INCONSCIENTES:


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Original: Idem
País: Espanha/Alemanha/Itália/Portugal
Direção: Joaquín Oristrell
Elenco: Leonor Watling, Luis Tosar e Mercedes Sampietro
Duração: 108 min
Estréia: 24 de junho
Ano: 2004


Freud de araque


Autor: Érico Fuks

Na verdade, seria mais correto afirmar que se trata de um filme lacaniano. Logo no início, os créditos dos atores aparecem com as letras invertidas que, num sincronizado baile alfabético, vagarosamente se corrigem. Uma brincadeira alusiva aos distúrbios cognitivos de linguagem, vindos da livre associação de idéias. Significantes que se perdem do seu contexto original e geram novos significados. Na gramática psicanalítica, não há “certo” e “errado” dentro desse parâmetro de análise, pois os lapsos da comunicação falada e escrita é que trazem as mais relevantes informações recônditas na couraça racional do cérebro humano.

Se mantivesse todo tempo esse clima lúdico, em que as incertezas e dubiedades trazem mais ganhos do que perdas, Inconscientes até que seria um bom filme. Essa teatralização inicial carrega um caprichado colorido cenográfico, deixando bem claro se tratar de um filme de época e ao mesmo tempo mostrando sua preocupação em seduzir o espectador. A delicadeza das imagens que se contrapõe ao complexo e rebuscado jogo de palavras é tão sutil quanto irônica. No campo das interpretações, tudo está às avessas.

Corta para a cena seguinte, uma luta de boxe, e aí o filme começa a degringolar. A mudança de sua proposta é instantânea. O predominante tom farsesco e piadístico da película passa, então, a ter a sutileza de um Mike Tyson e ser tão emblemático e profundo quanto a psicologização das respostas a cartas enviadas a revistas femininas adolescentes. Nada contra a puberdade das moçoilas, que fique bem claro.

O que era pra ser uma inteligente comédia de erros torna-se um infame pega-pega. As teorias freudianas servem apenas de pretexto para o truncado jogo de gato-e-rato. O filme é pontuado por frases tiradas dos compêndios literários que indicam mudanças de passagem. Engraçadinho, até. Mas tudo muito nivelado por baixo, tornando-se difícil abstrair um conteúdo mais rico do que meras considerações edipianas baseadas em tratados folhetinescos sobre sexo. Sobram até tiradas constrangedoras, como uma abordagem nada subliminar ao tema do tamanho do órgão viril masculino.

Se não houvesse uma contínua ansiedade em agradar o espectador atirando nas mais diversas e desconexas vertentes, Inconscientes poderia ser um filme mais honesto. Peca ao se mostrar singelo demais aos tabus. E brutamontes demais pra fazer rir.
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