O MATADOR:


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Original: The Matador
País: EUA/ Alemanha/ Irlanda
Direção: Richard Shepard
Elenco: Pierce Brosnan, Greg Kinnear, Hope Davis, Philip Baker Hall, Adam Scott e Dylan Baker.
Duração: 97 min.
Estréia: 10/03/2006
Ano: 2005


O Matador" - sem permissão para matar


Autor: Cid Nader

Vendo os créditos iniciais de "O Matador", com seu colorido seco de cores primárias, contornos retos - nos créditos iniciais, na maneira de enquadrar as cenas - e de bom gosto, como se fosse trabalho de um arquiteto de bom gosto, o próprio título original, "The Matador", com uma mistura de línguas interessante - principalmente por se tratar de produção realizada em terras norte-americanas, apesar de ser produção tri-nacional (EUA, Alemanha, Irlanda) - e momentos de non-sense contidos e bem estrurados, veio-me à mente o cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Mestre em construir filmes com características semelhantes o espanhol poderia naturalmente ter sido alvo de uma singela homenagem por parte do diretor Richard Shepard, se não na essência contestadora, no entorno aparente da construção de uma película - se bem que no decorrer da história o personagem principal, Julian Noble (Pierce Brosnan), enverede por crise existencial digna dos cristãos/culpados/personagens de Almodóvar.

O já apresentado Julian Noble é um matador profissional, diversamente de James Bond (por ele caracterizado e por onde ficou mais conhecido) que tinha autorização para matar, sem liberação oficial para tal. As diferenças terminam praticamente por aí, pois o matador dessa película também é mulherengo - melhor ainda, correspondido sempre que se interessa por uma - e tem suas missões espalhadas por todo o mundo - diversas cidades e localidades, o que acaba por imprimir no filme aquele ar de exotismo e elegância a que Pierce Brosnan estava acostumado quando desempenhava o papel do agente "007". Num dado momento cruza o seu caminho, num distante hotel, o "certinho", vendedor e marido exemplar, Danny Wright (Greg Kinnear), que num primeiro encontro descobre um Noble complexo, de reações áridas e ríspidas, alguém a ser evitado, sem nenhum tipo de química capaz de criar qualquer tipo de fusão ou reação catalisadora.

Os caminhos que a trama delineia não se mostrarão paralelos o tempo todo para os dois protagonistas principais e, através de uma sacada interessante do roteiro, mostrará que ninguém e nem nada é pleno e "fechado" na aparência inicial, isso é, aquela primeira impressão, a fachada aparente, a tinta que pinta o exterior, são coisas absolutamente mutáveis ou simplesmente verniz que cobre todas as complexidades que compõe a personalidade humana. O matador se mostrará frágil a partir de certo momento e esse será um sinal para a aproximação e revelação das coincidências que podem se manifestar nos momentos de composição de afinidades. O perfil imaginado para Julian Noble - algo que varia entre o letal, o engraçado, o pitoresco, o sensual e o desastrado -, com seu bigode à la "Magnun", maneira correta no andar e sorriso sinceramente aberto/sádico/infantil, encontou na figura de Pierce - em um contraponto ao imaginário criado por ele anteriormente em seus filmes - uma invenção tão correta que o filme acaba por ganhar pontos positivos ao final.

Longe de ser uma grande obra, o diretor demonstrou, de maneira quase didática, o quanto o trabalho bem orientado do ator significa para o resultado de um filme. O tamanho e importância que tem, quando alguns outros quesitos de importância relevante se mostram mais enfraquecidos e não coesos, como acontece no caso de "O Matador". Se sorte dele e mérito maior de Pierce Brosnan só o futuro poderá demonstrar, quando novas obras suas iluminarem as telas.
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