BOLEIROS 2 - VENCEDORES E VENCIDOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Ugo Giorgetti
Elenco: Lima Duarte, Otávio Augusto Flávio Miggliaccio, Denise Fraga, Cássio Gabus Mendes, Paulo Miklos, José Trassi, Sílvio Luiz, Petrônio Gontijo, Fulvio Stefanini, Adriano Stuart, Duda Mamberti, Andréa Tedesco, Anderson de Oliveira e Sócrates.
Duração: 86 min.
Estréia: 07/04/2006
Ano: 2006


Boleiros 2 X Cinema 1


Autor: Cid Nader

“Artificial, não passa credibilidade”, com essa definição de um companheiro aqui do site pesando nas costas saímos todos da sessão do novo filme de Ugo Giorgetti, cabisbaixos, com sensação de derrota de nosso time de coração, por goleada, com gol contra, juiz roubando e para time ruim. Eu diria mais: esse novo trabalho de Ugo Giorgetti passa aquela sensação ruim – que sempre preferi evitar por senti-la sempre muito reducionista e simplificadora – de “filme de publicitário” que, “obviamente”, não entende de cinema e muito menos de futebol. Não sei no caso dos outros publicitários mas Giorgetti, até este filme, sempre provou ser um bom conhecedor dos dois temas – se bem que no caso futebol, eu tenha uma desavença radical com ele; questão de times e paixão.

Há longo militando por trás das câmaras ganhou fama como publicitário entrando no mundo cinema pelas portas dos documentários. Fez dois bem bons, “Campos Elíseos” e “Martinelli”, na década de 1970. Seu primeiro longa de ficção, “Jogo Duro” (1986) mostrou que ele talvez estivesse surgindo para desmentir os maledicentes anti-publicitários que sempre povoaram o mundo da sétima-arte: um filme de estrutura radical que fala do assunto “sem tetos” pioneiramente. Fez os “undergrounds” “Festa” e “Sábado”, pelos quais ganhou respeito – da classe - e razoavelmente reconhecimento – por parte do público. Seu último filme, “O Príncipe” (2002), voltou a apresentar uma fissura na obra que já havia sido concretada, com opiniões divergentes e algumas que já apontavam para o artificialismo como elemento mais marcante do filme – particularmente acho esse seu melhor filme, por tratar assunto que remonta a passado, vida “desperdiçada”, retomada e desilusão.

Portanto, o assunto artificialismo já havia sido “previsto” – ou teria sido um pressentimento? – quatro anos antes do surgimento de “Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos”. O filme já tem contra si, inicialmente, a presença do fantasma de seu irmão mais velho, “Boleiros” - como Zoca em relação ao Pelé, por exemplo -, feito em 1998 e que angariou para si a simpatia de crítica e público. Até o público feminino - normalmente avesso a essa instituição (futebol) que seduz e abduz homens, tirando-os dos momentos mais importantes da conjugação familiar (compras, passeio, novelas) , desculpem não resisti ante a possibilidade de fazer esta brincadeirinha – formou fileiras e enxergou no filme uma manifestação carinhosa e cuidadosa a respeito do comportamento humano, num geral. Algo que passa longe, realmente, de “Boleiros 2”. Nesse, um amontoado e convidados vão desfilando diante de nossas vistas, velozmente, sem razão mais palpável para estarem lá, sem um aprofundamento mais determinado e estudado. No primeiro da série, o grande trunfo residia justamente nesse detalhamento maior e mais aprofundado de seus personagens, resultando em situações mais “cinematográficas” – os seres foram criados para transmitir histórias emocionantes, ou engraçadas, ou nobres, ou desesperançadas, isto é, tinham função específica no que se imagina ser um roteiro cinematográfico. Nesse primeiro Boleiros, nota-se, ainda, um maior afinco de Ugo para o fechamento mais bem trabalhado no quesito atuações – todos ao atores mandam bem, mesmo os não profissionais.

“Boleiros 2 ...” é uma oposição em seu resultado. Parece que dessa vez o diretor resolveu fazer apenas uma brincadeirinha – que resultou ser de mau gosto – e não ofereceu esforço para transformá-la em algo próximo de um bom filme. Tem menos histórias de tempos passados na trama e as poucas são de solução e desenvolvimento ruim. Os personagens convidados não profissionais, ou atuam mal ou, em outros momentos, são mal e pouco aproveitados – uma honrosa exceção é o apresentador Sívio Luís, que nada mais faz do que ser ele mesmo e se sai muito bem. Já no quesito profissionais da atuação os personagens pensados por Giorgetti são muito mal delineados, mal dirigidos e com histórias jogadas a esmo e mal exploradas. O personagem Barbosa (Duda Mamberti) ameaça emplacar mas vê, no final, seu caso ser jogado no lixo. Já o jornalista/escritor Zé Américo (Cássio Gabus Mendes) é daqueles personagens que por vezes nos pegamos falando numa roda de amigos termos sentido constrangimento pelo ator – conduz a história numa evidente falta de bom senso de quem imaginou tal maneira de conduzi-la. A repórter Aninha (Fernanda D’Umbra) então, além de era uma cópia maldosa da grande Soninha demonstra que o diretor tem pensamentos um tanto machistas e preconceituosos. As fãs do ídolo/dono-do -bar fazem um pano de fundo para lá de constrangedor e alimentam mais uma reação preconceituosa, quando são construídas baseadas no “mito” das “Maria-chuteiras”. Vários e variados, como num arremedo, como num circo mambembe. Pouco futebol, muito “mostra amiguinhos”, muita parafernália e pouco cinema. Boleiros 2, cinema 1.
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