V DE VINGANÇA:


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Original: V for Vendetta
País: EUA
Direção: James McTeigue
Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Roger Allam, Sinéad Cusack, Stephen Fry, Rupert Graves, Ben Miles, Tim Pigott-Smith, John Standing, Natasha Wightman e Clive Ashborn.
Duração: 132 min.
Estréia: 07/04/2006
Ano: 2006


“V de Vingança” e o baile de máscaras


Autor: Cesar Zamberlan

Desde que o cinema se transformou numa grande indústria, poucos foram os filmes ligados a esta industria que criticaram de forma tão contundente as instituições como este “V de Vingança”, uma co-produção inglesa e alemã, dirigida por James Mcteigue e com roteiro da dupla, Matrix, irmãos Wachowski.

O filme é baseado nos quadrinhos de Alan Moore e David Loyd que foi publicado originalmente entre 1982 e 1985, na revista inglesa “Warrior”, mas só foi finalizado em 1988 pela norte-americana DC Comics.

De inclinação anarquista, os quadrinhos retratam a política da era Reegan e Thatcher. E por mais sombria que aquela época parecesse, é incrível como o mundo piorou depois deles. Nesse sentido, a história retratada em “V de Vingança” continua atual e o filme soube aproveitar e deslocar os conflitos do quadrinho, fazendo um painel dos mais precisos da histeria política em que vivemos. Alan Moore achou o roteiro do filme um lixo, não sei o que achou do filme.

“V de Vingança” fala de uma Inglaterra governada por um regime totalitário que impõe normas rígidas aos seus cidadãos, que faz experimentos científicos visando controlá-los, que usa os meios de comunicação para criar uma verdade que justifique o horror, que cria atentados terroristas para cultuar o medo e se vender como a solução para uma paz impossível e não buscada.

Em meio a esse cenário caótico, um homem mascarado surge para vingar o povo oprimido, tornando o dia 5 de novembro no dia da libertação e prestando uma homenagem a outro líder que há 400 anos teria sido enforcado nesta data, após ter sido descoberto com 36 bananas de dinamite sob o parlamento inglês.

“V”, o herói mascarado, se prepara então para render sua homenagem a esse líder, fazendo aquilo que o outro não conseguiu e mostrando que acima dos prédios e do poder que representam estão os homens, as idéias e o ideal de liberdade.

Impossível não fazer paralelos com a história, recente ou não. Com a crítica, por exemplo, de Lutero a Igreja Católica que erguia prédios suntuosos com o dinheiro das indulgências para acentuar seu poder sobre os povos. Crítica, entre outras, que motivou a reforma protestante, um dos momentos fundamentais da nossa história e cujo descontentamento com o poder instituído se repetiria depois em outros levantes e revoluções, mesmo com muitos desses ideais sendo subvertidos depois.

Impossível também não fazer um paralelo com a queda das Torres Gêmeas e o ataque ao Pentágono, para citarmos um episódio mais recente. E aqui, a questão fica complicada e é na qual residem as maiores críticas ao filme. Alguns questionam que o filme ao usar desse artifício, a destruição de símbolos do poder para mostrar o quanto esse poder é artificial, estaria de certa forma fazendo uma apologia ao terrorismo.

A questão é relevante, mas cai por terra, com o perdão do trocadilho, se pensarmos que hoje é impossível identificar quem é o terrorista e quem não é. Até que ponto as ações dos EUA no Iraque, vide prisão de Abu Ghraib são menos terroristas que atentados promovidos pela Al Qaeda?

Nesse ponto, “V de Vingança” de forma mais explicita e até mesmo “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, conseguem, através de uma simples metáfora, uma façanha incrível: simbolizar através do uso das máscaras essa impossibilidade de distinguir entre o bem e o mal. Com a máscara, não sabemos quem é quem: se o bandido é a vítima ou se a vítima é o bandido, no assalto de “O Plano Perfeito” ou se o refém é o vingador ou se o vingador é o refém, na tomada do prédio da TV em “V de Vingança”.

Até mesmo a comemoração de uma data: 5 de novembro em “V de Vingança” e 11 de setembro na história real, mostram como esses artifícios podem ser usados de ambos os lados e como mascaram uma realidade maior, não passando de mero jogo retórico para persuadir a opinião pública que há muito tempo é um joguete na mão dos políticos e das grandes corporações com seus interesses financeiros. A demolição que “V de Vingança” faz da mídia também é exemplar.

Outro ponto a destacar no filme é o seu elenco e a construção dos personagens, que longe de caricaturismos tem nuances bem interessantes. Natalie Portman faz Evey órfã que desobedece ao toque de recolher e na iminência de ser estuprada é salva por V, passando a conhecê-lo e sendo associada a este por seu passado, visto que sua família tinha sido preso e assassinada por motivos políticos. As suas indecisões, seus questionamentos fazem um interessante contraponto à visão política formada de V. O ritual de amadurecimento da personagem, presa e torturada, também compõem esse baile de máscaras no qual é difícil a distinção entre o bem e o mal o certo e o errado.

Outros dois personagens chave são interpretados por uma dupla de peso e bastante alternativa: Stephen Rea, que até já foi uma figurinha mais difícil, e Stephen Fry, aquela da música do Zeca Baleiro. Rea faz o inspetor chefe Finch que investiga V e começa a partir dos indícios apontados pela investigação a desconfiar do próprio governo para o qual trabalha. Stephen Fry faz o papel de um comediante gay que ao levar ao ar um programa satirizando o governo é perseguido e preso.

“V de Vingança” é um filme tão cheio de leituras, tão atual e instigante que pouco se falou até aqui de outros elementos tão importantes ao filme em se tratando de um produto associado a um outro produto tão marcante quanto “Matrix”, ou seja, a forma do filme, como todo esse arsenal de leituras é trazido ao público.

Para a felicidade daqueles que odeiam ou não são muito simpáticos a malabarismos técnicos tão em voga hoje em dia, é preciso salientar que “V de Vingança” em poucos, pouquíssimos, momentos usa dessas piruetas para alavancar a narrativa. O que seria, de certa forma, incoerente com a proposta do filme, com a discussão de questões tão antigas e universais.

“V de Vingança” não é um filme de inovações formais, é até conservador nesse sentido, mas tem a coragem de dizer de forma clara, como nunca talvez o cinemão tenha dito, que o terror alardeado e a ser combatido pelo estado nada mais é que fruto desse mesmo estado, algo fabricado por ele ao ser intolerante a tudo que lhe é diferente.

O baile de máscaras do filme acaba tendo uma dupla função: ao ocultar a verdadeira face, tornando impossível a distinção do bem e do mal, provoca confusão e mostra que um pode ser o outro; por outro lado, ao condenar o diferente, a intolerância seja ela qual for, aniquila-se as individualidades, somos todos um só e somos todos nenhum.

Significativa nesse sentido a cena final quando milhares de pessoas mascaradas de “V” rumam em direção ao parlamento e diante da espetacular destruição do prédio, tiram suas máscaras, podendo aí, sim, assumir, mesmo que provisoriamente, uma identidade.

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