FORA DE RUMO:


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Original: Delaired
País: EUA
Direção: Mikael Håfström
Elenco: Clive Owen, Jennifer Aniston, Vincent Cassel, Melissa George, RZA, Addison Timlin, Tom Conti, Xzibit, Giancarlo Esposito, David Morrissey e Rachel Blake.
Duração: 107 min.
Estréia: 24/02/2006
Ano: 2005


Cabeças fora de prumo


Autor: Cid Nader

Fora de rumo ficará quem se aventurar, sala de cinema adentro, após despender parte de seu rico dinheirinho, em busca dessa coisa indigna de ser categorizada como filme, "Fora de Rumo", num atentado à saúde mental e bons costumes do ser humano comum perpetrado pelo diretor Mikael Håfström.

A mania dos filmes que são concebidos para tentar atrair uma clientela ansiosa por um bom suspense e que resultam em fiascos - talvez não financeiros, mas sim mentais -, vem sendo representadas nas telas numa seqüência tão espantosamente ruim e constante que poderíamos definir como escandalosa tal tendência despudorada. Esse diretor começa por tentar fazer com que engulamos seu filme-traque como simples peça de suspense, omitindo, de maneira não tão contundente - quer que percebamos, na realidade - uma certa lição de moral, em defesa dos bons costumes que só dão chance às famílias bem constituídas, onde maridos não pulem a cerca, não tirem as ostensivas alianças douradas do dedo, sob pena de se verem julgados e punidos aqui na Terra mesmo pelos riscos assumidos. Afora a ruindade no quesito suspense - que tentarei comentar um pouco à frente -, ele, de maneira falsamente aleatória, denomina um dos protagonistas principais como Charles Schine (Clive Owen), numa mistura de descendência cristã e judaica, que se diz consumido pela culpa por conta da criação sob os ensinamentos das duas religiões, isso num papo à toa, num trem, como se fosse somente um elemento complementador de roteiro sem nenhuma importância. Implícita - mas nem tanto - está mais uma tentativa dessa demonstração ostensivamente moralista em defesa da família, a qualquer custo, que tem tomado de assalto as telas nos últimos tempos.

Porém, para piorar um pouco mais, o combustível usado para conduzir tal veículo de propaganda usa combustível da pior qualidade, representado aqui por um roteiro violento - qual a novidade, afinal, parece que no imaginário dos produtores atuais o público alvo não conseguiria conceber suspense sem sangue -, absolutamente previsível - pecado mortal nesse caso - e pior do isso, de uma previsibilidade que indica para um desfecho abaixo do nível. Qualquer espectador minimamente ligado ao início das encrencas perceberá e detectará as possibilidades de encaminhamento da trama. Perceberá não ter se enganado e, já chateado por ter percebido que a solução era aquela ruim mesmo que havia imaginado, terá que agüentar uma sucessão de clichês que insistirão em impedir o desfecho da trama - que Deus me perdoe -, piorando ainda mais o que parecia ser "impiorável".

A história envolve homem ligado ao mundo da publicidade, o já menciona Schine, com uma adorável e sensual mulher de finanças, Lucinda Harris (Jennifer Aniston). Conhecem-se por acaso num trem urbano e acabam por extrapolar a barreira do conhecimento formal, caindo no campo da relação amorosa - a tal extra-conjugal. Acabam punidos por tal ousadia; e aí entra o ator francês Vincent Cassel, a única coisa boa do filme, realmente muito bem, mas que, por outro lado, acaba por se tornar um dos elementos denunciadores do futuro do "imbróglio" - por sua importância no mercado internacional; pelo fato de ser um francês num filme de alma americana, que mereceria papel de maior relevância do que o aparentemente a ele designado.

Como suspense ruim, moralista também, e - disfarçadamente - racista, ao incluir um ator negro - RZA - que, "obviamente", egresso de uma cadeia, poderia vir bem a calhar para resolver os pepinos plantados pelo galã principal. O final que se estica é patético - em cena inesperada e fora de qualquer lógica numa penitenciária - e remete ao tudo acaba bem quando termina bem; em família.

Se você for um pouco esperto descobrirá logo o que ocorrerá. Se for mais esperto ainda, nem verá o filme para tentar.
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