BLOOM:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Irlanda
Direção: Sean Walsh
Elenco: Stephen Rea, Angeline Ball, Hugh O'Conor, Neilí Conroy, Eoin McCarthy, Alvaro Lucchesi, Maria Hayden, Aideen McDonald e Pat McGrath.
Duração: 108 min.
Estréia: 17/03/2006
Ano: 2003


“Bloom” - sob a ótica do vizinho


Autor: Cid Nader

Sempre que penso na odisséia escrita pelo irlandês e universal James Joyce, Ulisses, ao lembrar daquele único dia, a nós narrado, na vida de Leopold Bloom, tendo a me ajoelhar e postar-me em situação de absoluta reverência ante as lembranças que povoam o meu intelecto, de uma das obras máximas da história da humanidade – não só no campo literário, em qualquer setor das artes que qualquer um possa pensar. Lembrar do Ulisses que li na juventude e releio agora, bem mais tarde, não inspira-me aquele prazer fugaz, ligeiro e próximo que outras obras importantes conseguem despertar toda vez em que se pensa nelas. O prazer herdado após o primeiro contato com a obra máxima de Joyce, tem sua razão de ser muito mais ligada ao da descoberta de um novo mundo mais complexo, instigante na forma, desafiador pela escrita, “desvendador” das mentes não simples; uma coisa que nos satisfaz por mostrar-nos “competentes” e “capazes” quanto à nossa capacidade de “compreender”.

De verdade: sinto até manifestações espontâneas e amalucadamente independentes de meus fluidos interiores ante qualquer lembrança ou citação desse épico máximo como representação da alma e índole irlandesa. Calores e ansiedade, não raro, no “Bloom’s Day”, quando os jornais divulgam enxurradas de informações sobre o assunto, seu efeito e valor na terra da bandeira laranja e verde, pub’s lotados em Nova Iorque, São Paulo ou Belo Horizonte. Não sei se as pessoas que participam das comemorações realmente conhecem a obra, mas se não, mais evidente então a sua força junto às autênticas manifestações humanas.

Por conta de todo esse caldeirão fervente e involuntário que se apossava de mim, entrei tenso e razoavelmente desconfortável para assistir à versão da obra para o cinema, realizada pelo diretor irlandês Sean Walsh, e denominada nesse novo modo de apresentação com o sobrenome dessa espécie de Macunaína irlandês: “Bloom”. Desculpem-me a comparação com o herói/cara do Brasil, mas, no fundo, no fundo, Leopold Bloom tem para o povo irlandês essa mesma faceta de identidade que o nosso Macunaína para conosco. A culpa dessa comparação, no entanto, pode ser creditada à maneira encontrada pelo diretor de nos mostrar o que se passou naquele “único dia”. Foi tão natural a intimidade e tão pouco reverencial o modo encontrado por Walsh ao tratar o tema – como se fosse um vizinho próximo contando a história de quem conhece desde sempre – que já durante o transcorrer da exibição me dei conta que, na realidade, Joyce contou uma história que aparentemente pode intimidar a nós os incautos – pelo inusitado, pelo estranhamento, pela qualidade da cerveja que seja – mas que é muito próxima dos irlandeses, a sua cara, portanto, simples, de abraçar carinhosamente como fazemos com nosso negro/branco.

O filme não constitui um trabalho de grande primor cinematográfico – tem inclusive momentos muito mal compostos como os dos “delírios”, carregados de uma certa indefinição cenográfica, gestual, nas cores mesmo. Pode ser visto por alguns como superficial, na opção dos trechos escolhidos e pelo modo como construiu alguns dos personagens, especialmente o de Molly Bloom. Perguntado se a Molly de seu filme não seria bonita e sensual demais quando comparada à personagem idealizada no livro, o diretor respondeu: “onde está escrito em Ulisses que Molly não é uma mulher atraente? Para mim sempre foi?” E realmente a sra. Bloom composta por Angeline Ball é bastante sensual e, principalmente, bem interpretada. Disse mais o diretor Sean Walsh: “Stephen Rea, sim, está mais distante do Leopold literário que imagino. E é bastante curioso o papel de Rea: bem composto, com “aquele jeitão típico do dublinense”, mas de aparência bem distante da imaginada por mim; de qualquer maneira um grande ator que jamais faria alguma coisa totalmente descartável.

Por outro lado, esse não primor cinematográfico cabe como ponto positivo para o filme. Por ter sido um trabalho antecedido por 6 anos de preparações e pela opção do diretor de fechá-lo de maneira muito leve, nota-se que a intimidade adquirida pelo extenso e longo estudo da obra, afora a vizinhança geográfica com o tema, credenciaram Walsh a descartar a obrigatoriedade do rigor muito “fechado” em favor de um trabalho facilmente digerível, centrado em alguns, e mais individuais, momentos dos personagens. Sem ser superficial.
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