IRMA VAP - O RETORNO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carla Camurati
Elenco: Marco Nanini, Ney Latorraca, Thiago Fragoso, Marcos Caruso, Fernando Carus, Leandro Hassum, Pedro Henrique, Guida Vianna, Miguel Magno, Luísa Arraes, Analu Prestes, Flávia Guedes, Maria de Sá, Arlete Salles, Cavalinho, Francisco Milani e Marieta Severo.
Duração: 80 min.
Estréia: 07/04/2006
Ano: 2006


Ilma Chefto


Autor: Erico Fuks

A melhor cena de “Irma Vap – O Retorno” não acontece exatamente durante o filme. Logo no início, antes dos créditos da ficha técnica, um take razoavelmente afastado do núcleo mostra Carla Camurati no meio de Marco Nanini e Ney Latorraca dentro de uma sala de cinema, iniciando aquilo que poderia ser um preâmbulo didático. Mais ou menos. O plano fixo centra nos atores desnudos de tanta maquiagem e paetês que os caracterizaram na montagem teatral de sucesso que ficou 11 anos em cartaz. Com papéis na mão e pouca inspiração interpretativa, começam a elencar alguns agradecimentos aos patrocinadores que tornaram o trabalho viável. E é justamente essa simplicidade cênica com cara de metalinguagem escolar que dá a graça a esse conteúdo introdutório. Não se sabe se eles acabaram de fazer o filme/peça, ou se entrarão no camarim pra se trocar. Mas estão ali, apenas Nanini e Latorraca, fazendo os obrigatórios agradecimentos verbais aos mecenas modernos que, alocados ao intróito, transformam-se em protagonistas e deixam de ocupar a apagada posição de meros colaboradores. Num país em que as leis de incentivo à Cultura soam suspeitas e o ato de bancar a arte por conta própria soa divino, essa grande angular dada à questão carrega uma ironia maior do que suas intenções. A naturalidade despejada é desproporcional ao restante do filme. O constrangimento inerente que a cena exige está ali, na fala e no sub-texto. Mas a esse impulso criativo foi adicionada uma dose extra de má-vontade. É no pronunciamento pouco comovente e nas rugas etárias despidas de pó-de-arroz que notamos uma preocupação maior que atinge o futuro do cinema no Brasil. Há sim, claro, aquela falsa gagueira e aquele improviso decorado de se tentar forçadamente pronunciar o nome do anunciante com a maior clareza e correção possível. Mas só o fato de se exibir através do ensaio e da encenação crua aquilo que a linguagem publicitária exige como resultado final a perfeição da artificialidade, já é um mérito. Ator repassando a ator a incumbência de ditar os créditos dos financiadores, como se essa ingrata porém necessária tarefa fosse um fardo artístico, é no mínimo iconoclástica se não chega a ser hilária.

Já não se pode dizer o mesmo de “Irma Vap – O Retorno” como filme propriamente dito. A cena inicial (dessa vez, da história) num enterro seria cômica se não fosse trágica como metáfora para os rumos de uma certa cinematografia capenga do repertório nacional atual.

Não espere encontrar o experimentalismo anagramático de Olivier Assayas. Irma Vap (Vampira), de Carla Camurati, tem um tratamento estético e morfológico mais linear. Otávio Gonçalves (Marcos Caruso) é um dos produtores da montagem original teatral de Irma Vap no Brasil. Luiz Alberto, filho de seu parceiro na empreitada, atolado em dívidas, acaba de morrer. A primeira dificuldade é que Tony Albuquerque (Marco Nanini), um dos atores espetáculo original, está paralítico e, manipulado pela irmã Cleide (Marco Nanini), vive confinado no segundo andar da casa onde ambos foram criados. Impedidos de realizar a remontagem da peça com o elenco original, convidam Darci Lopes (Ney Latorraca), ator decadente que faz shows em boates, para assumir a direção da peça com dois jovens comediantes: Leonardo Aguiar e Henrique D’Ávila.

Diferente da descontração e da simplicidade monocromática do início mercadológico, a trama atola-se em closes, planos fechados e tortos, enquadramentos no mínimo esquisitos e, óbvio, muita cor. Citações literárias do texto original perdem-se no contexto e sua inserção não se justifica a não ser pela tentativa de se mostrar uma erudição desnecessária para atingir um público desconhecido.

Uma das características mais marcantes da montagem teatral foi a quantidade de vezes em que a versátil dupla de atores entrava no camarim e trocava de roupa para assumir outro personagem. No filme, entretanto, o dinamismo cênico dá vazão à pressa. “Irma Vap – O Retorno” peca pela falta de fluidez e pelo alinhamento confuso entre os planos. A solução para tantos intercâmbios transgêneros do palco foi acertada na tela, pelo menos em sua proposta: montagem ágil, cortes rápidos. O resultado, todavia, não fica à altura. A necessidade de exibir a presença da tesoura fica maior e mais evidente do que a força das imagens. E nos momentos de maior respiro cênico, a mise-en-scène beira a pieguice. Infelizmente, o olhar turvo da direção estragou o potencial dramático do texto e colocou em cena um anagrama onde as peças não se encaixam e o elenco derrama frases feitas em uma atuação cansada e constrangida.

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