SRA. HENDERSON APRESENTA:


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Original: Mrs. Henderson Presents
País: Reino Unido
Direção: Stephen Frears
Elenco: Judi Dench, Bob Hoskins, Will Young, Kelly Reilly, Thelma Barlow e Christopher Guest.
Duração: 103 min.
Estréia: 03/03/2006
Ano: 2005


"Sra. Henderson" - Que tristeza!


Autor: Cid Nader

Sinto-me bastante entristecido quando penso naquele Stephen Frears, de aspecto puramente britânico-engajado, que surgiu nos idos dos 1980 com seu intrigante, revolucionário e bastante ousado à época "Minha Adorável Lavanderia", onde abordava, numa tacada única, dois episódios bastante controversos e indigestos para o comportamento de uma sociedade estabelecida e bem sentada em seus sofás - homossexualismo e migração paquistanesa em busca de oportunidades. Tristeza essa que - ao menos - não me caiu por sobre de supetão, que vem instalando-se no meu íntimo cinéfilo aos poucos e a cada obra que Frears lança à praça - talvez tendo como exceção honrosa a tal sucessão de caneladas, o simpático e carismático "Alta Fidelidade". Ele foi descoberto pela grande indústria logo após o sucesso de "Minha Adorável..." e, infelizmente, parece ter se rendido aos apelos fáceis que, provavelmente, lhe foram propostos por ela, entrando para o clube dos profissionais que se vendem pela grana, esquecendo-se do primeiro time pelo qual jogaram, onde foram revelados, beijaram o escudo e declamaram amor eterno e fidelidade constante.

Aquele sujeito político e fora do contexto padrão da época, mais uma vez se apresenta com a nova camisa e nos oferece como descompensação, "Sra. Henderson Apresenta", um filme recheado dos piores vícios imagináveis, dirigido pelo diretor da maneira mais burocrática possível, como se não tivesse abraçado a causa; passando a impressão de que aceitou um trabalho por encomenda e resolveu apenas fazê-lo, tal qual o jogador que vai a uma partida amistosa pelo cachê oferecido, faz alguns malabarismos com a bola, toma um banho rapidíssimo, se manda antes do final da partida e, no avião que o leva de volta ao lar ainda tem a pachorra de falar mal de quem o contratou. Exagero? Tomara que sim, pois se Frears concretizou esse filme com a alma em paz, satisfeito com o resultado alcançado, deverei repensá-lo desde o início de sua carreira e não somente a partir do momento em que aceitou fazer "Ligações Perigosas", em 1988.

A história - "baseada em fatos reais" -, nos conduz ao período que antecede a II Guerra Mundial, na Inglaterra, e conta a história da recém-viúva, Laura Henderson (Judi Dench), que resolve, como maneira de tocar a nova vida após a morte do marido, comprar um pequeno teatro em Londres, contratando para ajudá-la na empreitada, Vivian Van Damm (Bob Hoskins), um judeu ligado às artes, capaz de orientá-la na nova atividade. História mal contada vai, história mal contada vem, percebem que como teatro de variedade comum não conseguirão sobreviver - por conta da ascensão dos novos concorrentes - e resolvem no nu artístico, de maneira diferenciada, pois a lei não permite tal tipo de atividade na Inglaterra da época, passando a usar mulheres nuas e paradas; qual estátuas a ornar o ambiente preenchido por musicais.

Como musical é maçante antiquado. Tenta se sustentar pela beleza nas mulheres que desfilam pela tela, mas emoldura o visual com textos infantis, inconcebíveis e de pouca credibilidade - como se escritos por cabeças adolescentes, tal a falta de profundidade. A razão alegada por Sra. Henderson, ao final, para explicar - como se alguém estivesse cobrando algo a respeito - os motivos que a levaram a criar tal atividade teatral, beira o patético, ainda mais envolvida por algumas dezenas de soldados, como se desenhou a cena. O destino da principal atriz pareceria arrancado de uma novela mexicana, não fosse a paisagem úmida e fria e o fato de se estar falando em inglês na tela. A percepção de que uma guerra estava prestes a eclodir - isto pelas razões alegadas por ela anteriormente - com certeza constituiu-se no maior erro de avaliação do governo britânico em todos os tempos, num fato que poderia ter modificado destino da humanidade - brincadeiras à parte, uma grande "canhestrice" do filme.

Filme de aparências. Só. Infelizmente, principalmente, por tratar-se de obra de Stephen Frears.
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