O VENENO DA MADRUGADA:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Ruy Guerra
Elenco: Leonardo Medeiros, Juliana Carneiro, Fábio Sabag, Zózimo Bulbul, Jean Pierre Noher, Rejane Arruda, Luah Galvão, Nílton Bicudo, Danielle Barros, Maria João Bastos, Amir Haddad, Emílio de Melo, Murilo Grossi, Rui Resende, Antônio Melo, Fernando Alves Pinho
Duração: 118 min.
Estréia: 17/03/2006
Ano: 2005


"O Veneno da Madrugada", cinema de poesia.


Autor: Leonardo Mecchi

Ruy Guerra é hoje, juntamente com Júlio Bressane, um de nossos cineastas mais radicais e experimentais. Devido a essa característica, seus filmes nem sempre tiveram um grande apelo de público, mas quase sempre encontraram grande repercussão junto à crítica nacional e internacional (Guerra já teve quatro filmes selecionados para o Festival de Berlim – sendo que “Os Fuzis” e “A Queda” foram premiados com o Urso de Prata – e três para o Festival de Cannes, incluindo “Estorvo”, sua adaptação do romance homônimo de Chico Buarque).

Com “O Veneno da Madrugada”, Ruy Guerra chega a seu 25o longa-metragem e quarta adaptação da obra de Gabriel García Márquez. O romance do escritor colombiano – intitulado “La Mala Hora” e que precede seu grande clássico “Cem Anos de Solidão” – relata a vida dos habitantes de um pequeno povoado (governado por um alcaide simultaneamente patético e ameaçador, interpretado no filme por Leonardo Medeiros) que se vê subitamente infestado de bilhetes anônimos que expõem os segredos de seus habitantes.

Em sua adaptação do livro, Guerra dá continuidade ao radical trabalho de linguagem realizado em “Estorvo” e compõe em “O Veneno da Madrugada” uma narrativa em “camadas”, na qual a mesma história é contada três vezes, com acontecimentos e desfechos diferentes. Ligando as três histórias, uma vidente de circo que parece saída de um filme de David Lynch fala sobre flechas do tempo que são lançadas em diferentes direções. Não se trata neste caso de visões diferentes de uma mesma história (como em “Rashomon”, de Kurosawa) ou de uma composição na qual apenas uma história é verdadeira e as demais são frutos de sonhos ou imaginação. No caso do mais recente filme de Ruy Guerra, cada história é tão verdadeira e real quanto as demais, e se sobrepõem de uma maneira aparentemente impossível e contraditória. Em entrevistas recentes, o diretor afirma ter baseado a construção dramática de seu filme em princípios da física quântica, que permitem que um mesmo evento ocorra simultaneamente em lugares diferentes e com resultados diversos.

Ruy Guerra buscou uma narrativa anti-naturalista para seu filme e apostou na criação de um clima de estagnação e decadência para passar o sentimento dos habitantes dessa cidade imaginária. Para atingir tal resultado, utilizou com precisão as ferramentas a seu dispor: a fotografia de Walter Carvalho prioriza o monocromático, puxando todas as cores para uma tonalidade marrom, desgastada – como a da lama causada pela chuva que assola ininterruptamente o povoado –, e a cenografia e figurino acompanham esse mesmo conceito visual. A trilha sonora é composta basicamente de ruídos de cena amplificados e os diálogos foram todos dublados, nem sempre pelo mesmo ator que interpreta o papel.

Tais opções criam uma resistência inicial no espectador acostumado a uma narrativa mais tradicional e esse será um dos grandes desafios do filme junto ao público, desafio esse com o qual Ruy Guerra já está acostumado, por ser um dos poucos diretores mais fiéis à linguagem que desenvolve do que aos ditames do mercado.

Obra radical e perturbadora, “Veneno” exige do espectador um despir de hábitos e um mergulho profundo na experiência de um artesão do cinema. Embora não atinja a pegada e maestria de “Estorvo”, trata-se de um dos melhores exemplares de cinema autoral produzido no Brasil nos últimos anos.
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