mordaz no âmago. A sua “impertinência continua pertinente”; é forte o suficiente para chocar quem é de ser chocado, sarcasticamente engraçado o suficiente para arrancar sinceras gargalhadas, suficientemente inteligente para mostrar ser um trabalho da cepa de Pedro Almodóvar. Nota-se também, e de maneira bastante explícita, o cuidado característico que o diretor sempre dedicou às cores, ambientes construções e enquadramentos de cena. Observado pelo lado estético sempre imaginei Almodóvar um arquiteto do cinema, na maneira de usar os detalhes e desenhar seus ambientes, sempre muito ligado ao padrão estético da época, dando preferência ao uso das cores vivas – afinal de contas é um esteta espanhol. No modo de filmar e após editar seu filme, demonstra também ter uma certa ligação com a forma, com a exatidão. Não desperdiça tomadas, “enquadrando-as” sempre meticulosamente – parece usar réguas e esquadros para tal -, causando uma sensação de limpeza e exatidão no visual que absolutamente não fazem parte do comportamento e da personalidade dos personagens – numa cena quase no início, por exemplo, usa diversas câmeras em diversas posições, para captar imagens dentro de um box de banho durante uma situação de relação sexual, com resultados bastante apreciáveis.

Voltando aos personagens engendrados por uma cabeça ainda menos comportada, mais jovem e mais necessitada de afirmação e imposição de uma marca, vale a pena citar o filho mais jovem de Gloria (Carmem Maura) – a mãe viciada e infeliz da história – um garotinho já assumidamente gay, convicto de sua opção, que já se “vende” e deixa-se ser “vendido” a pedófilos esdrúxulos em troca de conforto e bem-estar. A avó então; cúmplice, no companheirismo, do filho mais velho – o negociador de drogas – ela negocia bolos, doces, vinhos, água com gás e algumas coisinhas mais com o resto da família, que aliás vive sempre pendurada, sem grana. A velhinha é um misto de camponesa deslocada na cidade grande, “pão-dura” – amarreta – de carteirnha, religiosa, ecologista, jogadora, vivaz e algo mais. E a linda prostituta de alma boa, uma vizinha comum e prestativa, que cede aos apelos estranhos dos clientes indo, por vezes, pedir emprestado aos vizinhos chicotes e afins – aliás maravilhosamente engraçado o momento em que vai pedir um cinto emprestado e leva, na falta dele, um pedaço de tronco da coleção da velhinha.

Almodóvar progrediu, nitidamente, ganhou espaço e se tornou um dos maiores da atualidade, com poucos e raros “furos” nos últimos tempos. Aperfeiçoou o seu senso estético e dominou um pouco sua irreverência. Melhorou bastante com isso. Mas “O Que Eu Fiz ...”, revisto hoje, não faz feio. Mostra, sim, que faz parte de uma obra que vem sendo construída, de uma fase inicial mais primitiva e crua, porém com aquela qualidade inata que todos os grandes artistas imprimem. Vale para quem não conhece; vale também para quem já conhece e tem medo de se decepcionar – imagino que isto não acontecerá.
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