UM LUGAR PARA RECOMEÇAR:


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Original: An Unfinished Life
País: EUA
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Robert Redford, Morgan Freeman, Jennifer Lopez, Josh Lucas, Damian Lewis e Camryn Manheim.
Duração: 107 min.
Estréia: 17/03/2006
Ano: 2005


“O Recomeço do Início”


Autor: Fernando Watanabe

Não há qualquer razão para se discutir o que é ruim e o que é bom no filme. No primeiro caso, se atestaria a tardiamente revelada limitação criativa de um ex-darling da Academia do Oscar. Quanto ao segundo, poderá se encontrar na mídia informativa e propagandista resenhas mais objetivas como “ do diretor de Chocolate”, “ Um bom drama familiar”, ou “ um filme de extrema sensibilidade”. Aqui, prefiro expor um ponto que diz respeito a uma certa tendência da produção mundial, na qual “Um Lugar para Recomeçar” se insere.

Há dois planos que, de maneira sofisticada, marcam uma passagem clara no filme, uma mudança de rumos. Um é quando o carro de Jean está quebrado na estrada, ela estática em primeiro plano e a profundidade de campo mostra a estrada que ficou para trás, uma vida que ela está deixando, da qual tenta fugir. O que ficou para trás? A vida na cidade urbana, onde o que antes era sonho de constituir um pequeno núcleo familiar com seu marido Gary e sua filha Griff fracassou. Esse núcleo é mostrado rapidamente no começo, um lar onde a violência domina, não à toa, Jean carrega no rosto a cicatriz de um espancamento (1). O segundo plano vem um pouco depois do primeiro já comentado, é quando após o carro estar consertado, Jean segue seu rumo, e a profundidade de campo agora mostra o longo caminho que o carro irá percorrer. A viagem segue rumo ao futuro. À esperança de uma vida melhor. Porém, onde está esse futuro? No antigo rancho onde seu sogro Einar (no caso, pai do primeiro marido de Jean, já morto) vive. E o lugar está não só cravado num desolado Oeste americano, mas parece perdido num lapso de tempo, um tempo que já passou mas ao mesmo tempo se faz presente em tudo, em todos. São os fantasmas que assolam cada um, seus pecados, a culpa eterna. Jean se sente culpada por ter matado o filho de Einar. Einar se sente culpado por não ter impedido o Urso de atacar seu amigo Mitch, que hoje vive com ele no rancho.

Em um pólo oposto a Einar e Jean, estão Mitch e Griff. O primeiro, inutilizado fisicamente pelo Urso. A segunda, uma adulta aprisionada num corpo de criança (2). Os dois pertencem a uma antiga fórmula de construção de personagens que o cinema incorporou: menos capacidade física = mais aptidão ao pensamento. Mitch então revela ser a consciência. É ele que, perdoando o urso, irá desencadear todo o perdão de forma instantânea. Einar perdoará Jean pela morte do filho, acolherá a neta Griff, anos de ressentimento desaparecem num passe de mágica. O Urso indo embora é a metáfora pobre dos fantasmas que desaparecem. Curiosamente, o único que não recebe a graça do perdão é Gary (atual marido de Jean ), que é sumariamente espancado por Einar. Porquê? Porque Gary representa a ameaça externa ao antro familiar, e por mais que o filme tente dar uma humanidade ao personagem conferindo-lhe nuances de emoções, ele está caracterizado como o vilão que vem da cidade urbana desagregar a harmonia da família que agora se reconstitui. Tudo está resolvido. Toda a psicologia duvidosa que assola os personagens há anos antes do filme foi dissolvida em pó por uma manobra de roteiro. Á felicidade então. Mas, não no futuro que aquele segundo plano da estrada parecia indicar, mas, sim, no passado. No rancho arcaico do velho Oeste americano. No seio familiar, mesmo que as relações lá não sejam totalmente consangüíneas. Um filme reacionário por excelência.

Mas podia ser diferente. A fraqueza do filme está em não perceber o imenso potencial que ali havia de explorar algo que o grosso da produção tem deixado de lado: as relações não consangüíneas. Se o tema do retorno à família tem sido quase sempre tratado mediante relações pai/filho(a), “Um Lugar para Recomeçar” trabalha uma relação de irmãos, mas que não o são de sangue. Há um plano tão sofisticado quanto os dois da estrada, onde se vê Einar e ao lado um espelho que reflete a imagem do amigo Mitch. Conclusão óbvia: o diretor mostra que os vejamos como duplos um do outro, como irmãos. Einar tenta ajudar Mitch a superar a dor física, enquanto Mitch ajuda Einar a superar a dor da perda do filho. Um precisa do outro. Uma relação de conveniência afetiva, muito mais do que uma ligação espiritual, carnal, ou instintiva entre ambos. Não fosse essa relação de troca implantada pelo roteiro, não haveria ali o mínimo para se crer que aqueles dois são irmãos de uma maneira verdadeiramente profunda, inocente, inexplicável. Mas, o “mainstream” exige que Hallström explique. Nesse aspecto, Brokeback Mountain (Ang Lee) e Reis e Rainha ( Arnaud Desplechin) são filmes atuais que exploram este tipo de relação entre as pessoas, na qual os seres humanos fazem concessões – que vão de encontro ao seus interesses individuais - em prol de aceitarem um ao outro. Já Hallström prefere centrar a história no perdão, tradicionalmente melodramático. Faltou-lhe a visão de perceber que a relação Einar/Mitch poderia trazer valores maiores a seu filme.

A princípio, não há qualquer interesse em se assistir mais um filme de Lasse Hallström, uma vez que sua obra possui um único bom filme, sua estréia, “Minha Vida de Cachorro” (1985), feito ainda em seu país de origem, a Suécia. Após, o que se seguiu foi uma decadência da relevância de seus trabalhos (“Regras da Vida”, “Chocolate” e “Chegadas e Partidas”) enquanto, paralelamente, ganhava mais prestígio com a Academia. As indicações às estatuetas parecem confirmar um fato que aprisiona Hallström num estado que, ao mesmo tempo que permite que ele continue filmando as histórias que quer com a grande estrutura do mainstream industrial, exige que ele, em troca, pague com o sacrifício da ousadia. O conformismo. Nunca uma tradução de título pareceu ser melhor que o original (An Unfinished Life). Afinal, “Recomeçar “ indica começar de novo algo que algum dia já foi iniciado. Não é a retomada do ponto de onde se parou, mas se voltar à estaca zero. Um eterno recomeço. Um medo da mudança.

São sintomas do tempo atual, neoliberal, homogeneizador de valores que se querem fazer acreditar que estão em crise quando, na verdade, são códigos sociais imutáveis há séculos. E, se o mundo tende a se fazer cinema (3) , essa arte reflete e incorpora este estado da sociedade. E é justamente essa crise de todas as formas de agrupamento ( religioso, político ou mesmo núcleos familiares pequenos urbanos como o de Jean e Gary na cidade ) que proporciona o retorno à família como reduto seguro onde, afinal, se reencontram os valores seculares, e também onde um certo cinema reacionário e conservador se perpetua.

(1) A escolha de Jeniffer Lopez para o papel não poderia ter sido mais conveniente, uma vez ela já havia feito o papel da mulher sofredora em “Nunca mais” (2002).

(2) O produtor Kellian Ladd disse em entrevista que uma dos motivos para a escolha de Beca Gardner para o papel foi o fato de, apesar de seus 13 anos e corpo infantil, seu rosto e sua maturidade eram de uma pessoa adulta.

(3) “ O mundo se isolou das pessoas, ele se fez cinema”, Jean Luc Godard. * Um panorama sobre a produção cinematográfica contemporânea e como ela tem tratado a questão da família pode ser lido no artigo “ Famille Polítique ”, de Jean-Michel Frondon, na Cahiers du cinéma de set/2005.
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