VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIO:


Fonte: [+] [-]
Original: Private
País: Itália
Direção: Saverio Constanzo
Elenco: Hend Ayoub e Mohammed Bakri
Duração: 90 min.
Estréia: 31/03/2006
Ano: 2004


"Violação de Domicílio": o espaço como metáfora.


Autor: Cid Nader

Toda vez que o tema Palestina/Israel é apresentado no cinema, uma mistura de sensações - meio que já "pré-programadas" pela emotividade reativa - aflora e se apodera de outras sensações possíveis, causando uma impresão de "déjà vu", mesmo com toda a carga de imperiosidade que o tema merece. Ver a eterna e desigual luta numa guerra que, até o momento, nunca passou qualquer sensação de virada, saber que "dogmas humanitários" não são tão inatingíveis e intocáveis assim, parece ter se tornado - mais que atitude consciente e anti-bélica - a simples descoberta de um filão atrativo, que se não tem por função maior rechear bolsos com retorno de bilheteria, também se posiciona distante de uma função de denuncia e reclamo, em favor de um povo oprimido pelo Estado.

Em seu início, "Violação de Domicílio" consegue piorar ainda mais expectativas, com seu estilo frenético e veloz, ditado pelo uso da câmera na mão e seus eternos "sacolejos", além do "perder o foco", quando não, o alvo a ser filmado.

Porém, expectativas - quando negativas - ao serem quebradas, podem suscitar manifestações de júbilo e alegria e é o que consegue o diretor Saverio Constanzo com o avançar de seu filme. A câmera na mão, ligeira e "chacoalhante", dá prova de sua razão de ser - evitando o horripilante apelo de modismo, o usar por usar que tem sido regra básica, de maneira quase unânime, nos últimos tempos - ao ser utilizada para passar aos espectadores toda uma sensação de angústia e urgência, num espaço pequeno e reservado, carregado com toda a tensão de um desentendimento que parece eterno e de solução impossível.

O uso de luz - ou falta dela - natural, cria uma granulação na fotografia que faz com que a situação/mote da história ganhe em credibilidade e convença.

O filme se passa em boa parte dentro de uma casa (de palestinos) - na região sul do país eternamente dividido, Israel/Palestina - que é invadida e "repartida" ao meio (por soldados israelenses), numa situação pra lá de esdrúxula, fora de qualquer contexto aceitável de realidade, "non-sense", inaceitável e mais, inacreditável.

O diretor consegue criar todo um clima de angústia e medo: pelo lado técnico com o uso da luz/não luz, e pelo "lado idéia", ao criar metáforas que procuram explicar com um pouco mais de jogo de cintura as relações de coexistência entre os dois lados envolvidos. Metáfora: a casa, que se torna uma espécie de quartel para soldados - jovens, cheios de anseios e comportamentos juvenis - que não sabem ao certo o que nela estão fazendo, que se torna um símbolo para demonstração de resistência e para demonstrar que a paciência - interminável e cultivada sobre terreno árido - talvez venha a constituir-se na mais certeira "arma" para derrotar o inimigo. Metáfora: um armário, localizado no lado superior, que é visitado esporadicamente por um dos personagens, fato que cria momentos de altíssima tensão, expectativa, medo, mas que, por outro lado, revela o lado mais humano do conflito, mostrando a curiosidade e a atração que podem existir entres seres tão antagônicos; fica patente e notório que tal antagonismo pode ser somente peça de aparência.

O fato de mostrar uma família palestina com comportamento de matiz ocidental - o pai é um professor universitário e as pessoas não de vestem com trajes "típicos" - parece ter sido planejado cuidadosamente por Saverio Constanzo. Uma opção para angariar simpatia e reconhecimento - poderia ser imagem no espelho, não? - junto ao público ocidental mais reticente. Vale lembrar que nos Estados Unidos, por exemplo, existem centenas de professores universitários de origem palestina e que eles e suas famílias estão bastante integrados no modo social do país.

São as guerras o maior símbolo da insanidade que por vezes domina o ser humano? A falta de diálogo e as atitudes brutas repetidas mecanicamente - por vezes, sem nenhum tipo de compreensão da real razão de sua prática - podem significar que com um pouco mais de coerência e lógica, soluções viáveis, menos impossíveis, teriam algum tipo de chance?

O final do filme, com "saídas" e "novas entradas", funciona como mais uma metáfora para tentar responder a essas duas questões. O filme todo funciona, também, para mostrar como pode nascer o desejo de vingança (um apêndice do ódio); às vezes à mão, ali, sob um travesseiro.

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