MENTIRAS SINCERAS:


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Original: Separate Lies
País: Reino Unido
Direção: Julian Fellowes
Elenco: Linda Bassett, Rupert Everett, Christina Kyriacou, John Neville, Hermione Norris, Emily Watson e Tom Wilkinson.
Duração: 87 min.
Estréia: 03/03/2006
Ano: 2005


"Mentiras sinceras não me interessam"


Autor: Leonardo Mecchi

“Se quiser que algo seja bem-feito, faça você mesmo”. Infelizmente, o famoso ditado popular não se aplica a Julian Fellowes. Premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Assassinato em Gosford Park” – uma bela homenagem a “A Regra do Jogo” de Renoir, dirigida por Robert Altman –, Fellowes estréia na direção com este equivocado “Mentiras Sinceras”, cujo roteiro adaptou do romance “A Way Through the Wood”, de Nigel Balchin.

Enquanto Hitchcock conseguia realizar verdadeiras obras-primas baseadas em romances cuja qualidade literária era no mínimo duvidosa – caso, por exemplo, de “Rebecca” –, Fellowes pegou essa história de 1951 sobre um casal de meia-idade em crise, adicionou uma trama policialesca ao enredo e saiu-se com um filme cuja razão de ser escapa completamente a qualquer compreensão.

A comparação com Hitchcock não é gratuita. Fellowes parece buscar inspiração no mestre do cinema para realizar seu retrato da elite britânica, utilizando-se fortemente da música para pontuar o suspense. Entretanto, o diretor parece não ter tomado nota corretamente das lições de seu conterrâneo. Dividido entre o questionamento moral do drama conjugal e o suspense da trama policial, Fellowes não desenvolve nenhum dos dois a contento, deixando o espectador à deriva em busca de algo a que se apegar no filme.

No roteiro de Fellowes, James e Anne Manning formam um casal aparentemente feliz até que Bill Bule, um jovem aristocrata que acaba de retornar dos EUA, começa a freqüentar as festas organizadas por eles. Na noite de uma dessas festas, uma pessoa morre após ser atropelada em um acidente cujo culpado foge da cena do crime. Suspeitando do envolvimento de Bill, James está prestes a entregá-lo à polícia quando descobre que quem estava dirigindo o carro de Bill naquela noite era sua esposa, que vinha mantendo um caso extra-conjugal com ele. Tentando desesperadamente manter sua esposa e as aparências, James submete-se a todo tipo de humilhação e passa a fazer parte de uma rede de mentiras para encobrir o envolvimento de Anne no crime, sendo obrigado inclusive a aceitar sua relação com Bill.

Apesar do bom elenco – Emily Watson (“Ondas do Destino”, “Hilary & Jackie”), Tom Wilkinson (“Ou Tudo ou Nada”, “Entre Quatro Paredes”) e Rupert Everett (“O Casamento do Meu Melhor Amigo”, “Memórias de um Espião”) – os dilemas morais dos personagens não convencem, parecendo mais estratégias para desenvolver a trama do que questionamentos sinceros, e o suspense do enredo tão pouco funciona, por se mostrar excessivamente manipulador e previsível.

Preocupado com o “labirinto moral” que pretendeu criar, Fellowes esqueceu de tornar seus personagens pessoas reais, com sentimentos e emoções sinceros com os quais o espectador pudesse se identificar. Em um filme que depende fundamentalmente dessa empatia entre o espectador e os personagens, um erro como esse torna-se fatal.
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