ABC DO AMOR:


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Original: Little Manhattan
País: EUA
Direção: Mark Levin
Elenco: Josh Hutcherson, Bradley Whitford, Charlie Ray, Cynthia Nixon, Tonye Patano, Kevin Watson, Jason Woodruff e Patsy Dougherty.
Duração: 90 min.
Estréia: 24/02/2006
Ano: 2005


"ABC do Amor" - um passeio por Manhattan


Autor: Cid Nader

Encarar "ABC do Amor" como um filme bastante simpático é tarefa fácil e óbvia à saída de uma sessão. O filme fala de crianças, com os primeiros instintos mais complexos com relação ao sexo e emoções; aqueles que denotam a chegada da pré-adolescência. Tais manifestações, movidas mais pelos hormônios da preservação da espécie do que aqueles que determinam os pais como "a segurança" e "os provedores", perfazem o trajeto mais aparente desse trabalho do diretor Mark Levin.

O garoto Gabe (Josh Hutcherson), de 11 anos incompletos, começa a perceber, de repente, que garotas não são simplesmente condutoras de piolhos - "seja lá o que isso for" -, podendo causar além de manifestações fisiológicas desagradabilíssimas, uma certa reação na boca do estômago nunca antes experimentada ou sentida. A garota motivadora de tais sensações e responsável por deixar os eternos amigos de bola ao cesto num segundo plano inédito, Rosemary Telesco (Charlie Ray), adentra o mundo do garoto pelas portas do caratê - formam uma dupla nas aulas da arte-marcial chinesa -, uma instituição de apelo mais masculino portanto, numa quebra dos rumos naturais traçados pela sociedade; de maneira geral.

O filme é, no todo, bastante narrado "em off" por Gabe, que nos expõe todos os seus sentimentos e pensamentos à maneira de um diário contado. Tal utilização de linguagem como fio narrativo condutor da trama, necessitaria de ator com expressões faciais e corporais mais variadas e significativas - alguém com mais poder de "bem atuar", algo do que não é dotado o ator mirim Josh -, fazendo com que tamanho excesso de pensamentos, deduções, conclusões e sentimentos, já não tão naturalmente infantis - as idéias tem uma carga de matiz adulta impostada à mente infantil -, ganhem dimensão um tanto estranha e artificial. Falar da descoberta do amor carnal, criar situações de desenvolvimento fácil e leve para conduzir-nos por "esse novo mundo", usando bom humor e imagens de uma Nova Iorque bastante limpa e asseada, é de um fator encantatório a toda prova; armadilha que, se bem armada, além de nos capturar não nos permite sentir dor ou coisas ruins.

É uma maneira de se ver o filme. Outra, poderia ser pela ótica de um passeio turístico pela Big Apple, conduzidos por mãos de gente bastante apaixonada pela cidade, como se quem estivesse a nos "ciceronear" fosse um Woody Allen petit, ainda imberbe e bastante atrapalhadinho pelos novos sentimentos a brotar. A Nova Iorque de Gabe não deveria exceder a um quadrado formado por nove ou dez quarteirões, mas sua amada mora mais distante e fronteiras merecem ser quebradas por motivo tão nobre. E a cidade passa a ser mais um ator - ou atriz - na história, mostrada em alguns recantos pouco conhecidos e de uma altura um tanto mais baixa, por ângulos que olhos de crianças de 11 anos podem alcançar.

Agora, se de maneira chata e um tanto ranzina a tentativa de compreensão do trabalho deslocar-se para o lado onde se situam os pais do moleque - um casal que já foi exemplar, em fase de separação, à espera do tempo legal para a concretização oficial do divórcio -, o filme pode ver abandonada a sua aura de divertimento calcado na pureza de sentimentos infantis, podendo vir a ser compreendido como mais uma manifestação de alguns setores, em defesa da manutenção da família constituída e indissolúvel como única maneira de se bem levar a vida; única maneira de se manter um padrão comum e saudável como opção para a criação de crianças felizes. E o filme também raspa por tais tentativas - chega a invadi-las -, criando uma sensação de "pulga atrás da orelha" ao seu desfecho. A futura separação dos pais do moleque parece somente mais um componente para amarrar a trama, mas por algumas brechas que as amarras não conseguem esconder é possível entrever - ao menos pelos mais ranzinzas - situações de cunho conservador e retrógrado.

Mark Levin - para quem entender o filme como diversão sossegada e sem sobressaltos - monta seu trabalho com boa inserção de músicas conhecidas e de forte ligação com a cidade, cria clima leve e fugaz através do uso de uma câmera bem postada e que capta suas imagens de maneira serena e elegante - sem ser extremamente formal. Usa alguns truques de computação gráfica espertos e em momentos pertinentes: com as letras que fazem parte do ritmo na abertura, um mapa em planta de Nova Iorque, um prédio que sai singrando e, principalmente, uma participação muito especial de um "mestre chinês das artes marciais" com o qual obtém os melhores resultados do filme; entre outros. Não foi muito feliz na escolha dos atores mirins - principalmente por Josh Hutcherson -, contrariamente ao que conseguiu com os efeitos especiais; isso - novamente - dependendo do tipo de apreciação escolhida por cada um.
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