MARIONETES:


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Original: Strings
País: Dinamarca/Suécia/Noruega/Inglaterra
Direção: Anders Rønnow-Klarlund
Elenco: Animação
Duração: 88 min.
Estréia: 31/03/2006
Ano: 2004


A vida por um fio


Autor: Cid Nader

"Marionetes" é um filme em que os atores são bonecos de madeira - filmados como se fossem seres humanos - e não uma animação no sentido mais usual do termo. Quando o trabalho é feito com bonecos de massinha, por exemplo, as cenas são gravadas quadro-a-quadro, sem interferência , no momento da filmagem, de mãos ou almas humanas. No caso de "Marionetes", os humanos "contracenam" diretamente com os personagens principais, obviamente que através da manipulação daquelas cordinhas - ou fios. O intuito principal de seu realizador é óbvio: quer caracterizar o desenvolvimento da trama como algo surgido da alma humana. Os bonecos têm características físicas totalmente humanas e mais, sofrem de dilemas e medos humanos. As soluções encontradas durante o filme não são de caráter "impossível", super-heróico, necessitam de sangue e suor para serem completadas.

Realmente não seria o caso se considerar esse um trabalho exclusivamente destinado às crianças - se bem que elas também deverão ter todo o direito de participar e tentar compreendê-lo. Mas que seu desenvolvimento é de matiz adulto, não resta dúvida. O filme tem ares de epopéia, se passa nos tempos dos reinos, fala de traições, de adesões, de amores ...

Aliás têm importância fundamental no trabalho as cordinhas - como me referi a elas anteriormente -, já que de maneira esperta e muito bem sacada pelo roteiro, os bonecos têm a vida e o destino traçados e determinados não por interferência divina ou problemas de saúde e sim pela conservação e integridade das tais cordinhas. Por exemplo, no filme - que fala de jornada, morte misteriosa de rei, batalhas e desafios espetaculares - o alvo a ser agredido no corpo do oponente não é o coração ou a cabeça, mas o verdadeiro sustentáculo das vidas dos bonecos - alguma dúvida? -: as cordinhas (grande essa idéia).

A história tem altos e baixos no seu decorrer, mas imagens espetaculares, como a do horizonte cortado por centenas de fios - creio que nesse caso seja essa uma maneira mais correta e coerente para designar as cordinhas -, criando um visual inédito no cinema, é muito legal e um dos atrativos do filme. Mas como trabalho irregular que é, têm truques também: como as mãos que se mexem somente quando captadas em close, a ausência de fios em alguns ambientes internos ou as bocas sempre fixas; mas dá para entender e aceitar.

Não sei se funcionará por aqui, região de pouca tradição de títeres, ao contrário da Escandinávia, origem do filme, e outras partes da fria e recolhida Europa. Fico inclusive imaginando qual o critério utilizado pelas distribuidoras para optar pelos filmes que serão lançados em nosso mercado; será que existe um estudo mais apurado a respeito por parte delas?

Ah, uma constatação, um tanto infame, talvez, porém uma constatação: por esse filme, finalmente entendi o significado da expressão "a vida por um fio".
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