ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO:


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Original: Shutter
País: Tailândia
Direção: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom
Elenco: Ananda Everingham, Natthaweeranuch Thongmee, Achita Sikamana, Unnop Chanpaibool, Chachchaya Chalemphol e Panitan Mavichak.
Duração: 97 min.
Estréia: 24/03/2006
Ano: 2004


“Espíritos, a Morte Está ao Seu Lado”


Autor: Cid Nader

O sudeste asiático – aquele a que chamamos de extremo-oriente – é, reconhecidamente, uma região do planeta bastante reconhecida pela excelência de sua cinematografia. O Japão, bastante tradicional e reconhecido mundialmente desde o início da história do cinema, inscreveu e ainda inscreve o nome de diretores entre os maiorais. A China, mundialmente reconhecida a partir da década de 1980, assombrou pela qualidade de um cinema inimaginável, por vir de um país coberto pela censura e rígidas normas que sempre visaram dificultar a penetração de influências externas, e que continua a revelar trabalhos de matizes e conceitos bastante diversos entre si – inclua-se aí os realizadores de Taiwan e Hong-Kong. Um pouco mais tarde explodiu, nas cabeças pensantes do mundo todo, o vigoroso, atípico, “estranho” e criativíssimo trabalho vindo da Coréia, composto por explanações e reações de um certo tom latino, facilmente compreensíveis pela origem em uma formação religiosa mista (budista/cristã); algo “pirante” e estimulante.

Menos afeita à realização cinematográfica, a Tailândia aparece pela segunda vez nas telas brazucas nos últimos anos. Em 2004, causou furor em um pequeno círculo de privilegiados – alguns afortunados espectadores das mostras internacionais do Rio de Janeiro e de São Paulo – com uma verdadeira obra-prima: “Mal dos Trópicos”. Certo, falar desse trabalho pra lá de autêntico dirigido por Apichatpong Weerasethakul, em um texto que pretende comentar “Espíritos, a Morte Está a Seu Lado”, parece ser somente cabível pela origem geográfica das duas obras. Nem tanto. Existe outro elo de ligação apreciável entre os dois: o pós-morte, ou melhor, a crença em destinos para os espíritos desencarnados, algo muito comum nas práticas religiosas advindas do budismo.
As diferenças começam a se acentuar já na maneira escolhida para a inserção desses “entidades” em cada um dos filmes. Enquanto em “Mal dos ...” um tigre serve de abrigo para o descarnado e a história toma rumos que remetem ao comportamental humano – desejo, desencanto, incompreensão e tentativa de -, em “Espíritos ...” a idéia é a do susto, da assombração, do espírito fazendo o papel do atemorizador e reivindicador. O filme realmente causa bons sustinhos, cabelinhos arrepiados, aceleração cardíaca; é bem competente nessa sua proposta. Tem alma (sem trocadilhos, por favor) desses filmes japoneses de terror que tem inundado, com qualidade, as telas nos últimos anos e que, invariavelmente, tem sido re-filmados pela grande indústria mundial do cinema. Os diretores Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom utilizam razoável quantidade de sangue e cositas mais, maquiagem carregada, reflexos, sombras, sonhos, luzes que se apagam e mortes violentas, ao melhor estilo terror/cult/nipônico.

Mas, o filme carrega em si – e aí dá uma certa pena um não aprofundamento maior – a tradição das mulheres fatalistas e seus destinos trágicos, próprio do cinema japonês (olha ele aí de novo servindo de parâmetro): “Dolls” de Kitano, “O Império dos Sentidos” de Nagisa Oshima , “Cega Obsessão” de Masumura , por exemplo.

Natre é a mulher que sofre o grande desgosto amoroso do filme. Estudante reclusa em si mesma, mal vista pelos amigos de escola, representada por Achita Shikamana que impõe na composição de sua personagem um olhar atormentado, perturbador e delineador de seu futuro. Às escondidas namora Thun (Ananda Everingham), que mais tarde passará a exercer a profissão de fotógrafo. Voltando de uma festa ele e a nova namorada, Jane (Natthaweeranuch Thomgme), atropelam alguém na estrada e, por sugestão de Thun, resolvem fugir sem prestar socorro. O fato de ter se tornado fotógrafo acabará por se tornar a peça condutora do filme, pois todo o terror que passará a assomar a tela terá origem em figuras – fantasmas, contornos, sugestões – que aparecerão em fotos de situações comuns; em cantos, de perfil ou sombras mal definidas, mas presentes. O clima de filme de terror vai se impondo aos poucos com pequenos sustos sugeridos, mentais, como que frutos de nossa imaginação; o suficiente e, diria, de vital importância caso fosse a opção adotada pelo diretor para nos causar medos e incômodos. Mas, aparentemente, o modelo “assustatório” criado pelos cineastas japoneses é a escola a ser seguida e ela investe, também e bastante, no terror físico, sanguinolento, escatológico, que nos pega pelo estômago, mais do que pela mente. No meio termo adotado, os sustos comparecem e cumprem sua função com certa competência; poderia ser com galhardia.

Já, o não permitir que o “enclausuramento mental” se feche totalmente e aprisione-nos junto a Natre é a opção escolhida por Banjong e Parkpoom, que abdicam das possibilidades infinitas pelas quais a situação poderia ser encaminhada em favor da opção mais simplista, que é a de conduzir o filme pelos caminhos pré-concebidos do terror. Pensando-se assim, como já disse anteriormente, o filme mostra-se competente ao que se propõe nos mostrar. Mas mesmo nessa linha adotada exclui uma possibilidade da beleza e do lúdico, num momento – inclusive o desfecho, a última cena, do reflexo na porta – em que “espírito que se aglutina a um corpo” soma numericamente, em peso, num antagonismo ao que se poderia pressupor pelas crenças religiosas da região. Numa situação de certa similaridade, em “A Casa Vazia” do coreano Kim Ki-Duk, a matemática, o resultado da “aglutinação de alguma maneira semelhante” é o oposto do encontrado em “Espíritos ...”. No filme coreano o resultado é mais taoísta, mais próximo da perfeição do número.
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