CRIANÇAS INVISIVEIS:


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Original: All the invisible children
País: Itália
Direção: Kátia Lund, Kusturica, Spike Lee, John Woo, Ridley Scott, Mehdi Charef e Stefano Veneruso.
Elenco: Francisco Anawake, Maria Grazia Cucinotta, Damaris Edwards, Vera Fernandez, Hazelle Goodman, Hannah Hodson, Wenli Jiang, Wu Jiang, Peppe Lanzetta.
Duração: 116 min.
Estréia: 31/03/2006
Ano: 2005


“Crianças Invisíveis" - mas elas estão lá


Autor: Cid Nader

É desnecessário pontuar as razões que fazem com que obras criadas em conjunto não consigam coesão total ao seu final, primeiro pelas obviedades das diferenças de estilos, recursos utilizados, etc, etc. Também, porque já tive a oportunidade, aqui no site, em outras ocasiões, de me aprofundar um pouco mais no assunto.

"Todas as Crianças Invisíveis" junta nessa jornada humanitária, encomendada pela Unicef, oito cineastas - sete filmes - de diferentes estilos e países, mas que demonstram ser o cinema, junto com a música, a fonte de apelo popular mais imediato, portanto, pronto para ser utilizado quando o assunto é arrecadação de bens em benefício do ser humano. Esse trabalho não foge à regra da irregularidade e isso acaba importando bastante ao final de sua exibição; fica uma certa sensação de "faltou um algo mais". Não é um desastre total - tem alguns episódios muito bons, o suficiente para levar alguém a assisti-lo.

O episódio africano, de Meldy Charef, mostra situação em que crianças viram guerreiros armados, abandonando -por conta dessa eterna guerra tribal que assola quase todo o Continente Negro - a escola e principalmente a infância; qual futuro possível? Muito pueril, no mau sentido, ainda por cima é falado em inglês - fato que descaracteriza qualquer obra nascida em solo onde não se fala, oficialmente, o idioma britânico -o que só contribui para piorá-lo.

Emir Kusturica surge novamente - e acho isso positivo - com seu cinema aceleradíssimo, adrenado, cigano e extremamente musicado. Mostra a situação de crianças encarceradas por crimes cometidos. Revela-se um tanto próximo de nossa realidade carcerária/correcional. Destaque especialíssimo para a dança malandra e safadinha de um molequinho cigano, que já concorre ao prêmio de uma das melhores cenas do ano.

Em São Paulo, na São Paulo dos pobres e favelados, onde crianças trabalham qual burros de carga e, mesmo assim, não deixam de exercer sua "infantilidade" nos momentos de folga, Kátia Lund mostra o quão boa diretora de atores é. Foca o seu trabalho em duas crianças, um menino e sua irmãzinha, que fazem de tudo para sobreviver honestamente, cruzando uma cidade cruel - de um país cruel - e trabalhando duro para levar no fim do dia o dinheiro do sustento de sua casa. Facilmente compreensível por nós. É só sair da sala de cinema e olhar para qualquer lado, em qualquer rua.

Já o "Sr. Faça a Coisa Certa", Spike Lee, para variar manda muito bem; faz o melhor episódio do conglomerado fílmico e conta sobre a situação de crianças portadoras do vírus HIV - portadoras, mas sem a manifestação da doença. Fala de Blanca - numa baita interpretação da atriz mirim - filha de pais viciados, e que enfrenta problemas na escola - ah, esse maldoso mundo adolescente. Tem a pele muito clara, para o gosto de suas inimigas - afinal, são crianças/adolescentes que emanam opiniões de pais sem bom senso. Termina como vídeo institucional e isso funciona muito bem, emocionando.

Jordan Scott e Ridley Scott. O que esperar do bom cineasta, Ridley, que ficou famoso pelo jeito meio publicitário de encarar o cinema - agora na versão "acompanhado da filha". Justamente isso. Faz um filme plasticamente belo, onde um bosque é entrecortado por fachos de luz difusa - característica familiar - e que cria uma bonita elipse ao levar seu ator principal da vida de adulto à infância. Trata das crianças nas guerras européias, e lembra que "a felicidade multiplica o bem e divide o mal".

"Nápoles está sendo recuperada, mas a violência continua", é a reclamação de alguns passantes após um assalto cometido por moleques, no trânsito; poderia ser São Paulo ou Rio. O problema é que Stefano Venerano nos entrega um filme muito "esquemático" que toma, num dado momento, rumo de passeio turístico pela cidade, com suas manifestações culturais se impondo ao verdadeiro objetivo que seria o de enfatizar as desigualdades responsáveis pelas atitudes de violência infantil.

A China do regime de escravidão infantil é o tema utilizado por John Woo em sua participação no projeto. Seu filme, como sempre, beira o drama rasgado - raspa por ele - mas Woo é habilidoso e sabe o que faz. Mostra os dois mundos, o da riqueza e o da miséria, pelos olhos de duas meninas - maravilhosas. Suas necessidades e desejos são esplendorosamente engendrados e filmados, e o recado competentemente passado. Plasticamente o mais bonito de todos; não o melhor, mas o mais belo aos olhos.

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