DEPOIS DAQUELE BAILE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Roberto Bomtempo
Elenco: Irene Ravache, Lima Duarte, Marcos Caruso, Ingrid Guimarães, Chico Pelúcio e Regina Sampaio.
Duração: 108 min.
Estréia: 24/03/2006
Ano: 2006


Festa baile com angina e colesterol


Autor: Érico Fuks

Pode-se arriscar que existem dois tipos de regionalismo cinematográfico. Uma espécie busca entrar em contato com a gênese das questões individuais, sociais e morais. Recorre-se ao primitivismo minimalista não somente como artifício, mas como o próprio código dessa linguagem estranha a ser decifrada. Nem precisa ir tão longe a exemplos como o indochino “Mal dos Trópicos”. O próprio “Cinema, Aspirinas e Urubus”, cria da nossa árida terra, caminha esse vasto e intestino trajeto vazio. Parece um road movie numa leitura apressada, mas o percurso traçado tenta mapear a própria essência humana, trazendo questões além das imagens cruas porém cegamente nítidas. A câmera da síntese, a economia inutilia truncat dos diálogos, o olhar contemplativo de devoção aos personagens, o batimento cardíaco zen-budista de cada plano, são fragmentos silábicos justapostos que reforçam esse conceito de respeito ao autoconhecimento e à interiorização.

Já um outro regionalismo utiliza-se da mesma polis longínqua e distante dos movimentos urbanos, mas traça um exercício cinematográfico bem diferente. O âmago carnal encobre-se de paetês interioranos e sotaques epidérmicos. Valoriza-se o detalhe das imagens, e não a força intrínseca que elas poderiam emanar. Uma placa de rua típica de cidade pequena, uma ladeira de paralelepípedos, um padeiro à moda antiga ou qualquer outro elemento denotativo que esteja descrito no roteiro ganha uma grande angular nessa retratação aguada e brejeira do ser humano. Algo mais ou menos na linha do recente “Vida de Menina” que, não é à toa, encaixa-se numa categoria pejorativamente comparada à forçada leveza e vacuidade das novelas das seis da tarde e dos chazinhos com bolo de chuva.

“Depois Daquele Baile”, filme-circunlóquio de estréia do ator Roberto Bomtempo, baseado em peça teatral homônima de Rogério Falabella, procura intencionalmente se enquadrar nesse insípido segundo modelo. Esboça um panorama umbilical de um vilarejo de Belo Horizonte e apropria-se dos cacoetes provincianos como armas de fogo que sustentam toda a história. Diminutivos pronunciados “comendo” as últimas letras, close no pão de queijo, apreço pelas coisas simples da vida, são alguns exemplos. Dois grandes amigos, Freitas (Lima Duarte) e Otávio (Marcos Caruso) disputam a viúva Dóris (Irene Ravache) e fazem uma aposta. Quem ganhar tem um mês para a conquista e, se não conseguir, deixa o caminho livre para o rival.

Mesmo patrocinado pela Bayer, de “Cinema e Aspirinas” o filme não carrega nada. Tá bom, tá bom, carrega sim. Otávio é um protético hipocondríaco que não dispensa uma cápsula anestésica antes das refeições. Ele, tímido, reservado, saudosista, é o contraponto do epicurista e mulherengo Freitas, que adora um torresminho banhado a colesterol. Óbvio demais esse duelo. Construção arquetípica de protagonistas moldada nas aparências e nas adversidades. Bomtempo ainda tem mão pesada e um pouco de inaptidão para explorar com maior sutileza a introspecção e os contrastes menos evidentes. O que de certa forma é perdoável para um calouro na direção.

Essa perda da virgindade por trás das câmeras releva alguns perfeccionismos detalhistas. Faz-se escapar uma ligeira tremedeira na hora de acertar o quadro e alcançar o plano perfeito. Essa gagueira diante do prumo, dentro desse contexto, não chega a ser um problema. Falta a Bomtempo um pouco mais de arroz e feijão para achar, nos fotogramas e não nas palavras do roteiro, aquilo que de fato consegue ilustrar a “historinha” sem demais explicações verbais.

Entretanto, essa incipiência profissional é implacável com a proposta do diretor. Se estivesse arraigado a intenções mais marginais, esses titubeios formais fariam todo sentido. A questão é que Bomtempo tenta dar a seu trabalho uma leitura clássica, convencional. O triângulo amoroso é previsível, os dilemas são mornos, a trilha moribunda afunda maiores emoções, nada cria expectativas demais em relação à calmaria mineira encenada. “Depois Daquele Baile” não só é uma dança com direito a pisões no pé, como também aplaina uma monocórdica valsa de uma escala só. Para bons dançarinos cinematográficos, assistir a um gira-gira com poucos improvisos só pode causar tontura. E aí não há aspirina que resolva.

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