UM HERÓI DO NOSSO TEMPO:


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Original: Va, Vis et Deviens
País: França / Bélgica / Israel / Itália
Direção: Radu Mihaileanu
Elenco: Yaël Abecassis, Roschdy Zem, Moshe Agazai, Moshe Abebe, Sirak M. Sabahat, Roni Hadar,
Duração: 140
Estréia: 10/03/2006
Ano: 2005


“Um herói do nosso tempo”: Radu Mihaileanu e a luta pela sobrevivência.


Autor: Cesar Zamberlan

Certos títulos mais afastam do que aproximam o espectador do filme, “Um herói do nosso tempo”, título brasileiro para o novo filme do diretor romeno Radu Mihaileanu, famoso por “Trem da Vida”, é um exemplo. Nós que adoramos ridicularizar nossos irmãos portugueses com seus títulos bizarros, desta vez deveremos levar o troco. Lá, o título original do filme “Va, Vis et Deviens” - “Vá, viva e se transforme” numa tradução literal - foi batizado simplesmente como “Vai e vive”. Brilhante. Ponto para os portugueses.

Abro esse texto falando do título porque ao contrário do que ele pode sugerir, o filme não faz uma apologia de um personagem a ponto de torná-lo um herói do nosso tempo, seja lá o que isso representa. O filme, aliás, nem tem a pretensão de explicar que tempo é esse, não defende uma tese. Longe disso. Radu Mihaileanu fala, sim, de uma questão mais primitiva e que já abordara em “Trem da Vida”: a fuga da terra natal como único meio de garantir a sobrevivência. E conta, mais uma vez, uma bela história, a do garoto Schlomo que tal qual os judeus romenos de “Trem da Vida”, é um desterrado em busca de um local onde possa manter se vivo, nada mais que isso. Sobreviver é a questão.

Mas, diferente de “Trem da Vida”, no qual judeus fogem da sua aldeia para escapar dos nazistas; em “O herói do nosso tempo”, a fuga é motivada pela seca terrível, pela fome e também para fugir de regimes opressivos.

O diretor Radu Mihaileanu conhece bem essa questão, seu pai decidiu trocar o sobrenome judeu Buchman por Mihaileanu durante a Guerra para fugir aos Nazistas e ele próprio “fugiu” da Romênia de Ceasescu para tentar a vida na França. Daí a sua ligação com o tema.

“Um Herói do nosso tempo” começa num campo de refugiados no Sudão que abriga africanos oriundos de vários países, entre eles muitos etíopes que sobreviveram a uma jornada de 600 km da Etiópia ao Sudão. Muitos desses etíopes são judeus, os falashas, e serão levados de avião para Israel numa operação conjunta dos norte-americanos com os israelenses, batizada de Operação Moisés.

O garoto Schlomo, o personagem central do filme, é um desses refugiados, só que de origem cristã. Obrigado pela mãe, ele se faz passar por filho de uma outra etíope que havia perdido seu filho dias antes, essa sim uma falasha. De braço dado com ela, ele segue rumo à terra prometida. “Vá, viva e torna-te” ou “transforma-te”, título original, reflete, portanto, a ordem da mãe ao pequeno e vira o tema do filme que irá tratar dessas três etapas na vida de Schlomo que em Israel vira Salomão e mais do que esconder que é cristão, precisa se passar por judeu, vencendo toda sorte de preconceito por ser, ou se fingir de, judeu negro em meio a tantos brancos.

Radu consegue uma proeza que já conseguira em “Trem da vida”, aliar momentos extremamente tristes, dolorosos com momentos de muita graça. Nesse filme, o humor é mais contido, mas certos personagens são tão marcantes quanto o bobo da aldeia de “Trem da Vida” que por sinal também se chamava Schlomo. Aliás, a principal característica a ser destacada nesse filme é a capacidade do diretor de dar contornos humanos marcantes aos seus personagens. Tanto Schlomo, como sua mãe adotiva em Israel, o filho pequeno dela, o vô adotivo e a namorada de Schlomo são tão bem construídos que é difícil não simpatizar com eles.

Por outro lado, pesa contra o diretor um certo desleixo na direção e o fato do filme cair na sua parte final quando o roteiro, antes tão bem amarrado, sucumbe a uma série de acontecimentos que o filme, apesar dos seus 140 minutos, não dá conta de caracterizar com a mesma força.

Premiado em Berlim com o Grande Prêmio do Júri, Grande Prêmio do Público, Prêmio do Júri Ecumênico, mas preterido na recente entrega do César francês cujo grande vitorioso foi o igualmente bom “De tanto Bater meu coração parou”, “Um herói de nosso tempo” mostra um diretor que parece ter muito a dizer, que sabe como construir ótimos personagens, que consegue fazer o filme fluir como poucos, mas que ainda precisa amadurecer como cineasta, que precisa ter mais apuro técnico, o que não chega a ser uma crítica em se tratando de um diretor com três filmes no currículo e jovem.

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