O PLANO PERFEITO:


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Original: Inside Man
País: EUA
Direção: Spike Lee
Elenco: Denzel Washington, Jodie Foster, Clive Owen, Cherise Boothe, David Brown, Jonnie Brown, Jay Charan, Willem Dafoe, Chiwetel Ejiofor, Carlos Andrés Gomez e Christopher Plummer.
Duração: 126 min.
Estréia: 24/03/2006
Ano: 2006


“O Plano Perfeito” – Spike Lee


Autor: Cid Nader

Se o assunto é falar de segregação, racismo e desinteligências, Spike Lee é o nome a ser clamado. Se for, ainda, denunciar intenções camufladas e envernizadas e a necessidade pede alguém corajoso ao mesmo passo que criativo, Spike Lee. Se a exigência for por um cinema de qualidade, que desde sempre tenha sido construído em cima de rigor estilístico, mas não estático, repetitivo e acomodado, novamente o povo pede pelo bom e único Spike Lee – afora que o cara veste a camisa do Brasil por uma espécie de paixão ancestral encontrada em seu princípio lá na “Mãe África”. Batuta o sujeito.

Quando surgiu com o inovador e potencialmente inflamável “Faça a Coisa Certa” (1989), jogou na seara dos denunciadores de preconceitos um filme que desmistificava o racismo como produto de mão única – não seria somente o dos brancos contra os pretos -, fazendo com que todos os sentimentos e verdades próprias explodissem em uma violência incontida, ao final de um quente e atrapalhado dia em Nova Iorque. É certo que evidenciou em primeiro plano a discriminação contra os de sua raça, mas metaforicamente demonstrou que, quando não há um senso razoável de entendimento, todos os estrangeiros também são “pretos” em sua impotência mas são “brancos” em alguns outros momentos, quando se vêem superiores “àquele coreano ou àquele guarda polonês”. O filme, além de tudo, era repleto de inovações conceituais e técnicas, obtendo, além da aclamação e admiração mundial por parte de crítica e público, uma espetacular virada na eleição que se aproximava à época de seu lançamento, para prefeito da cidade.

Diversos grandes filmes na bagagem depois - ao mesmo tempo em que fica nítida e evidente a dificuldade para a sua exibição e exportação – surge Spike Lee, agora, com “O Plano Perfeito”, um trabalho intrincado, hiper-bem filmado e editado, repleto de segundas intenções, pontuado por grandes momentos musicais, “atuado” da melhor maneira imaginável e repleto de soluções e achados tecnológicos. Um banco, Manhattan Trust, é invadido por quatro assaltantes, disfarçados e com um plano aparentemente bem bolado e fechado para a conclusão de seus intuitos. Entram de maneira determinada e ameaçadora na instituição bancária, concluindo em poucos minutos uma primeira etapa onde se revelam totalmente dominadores da situação. Porém o tempo passa, a polícia comparece e cerca o local, negociações são iniciadas e a real intenção do ataque passa a ser colocada em dúvida.

Clive Owen representando Dalton Russel como o líder da operação, compõe espetacularmente bem uma figura enigmática, fria, estranha e cheia de certezas que impõe indefinição aos que comandam o cerco ao local. Liderando o contra-ataque policial está Denzel Washington no papel do detetive Keith Frazier, indicado em cima da hora para comandar a investida policial, saído de um recém possível escândalo financeiro. É incrível como Denzel “rende” nas mãos de Spike Lee – já havia dominado a cena e se superado totalmente, anteriormente, em “Febre na Selva”. O personagem dele carrega a angústia do negro que sabe, terá de superar a “superioridade” do experiente capitão branco, John Darius (Willem Dafoe), dono do pedaço quando o assunto é botar a mão na massa, em enfrentamentos “tète-a-tète” com bandidos. A questão, racismo, está presente - como não poderia deixar de ser – e é manifestada a todo momento: o refém sikh que “assusta” os delicados e apavorados policiais, pela aparência e pelo uso do turbante, sendo chamado de árabe, mesmo sob protesto e indignação; a recusa na diferenciação entre armênios e albaneses; as “brincadeirinhas” nos momentos dos interrogatórios ...

Há a denúncia ao poder financeiro obtido da forma mais espúria imaginável – aliás se configurará aí a real razão de ser do “assalto” e do filme em si – e que tenta se utilizar de uma figura mais espúria ainda em seu anacronismo funcional, Madeliene White (Jodie Foster) contratada durante o episódio para tentar realizar uma “ação de limpeza” em benefício de um ser que se move por ações beneméritas e acima de qualquer suspeita por seu passado “imaculado”.

Spike Lee demonstra humor, num certo momento, ao se utilizar da figura do líder do bando que diz a um garoto – um dos reféns – que se fosse seu pai não permitiria que ele brincasse com um joguinho eletrônico tão violento como aquele que tinha nas mãos. Mas o mais bacana mesmo no filme é demonstrar o caráter e as razões emprestados quanto à verdadeira intenção do golpe que, ao seu desfecho, vê ser denunciada conscientemente a origem suja e inaceitável do alvo da ação, jogando a público verdades camufladas a tempos, não deixando de evidenciar, contudo, que o principal desfecho deverá ter o lucro como razão principal.

Bem filmado demais, com o uso de travellings ampliados e bem definidos em suas intenções, câmera na mão apropriadamente utilizada nas situações que exigiam mais urgência e presteza – portanto com razão de ser e não por simples modismo -, o uso de música característica à sua obra nos momentos onde os diálogos tomam a dianteira e conduzem a trama e de uma música “indiana” muito bacana como marca registrada – assinatura – do filme. Spike Lee não necessitaria dizer a que veio a cada obra sua que se materializasse mas insiste em fazê-lo, com bons filmes atrás de bons filmes e, notadamente nesse, um trabalho superior, maduro, compacto e consciente, pleno de certezas quanto ao que se faz necessário no momento de se construir um bom cinema.
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