NÃO É VOCÊ, SOU EU:


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Original: No Sos Vos, Soy Yo
País: Argentina / Espanha
Direção: Juan Taratuto
Elenco: Diego Peretti, Soledad Villamil, Cecilia Dopazo.
Duração: 105 min.
Estréia: 24/03/2006
Ano: 2004


"Não É Você, Sou Eu" - a má onda


Autor: Cid Nader

Aparentemente o movimento "a boa onda" - termo criado para denominar o momento de excelência pelo qual passa (ou passou?) o cinema argentino nos últimos tempos - começou a fazer água; com o perdão do infame trocadilho. Parece que a maré baixou e os bons "surfistas" que empunham suas câmeras, lá pelas terras do Prata, resolveram estrategicamente aguardar um movimento diferente da maré, onde as ondas se apresentem mais apropriadas e com tubos mais bem definidos. Enquanto isso, aparentemente se aproveitando de uma marolinha chinfrim, trabalhos mal conduzidos - de "surfistas" nada arrojados - têm desembocado cá por nossas areias ultimamente, colocando em perigo a boa fase do cinema dos hermanitos. Tomara que seja somente movimento transitório; nada que faça com que o rebatizemos como "a má onda".

O mais novo exemplo mal acabado que estréia em nossas telas responde pelo nome de "Não é Você, Sou Eu", dirigido por Juan Taratuto e, talvez servindo como uma pequena desculpa para a baixa qualidade, co-produção Espanha/Argentina.

Os problemas já iniciam com o ator, Diego Peretti (interpretando o médico Javier); uma figura caricata, de complexidade física estranhamente magra e fisionomia meio "cavalar", que tenta se aproveitar dessas características para se impor frente às câmeras - como se fosse um Stan Laurel, que com certeza tinha características fora do padrão comum, mas que tinha carisma suficientemente bem definido para angariar a anuência da platéia, além de ser grande ator (aliás que heresia essa minha de colocar um gênio do cinema como modelo de comparação; Deus que me perdoe). Para piorar mais um pouquinho o ator tem uma voz estranha - algo entre um misto de Woody Allen e Pato Donald (que Deus me perdoe novamente) - e aparentemente imagina ser uma versão platina do ator/diretor norte-americano.

Um certo dia a namorada de Javier resolve que irá dar um pulinho ali, nos Estados Unidos, e já volta. Javier perde o rumo por conta do desenlace do passeio da garota, passa a habitar entre a casa de amigos, parentes, perdendo o emprego e a razão de viver. Mas a vida continua e os hormônios sempre ferver. Javier passa a tentar variadas maneiras de aproximação e ataques a novas mulheres, mostrando-se um inábil, passando à tentativa de utilizar alguns truques que pudessem vir a lhe facilitar tais investidas.

O filme vai se descortinando mal costurado, com pouco cuidado na direção de atores - nada tão terrível, mas a aposta é muito forte no protagonista principal, o que, aliás, me faz pensar que o diretor também corrobore das sensações "Woodyallenianas" do ator -, passagens de tempo muito mal definidas e truques extremamente infantilóides usados como método de criar graça e algo de non-sense à trama. Um desses truques acaba por desrespeitar exageradamente a inteligência do espectador - pois nitidamente não foi construído de maneira sarcástica ou como galhofa juvenil -: quando Javier percebe que todas as mulheres desejáveis que passeiam por um parque se interessam por cachorrinhos, imediatamente se dirige a um"pet shop" com a intenção de adquirir um; o dono consegue empurrar-lhe um "macho lindinho" que "jamais crescerá muito mais do que isso", que ao final de seis meses será maior do que o próprio Javier e, pasmem, aparecerá grávido, quer dizer, grávida. Contei essa passagem esdrúxula e de muito mau gosto - contra os meus princípios de pouco revelar - somente para ilustrar o grau de falta de compromisso do diretor para com o público.

Aguardo ansioso o retorno das boas produções portenhas, que nos viciaram nos últimos anos, sobretudo, pela virtude da imaginação bem utilizada, com foco no cinema de qualidade, realizado por diretores autorais e com muito pouca grana no bolso.
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